Nutrição

#PowerWorkGirls. Ana Bravo, a nutricionista que coloca o autocuidado em primeiro lugar

A nutricionista Ana Bravo, que apela à consciência alimentar mas sem fundamentalismos, revela-nos que o seu sétimo livro – sobre pessoas – constituiu um salto de coragem. E não se fica por aí.

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#PowerWorkGirls. Ana Bravo, a nutricionista que coloca o autocuidado em primeiro lugar
© Ana Dias
Marta Vieira
Escrito por
Jun. 24, 2020

Depois de ter publicado o livro Nutrição com Coração (Arena), a nutricionista Ana Bravo conta à Saber Viver o que a levou a adotar uma abordagem mais holística na alimentação, após um episódio de burnout que a fez mergulhar na Natureza, no ioga e na meditação.

Numa conversa longa e sem pretensões, falou-se também sobre o transtorno de compulsão alimentar periódica e as melhores estratégias para lidar com este distúrbio, nomeadamente nesta altura de confinamento social.

Se, em todos os outros livros, fez sentido partilhar a minha experiência como nutricionista, neste saio da minha zona de conforto e partilho um pouco a experiência da pessoa, sem bata
Ana Bravo, nutricionista Ana Bravo, nutricionista

Entrevista a Ana Bravo

O que a levou a escrever Nutrição com Coração?
Escolho um trecho do livro para responder a esta questão: “Nesta realidade em que reinam as regras e a disciplina, a necessidade de se ser perfeito ou de se mostrar que é, fica pouco espaço para nos amarmos e também para voltarmos a gostar da comida, a comidinha boa, a ‘comida saudável e feliz’ de que tanto falo. A consciência alimentar é urgente, sim, mas não este fundamentalismo que escraviza as pessoas. Esquecemo-nos de nós e é nesse caminho que pretendo ajudar”.

A quem se destina e qual é a mensagem principal que gostaria de passar?
Destina-se a todas as pessoas que passaram a fazer da sua vida uma maratona constante e não paravam para se escutar, para se mimar. Depois de seis livros cujo objetivo era a alimentação, este novo livro foca-se, antes de mais, em pessoas.

Todos somos parecidos e, no meio de tal semelhança, é ainda muito o que nos diferencia que nos torna únicos. Se, em todos os outros livros, fez sentido partilhar a minha experiência como nutricionista, neste, saio da minha zona de conforto e partilho um pouco a experiência da pessoa, sem bata.

Tornou-se muito claro que só fazia sentido escrever este livro se com ele pudesse ensinar as pessoas a gostarem mais delas próprias antes de iniciarem qualquer plano alimentar e, logo depois, a gostarem da sua relação com a comida e da comida em si.

livro nutrição com coração

Nutrição com Coração, Ana Bravo, Arena, 18,80€

Ao longo do livro, destaca a importância do autocuidado nos seus vários domínios. Acredita que esta abordagem mais holística é o caminho?
Acredito. O burnout que tive há dois anos fez-me mudar a minha forma de viver e de lidar com a comida. Primeiro, tive de perceber o que me faltava, porque na verdade sempre adorei o meu trabalho.

Procurei distanciar-me da minha realidade, comecei por mergulhar na Natureza sozinha, depois, fiz uma viagem com mulheres inspiradoras a Bali e, a determinada altura, percebi que gostava realmente muito do que fazia, mas não da forma como o fazia.

A meu ver, cada um deve procurar o seu caminho, começando precisamente por parar e escutar-se e então perceber o que lhe faz falta. Uma dica: meditação. Ajuda muito no meio de uma vida tão atribulada, competitiva e desgastante. Outra coisa: não olhar para a vida ‘aparentemente’ cor-de-rosa dos outros, ela não é real.

Existem vários distúrbios alimentares, sendo um destes o transtorno de compulsão alimentar periódica ou binge eating. De que se trata esta ‘fome emocional’?
Binge eating é um conceito que se traduz mais corretamente numa ingestão compulsiva, mais ou menos limitada no tempo, de um ou vários grupos alimentares, mas que caracteristicamente se define por não haver controlo enquanto acontece.

A ‘fome emocional’ é puramente hedónica: naquele momento, seja por que motivo for, precisamos daquele(s) alimento(s) para nos satisfazer/compensar uma emoção, ou um vazio.

Quais os principais sinais de alerta?
O primeiro é a forma como nos sentimos no final desse episódio; o segundo, diria que é a frequência com que ocorre; e o terceiro, a (in)capacidade para acabar com o mesmo. Para tudo isto acontecer, pressupõe-se que, em primeiro lugar, reconheçamos e tenhamos consciência do problema.

Que estratégias se podem adotar para a combater?
É preciso desconstruir todo o mecanismo comportamental que está por trás deste fenómeno. O modelo de terapia cognitivo-comportamental tem demonstrado muito bons resultados e passa não só pela aquisição de novos conhecimentos, como também pela integração destes em novas atitudes e comportamentos.

O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e esta fase única que atravessamos atualmente é passageira. Vamos gerindo uma situação, uma emoção, uma refeição e um dia de cada vez. E, todos os dias ao acordar, recomeçamos do ‘zero’
Ana Bravo, nutricionista Ana Bravo, nutricionista

Como se pode desintoxicar o corpo desses excessos?
A estratégia mais adequada passa por levar o dia a dia de forma mais saudável, física (alimentação e atividade física), psicológica (realização pessoal e profissional), social (relação com os outros, família, amigos, vizinhos, colegas, etc.) e espiritualmente (transcendental) – as quatro componentes da definição global de saúde.

Gostaria de deixar uma mensagem de esperança a quem lida de perto com esta condição, nomeadamente nesta fase de contenção social?
O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e esta fase única que atravessamos atualmente é passageira. Vamos gerindo uma situação, uma emoção, uma refeição e um dia de cada vez. E, todos os dias ao acordar, recomeçamos do ‘zero’.

Sugiro que procurem a meditação, que encontrem rotinas com ocupações, algo que dê prazer. Ainda que mantenham horários – se não os tinham antes, criem-nos agora –, mantenham a calma dentro dos limites que vos são possíveis. E lembrem-se de respirar fundo várias vezes, de mergulhar dentro de vocês!

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº 240, junho de 2020.

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