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Mais tempo para a família, já! Eis 5 conselhos para pais sem pressa

Já todos sabemos que o tempo voa, que passamos a vida a correr de um lado para o outro, mas está na hora de parar para pensar. É preciso ter tempo de qualidade para os filhos, quem o garante é o pedopsiquiatra Pedro Strecht.

Sabia que o tempo médio diário que um pai ou uma mãe passa com os filhos é de apenas 37 minutos? Este dado mostra que está na hora de repensar a família e foi isso que o pedopsiquiatra Pedro Strecht fez no seu mais recente livro, Pais Sem Pressa (Contraponto), uma verdadeira resposta com vários exemplos e soluções práticas para quem se queixa, tal como nos diz o autor, “da dificuldade na gestão do tempo de uma forma em geral, e na relação com os filhos, em particular”.

Mas será que os pais estão conscientes dessa falta de tempo? O pedopsiquiatra diz que sim, “contudo, falta saberem dar passos práticos, alguns deles pequenos até, para realmente mudarem em concreto aquilo de que tanto se queixam. Dito de outra forma, é possível que cada um de nós controle mais o tempo em vez de se sentir controlado.” O ponto de partida para essa mudança é “pensar sobre o que é realmente importante ou prioritário nas nossas vidas”, afirma Pedro Strecht.

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5 dicas para pais sem pressa

O pedopsiquiatra Pedro Strecht aponta cinco conselhos para pais sem pressa (e responde a mais algumas dúvidas sobre slow parenting):

1. Controle ativamente o seu tempo. Passe de escravo a dono do tempo;
2. Procure um melhor equilíbrio entre trabalho/escola e lazer;
3. Descubra e mantenha pontos de fuga, algo que goste de fazer e que corresponda a momentos de prazer e descontração;
4. Adeque as suas expectativas pessoais e as que tem em relação aos seus filhos, ajustando-as à sua faixa etária e pontos de desenvolvimento;
5. Controle o excesso de tempo que ocupa em tecnologias.

Amas do século XXI

Se pensarmos que crianças e adolescentes passam mais de 2h30 por dia diante de um ecrã, percebemos que se perdeu um pouco o foco do que é estar em família e conviver. “Perdeu-se, sobretudo, o foco de conversar cara a cara, porque as pessoas conversam cada vez mais via Facebook ou através de outras redes sociais que, apesar de terem o condão positivo de ligar com facilidade uns a outros, também isolam e inibem um contacto mais direto entre todos, inclusivamente no seio de cada família”, realça o pedopsiquiatra.

Mas será que corremos o risco de as novas tecnologias se tornarem as amas deste século? “As tecnologias têm coisas excelentes e o seu desenvolvimento não para de nos surpreender, ao mesmo tempo que não deixa de trazer para a o dia a dia uma realidade em constante mutação. mas, existem riscos da sua exagerada utilização, nomeadamente quando utilizadas para conter ou controlar tarefas que deveriam passar por um envolvimento muito mais direto entre pais e filhos”, sublinha Pedro Strecht.

“Todos nós já fomos confrontados com uma criança de 2 ou 3 anos de idade que, à hora da refeição, só se alimenta com um tablet à sua frente… e o risco maior é perdermos a riqueza e qualidade das trocas afetivas e relacionais, quando ainda continuam a ser a essência da própria humanidade”, exemplifica.

A importância das rotinas

Pedro Strecht não tem dúvidas, “pais e filhos sofrem com a falta de possibilidade de estarem mais próximos uns dos outros e lutam contra uma pressão externa diária, nomeadamente a que se impõe através dos horários de escola e trabalho, das distâncias a percorrer, da falta de alguns apoios e estruturas sociais e culturais”. mas será que as crianças que sempre viveram neste modelo protestam?

“Quando não se queixam, pode ser mais preocupante. Pode indicar que já existe uma posição adaptativa extrema que também não parece esperar mudança”, explica. As rotinas são um ponto fundamental na relação entre pais e filhos.

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“Quando existentes, ajudam imenso na organização do dia a dia e, sobretudo, permitem não desperdiçar tanto tempo em inutilidades, porque ajudam numa autorregulação crescente dos mais novos e ajudam-nos a estabelecer prioridades, logo, a fazerem um balanço mais positivo do seu tempo diário.”

Na verdade, se os pais estão sobrecarregados com trabalho, os filhos também o estão com atividades extracurriculares. “Sem dúvida”, concorda Pedro Strecht. embora diga que o número exato de atividades passa por um bom equilíbrio entre escola e tempos livres, o pedopsiquiatra realça que a maioria desses tempos livres “devem ser ocupados por atividades não curriculares, como o desporto, o contacto com a natureza ou tudo aquilo que para cada um possa representar momentos de descompressão”.

Escola em mudança

Outro dado relevante que surge no livro é que, em Portugal, até aos 10 anos, as crianças passam oito horas por dia na escola e isso tem pouco de positivo, ou seja, para o pedopsiquiatra, a escola deveria mudar profundamente. “Há países da União europeia em que este tempo é muito menor e nem por isso os resultados escolares são menores, bem antes pelo contrário”, sublinha o especialista.

Tal como está explícito no livro Pais Sem Pressa, é necessário que os espaços escolares que dizem respeito a tudo quanto não ocorre em sala de aula sejam alvo de atenção e investimento: “Por exemplo”, questiona Pedro Strecht, “que tamanho têm os recreios em função do número de alunos da escola? Têm campos de desporto? Possuem árvores, zonas verdes, bancos, onde os alunos possam estar e conviver?”

Temos falhas, receios, cometemos alguns erros, mas essa é também um lado humano que torna qualquer vida muito mais natural e retira uma certa sombra perfeccionista que só desajuda na relação frutuosa entre pais e filhos – Pedro Strecht, pedopsiquiatra

Demasiado exigentes

Apesar da falta de tempo para a família, os pais de hoje são bastante exigentes para com os filhos. Para Pedro Strecht, essa exigência está muito associada “às expectativas ligadas ao sucesso escolar, projetando uma expectativa precoce sobre o futuro profissional e económico dos filhos. O que alguns autores definem como o modelo do homo laborans, aquele que vive exclusivamente centrado no seu trabalho e se organiza em função de critérios economicistas, parece estar a disseminar-se, marcando expectativas diferentes sobre as crianças e os adolescentes de hoje”. o que os progenitores devem reter é o conceito de ‘pais suficientemente bons’.

Como nos conta Pedro Strecht, esta é “uma expressão que foi primeiramente utilizada já no século XX por um pedopsiquiatra inglês, Donald Winnicott. Com esse conceito, queremos relembrar que o normal em cada um de nós enquanto adultos ou pais é não sermos perfeitos nem ter, evidentemente, essa preocupação. Temos falhas, receios, cometemos alguns erros, mas essa é também um lado humano que torna qualquer vida muito mais natural e retira uma certa sombra perfeccionista que só desajuda na relação frutuosa entre pais e filhos”.


Como faz a sua gestão de tempo com a família? Saiba ainda que se proteger demasiado os seus filhos, pode estar a criar maus alunos.

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