Saúde

Depressão pós-parto: um dilúvio na vida das mães

A gravidez e o pós-parto trazem uma intensidade à vida das mulheres difícil de conceber por palavras. Mas esta fase de enamoramento e felicidade nem sempre acontece de forma linear. Pode ocorrer um cenário de desequilíbrio físico e emocional, a súbita e tão indesejada depressão pós-parto.

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Depressão pós-parto: um dilúvio na vida das mães
© Getty Images
Marta Vieira
Escrito por
Jan. 27, 2020

O nascimento de um filho é um momento único na vida de uma mulher e cada gravidez é uma gravidez. Dito isto, as alterações aos níveis biológico e psicológico por que por que passam estas mães de primeira, segunda ou mais levas são tão acentuadas quanto imprevisíveis.

Por razões alheias à vontade ou desejo da mãe – e muito menos por sua culpa – pode suceder um estado de tristeza, ansiedade e exaustão profunda, sem motivo aparente, mas com pretensões para durar. Uma condição que pode afetar a capacidade da mulher para cuidar de si e/ou do bebé.

Falámos com Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica e terapeuta Emdr, na clínica de psicologia e coaching Learn2be para nos ajudar a compreender este transtorno de humor em pleno: as suas causas, sintomas e tratamento, mas também mitos e conceções erróneas associadas.

O que é e o que não é

Em primeiro lugar é bom referir que se trata de uma altura em tudo contraditória. “Se por um lado é esperado que estejamos felizes pelo nascimento e toda a família está feliz pela chegada do novo membro, a mãe poderá experienciar também medos, inseguranças, cansaço, nostalgia e mesmo tristeza” começa por explicar Catarina Canelas Martins.

Na realidade, é importante distinguir de um outro período, o chamado “baby blues”. “Normalmente esse período ocorre logo após o parto e poderá durar até cerca de duas semanas” explica-nos a psicóloga acrescentando que “quando esse estado se mantém e se torna mais intenso e limitante, então a mulher poderá estar a sofrer de uma depressão pós-parto”.

Tem tudo a ver com a persistência e intensidade dos sintomas ao longo do tempo. Se ao fim das primeiras semanas de adaptação, a mulher não sentir uma melhoria no seu ânimo, será conveniente fazer uma avaliação, alerta-nos Catarina Canelas Martins.

O diagnóstico será realizado por um psicólogo e/ou psiquiatra. Idealmente, Catarina Canelas Martins fala num acompanhamento multidisciplinar à mãe, com outros técnicos como conselheiras de aleitamento ou especialistas do sono do bebé, a darem apoio à mesma.

Será o meu caso? Principais sintomas

Tristeza extrema;
Estado de apatia;
Choro fácil;
Desesperança;
Aumento da ansiedade;
Cansaço extremo;
Distúrbios de sono;
Dificuldade na vinculação ao bebé (não significa que não o ame);
Sentimentos de inutilidade, culpa ou desespero;
Redução da libido;
Dificuldade de concentração.

Para além desta sintomatologia associada à depressão pós-parto, onde se inclui, entre outros, um quadro similar à depressão comum, pode ainda ocorrer “um estado menos comum, mais grave, de psicose pós-parto, com delírios, desconfiança, descontrolo emocional, paranóia, tentativas de prejudicar a si mesmo ou o bebé” como atenta a psicóloga clínica.

Esta doença não se limita a pessoas de estratos sociais específicos nem está relacionada com a falta de amor pelo seu bebé ou é um sinal de fraqueza – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

De onde vem tudo isto?

Esta doença não apresenta uma causa única. Identificam-se, pois, causas hormonais, emocionais e sociais.

Catarina Canelas Martins dá-nos algumas pistas, destacando “a privação de sono, o isolamento, a falta de apoio do parceiro (e/ou dificuldades no relacionamento), uma rede de suporte escassa ou inexistente, perturbações mentais (como depressão, ansiedade) ou mesmo uma alimentação inadequada” como possíveis causas, que na verdade coincidem com alguns fatores de risco.

“Outra questão que é importante desmistificar é a responsabilidade da mulher neste processo”, Catarina Canelas Martins vai de encontro à nossa próxima questão. O sentimento de culpa por parte das mães é real. Sentem que deveriam estar a vivenciar aquele momento de outra forma, como lhes disseram que seria, como viram com outras mães…, mas não é assim que acontece.

No entanto, “(…) não há razão para que a mulher se sinta culpada. Esta doença não se limita a pessoas de estratos sociais específicos nem está relacionada com a falta de amor pelo seu bebé ou é um sinal de fraqueza. O importante é procurar ajuda” refere de sopro, acrescentando a importância de “não idealizar quer a fase de gravidez como o pós-parto”.

Um futuro para a mãe e para o bebé

Depois de discorrermos sobre esta condição e os efeitos na mãe, torna-se determinante falar de soluções. Em relação ao tratamento, a terapeuta fala-nos na possibilidade de se aliar medicação e psicoterapia para que estas mães “(…) consigam encontrar um equilíbrio e sobretudo descobrirem como podem viver a maternidade de uma forma mais satisfatória”

Tal como imaginámos, a importância da partilha com quem está a passar/já passou pelo mesmo não deve ser descurada, pois é uma forma de “normalização das emoções sentidas nesta fase, bem como uma maneira de alargar a rede de suporte entre estas mães” diz-nos.

Na prática, a psicóloga fala de alguns círculos de maternidade, organizados por doulas “onde mães, mulheres que querem ser mães e recém-mamãs podem partilhar as suas experiências, dificuldades, sendo uma forma muito interessante se prevenir e melhorar estes sintomas”.

[A esperança está] na capacidade de pedir ajudar e recorrer ao apoio de técnicos que não irão julgar mas sim acompanhar lado a lado – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

Na realidade, toda a rede de suporte destas mães constitui um recurso excecional, seja pelo papel dos companheiros, da família ou dos técnicos de saúde. Catarina Canelas Martins confirma-nos isso mesmo distinguindo as vicissitudes do apoio familiar do apoio técnico.

Dos companheiros e família espera-se que sejam compreensivos nesta fase e que “estejam disponíveis para amparar sem crítica ou julgamento e sinalizar os sinais de alerta para, caso seja necessário, encaminhar esta recém-mamã para uma ajuda especializada”

Já dos profissionais de ajuda, dependendo da especialidade, o seu dever passará por “ouvir as necessidades das mães, dar suporte emocional, consciencializar para importância da expressão das suas necessidades e, muitas vezes, encaminhar para técnicos específicos [como já aqui foram referidos]”.

E a esperança onde reside? “Na capacidade de pedir ajudar e recorrer ao apoio de técnicos que não irão julgar, mas sim acompanhar lado a lado” orienta-nos Catarina Canelas Martins.

A maternidade é na sua base um processo de crescimento e desenvolvimento pessoal, com todos os desafios que isso acarreta – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

Posso antecipar-me?

Finalmente, uma questão que importa muito: como se pode prevenir a depressão pós-parto? A psicóloga clínica fala num processo a ser construído ao longo da gravidez pela mulher/casal.

“Alguns fatores de proteção serão a nossa ‘higiene emocional’, ou seja, estarmos conscientes das nossas dificuldades, aceitá-las e expressá-las”, para isso é importante compreender que “a maternidade é na sua base um processo de crescimento e desenvolvimento pessoal, com todos os desafios que isso acarreta”.

Sumariamente, é importante “para além de uma rede de suporte que possa dar tanto apoio logístico como emocional, ter uma relação saudável com o pai (no caso de casais heterossexuais), no sentido de se conseguirem expressar as necessidades sem julgamento” conclui.

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