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Autocuidado: 20 regras para cuidar de si

O autocuidado tem de ser uma prioridade na sua vida. Reunimos os conselhos de cinco especialistas que lhe dizem o que fazer.

Se passa o dia a correr de um lado para o outro, a cuidar de tudo e todos e esquece-se de cuidar de si, tem de ler este artigo.

Reunimos 20 ideias para que o autocuidado passe a fazer parte da sua rotina diária. E sem sentimentos de culpa, porque só assim pode estar bem física e mentalmente, ser feliz e ser melhor para os outros.

O que é o autocuidado?

“O self-care, ou autocuidado, no seu sentido mais básico significa a capacidade de nos alimentarmos, lavar-nos e vestir-nos e sermos capazes de assumir o nosso lugar no mundo. Toda a gente o pratica, mesmo que não tenha essa consciência. Mas só isso não chega”, descreve Mel Noakes, coach na área da saúde e do bem-estar e autora do livro Bem me Quero (Clube do autor).

No sentido lato, o autocuidado defende que qualquer pessoa é responsável pelas mudanças na sua vida, na sua saúde e bem-estar. E nos dias que correm, praticá-lo exige muito mais esforço e dedicação.

O seu princípio fundamental pressupõe mudar realmente certos hábitos enraizados no dia a dia. E encontrar uma forma livre de viver, que a faça mais feliz, completa e saudável. Isso e encontrar tempo para si, e para desfrutar em toda a plenitude dos pequenos prazeres da vida.

Nunca se esqueça que o autocuidado é muito mais que uma hashtag – #selfcare.

Qual a sua importância na nossa vida?

Ao identificar as suas necessidades, as suas qualidades e as suas fragilidades, pode focar-se no que realmente importa. Não tem de se colocar em primeiro lugar, como nos disse em entrevista telefónica Mel Noakes, “tem sim de pensar também em si e não apenas nos outros”. E Mel sabe bem do que fala, afinal durante anos teve aquilo que parecia uma vida de sonho, mas a realidade era outra.

Uma baixa autoestima fê-la escrava do corpo até que percebeu que só atingiria a felicidade se cuidasse de si e não pensasse na opinião dos outros. Feliz é como se sente hoje, mas isso não significa que não tenha dias maus. “Todos os temos e é importante saber que nem todos os dias serão loucamente felizes e perfeitos. Mas penso que se tivermos uma boa base de bem-estar, autocuidado e de positividade, conseguimos lidar com isso”.

Ana Cláudia Quintana Arantes, médica e autora do livro A Morte É Um dia Que Vale a Pena Viver (Oficina do Livro) diz que o ponto de partida para cuidar de si é perceber que a vida é finita. A partir daí tudo o “que é supérfluo deixa de ser importante”. E foi também a sua experiência pessoal, como especialista em Geriatria, que a levou a essa premissa, como nos contou aquando da sua passagem por Portugal.

20 regras de autocuidado

1. Cuidar de nós é um dever

“Temos responsabilidade de tomar conta de nós próprios e costumamos andar tão ocupadas a tomar conta dos outros que nos negligenciamos a nós. Mas, na verdade, temos de ter a capacidade e energia para fazer as duas coisas”, afirma mel Noakes. Para a coach, “não precisamos de nos colocar em primeiro lugar, é mais um ‘eu também sou importante’”.

2. Bem-estar mental

“Se só fizer uma coisa por si, comece pelo bem-estar mental”, sublinha Mel Noakes. “Oiça a sua voz interior e aprenda a viver com essa voz, porque tudo começa na nossa cabeça. Pense positivo, integre-se no mundo real e faça uma coisa por si todos os dias. Este último passo vai influenciar a maneira como se vê”, acrescenta a autora de Bem me Quero.

mulher a relaxar

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3. A vida é finita

Se pensar na morte como algo natural será mais feliz. Ana Cláudia Quintana Arantes não tem quaisquer dúvidas disso. “Quando percebemos que somos finitos, todas aquelas coisas pequenas e desnecessárias que vão ocupando a nossa vida, o nosso pensamento e o nosso coração deixam de ter importância. Fica apenas aquilo que é realmente importante e olhamos para a vida e para o tempo de forma mais corajosa.”

A médica especialista em Geriatria e Gerontologia diz que não devemos ter medo da morte, mas respeito. “Se a respeitarmos, vamos cuidar bem do nosso corpo. De que vale ter medo da morte e depois beber e fumar?”, questiona.

4. Aproveitar cada momento

Mesmo que tenha alguém a precisar da sua atenção, aproveite os instantes que tem só para si. “Esses momentos podem ser um banho ou uma refeição. Entre no chuveiro e leve a mente consigo, não pense em mais nada naqueles dez minutos, sinta a água quente; sente-se à mesa e saboreie cada garfada. Isto é renovador, mas é preciso que mente, corpo, atitude e tempo coincidam”, diz Ana Cláudia Quintana Arantes.

5. Ser social

De acordo com Mel Noakes, a conexão com os outros é muito importante quando falamos de cuidado pessoal. “O nosso bem-estar também é a forma como nos conectamos com o mundo que nos rodeia. Os nossos familiares, amigos e colegas são muito importantes para termos uma vida preenchida”, afirma.

6. Ter uma relação de qualidade com alguém

Quando algo nos corre mal, temos tendência a fazer uma lista com todos os motivos para estar de mau humor, mas não tem de ser assim.

Ana Cláudia Quintana Arantes conta-nos um episódio que lhe aconteceu em Portugal: “Tinha sujado umas calças, tinha-me esquecido de um medicamento no Brasil e estava muito irritada. Olhei para o meu marido e perguntei-lhe como é que ele tinha paciência para mim quando eu estava irritada, porque eu própria não estava a conseguir. Ele respondeu-me que gostava de mim mesmo zangada, porque eu era a mesma pessoa que sorri para ele e que tem paciência para ele quando está bem-disposta.

É muito importante termos esta qualidade de relação com alguém. Uma pessoa a quem possamos fazer essa pergunta e que esteja sempre presente para nos apoiar”.

7. Ter uma vida excecional

“Não espere pelo fim de semana ou pelas férias para ter uma vida extraordinária. Pense que todos os dias podem ser bons. A vida é um dom e demasiado curta para a desperdiçarmos com expectativas”, aconselha Mel Noakes.

Ana Cláudia Quintana Arantes dá um exemplo: “Da próxima vez que passar pelo trabalho daquela sua amiga que já não vê há algum tempo, não adie o telefonema para a noite, telefone naquele momento e diga ‘tenho cinco minutos para te dar um abraço, podes descer?’. Não fazemos este tipo de coisas não por não podermos, mas porque as desvalorizamos e, às vezes, aqueles cinco minutos podem salvar o nosso dia”.

8. Ouvir o nosso corpo

O nosso corpo é uma máquina e queixa-se quando não está bem, por isso, Mel Noakes sugere que o oiçamos: “Temos de comer quando temos fome, dormir quando temos sono, só para dar dois exemplos. Nesta vida ocupada que temos, esquecemo-nos disso, e às vezes castigamos o nosso corpo com períodos de jejum, detox e excesso de exercício”, diz.

9. Leis para uma vida extraordinária

Transcenda a paisagem cultural. As mentes extraordinárias são boas a analisar a paisagem cultural e são capazes de escolher entre as regras a seguir e as que se devem questionar e ignorar;

• Questione as ‘brules’, como Vishen Lakhiani apelida as regras que a sociedade adota para simplificar o mundo.  As pessoas extraordinárias percebem quando aquelas não estão alinhadas com os seus sonhos e desejos;

• Pratique a engenharia da consciência. O seu desenvolvimento depende dos modelos e realidades e dos sistemas de vida, por isso, selecione-os criteriosamente. Atualize os seus sistemas de vida. mantenha-se num eterno estado de desenvolvimento e autoinovação na vida, no trabalho, no coração e na alma;

• Molde a realidade: Tenha visões ousadas e entusiasmantes para o futuro, mas seja feliz no agora;

• Viver na disciplina da felicidade. Este sentimento, que vem de dentro, deve ser o combustível para tudo o que faz para si e para o mundo;

• Crie uma visão para o futuro sem estar dependente das expectativas da paisagem cultural e foque-se nos objetivos finais;

• Seja inviolável. Não procure a validação dos outros, mas reja-se pela sua felicidade interior e amor-próprio;

• Abrace a sua missão e contribua para uma mudança positiva no mundo.

Fonte: adaptado de Código das Mentes Extraordinários, Vishen Lakhiani, Albatroz.

10. Estar presente em todos os seus papéis

Apesar de desempenharmos vários papéis, Ana Cláudia Quintana Arantes realça que não nos podemos esquecer do nosso próprio papel. “Temos vários papéis ao longo da vida, mas a nossa essência é a mesma e o grande desafio é estar presente em todos eles sem que nos roubem protagonismo. O exercício maior é poder ser quem é em tudo, não só como filha, mãe e mulher – além de cuidar dos outros tem de cuidar de si.”

11. Errar é humano

“Viver sem arrependimentos é difícil, mas podemos minimizar as nossas falhas”, alega Ana Cláudia. E explica porquê: “Tudo o que fazemos, mesmo o que é errado, é com boa intenção. O que acontece é que às vezes essas intenções e certezas são fruto do engano, ou porque não estamos presentes, ou porque somos influenciáveis, ou porque temos determinadas expectativas e preconceitos”.

Importante é sabermos identificar os erros e porque o fizemos. “Quantas vezes é que não perdemos pessoas, empregos ou outras oportunidades e sofremos com isso, mas algum tempo depois percebemos que foi o melhor que nos aconteceu?”, pergunta a médica.

12. Desligar o modo automático

Quando nos relacionamos com os outros de forma automática, é muito fácil magoarmos quem está à nossa volta.

“Geralmente aqueles que mais amamos são também a nossa válvula de escape e o nosso saco de boxe. Mas isso só nos faz perder tempo, ou seja, passamos metade do tempo a discutir e outra metade arrependidas de o termos feito. Para contrariar esta tendência, temos de estar conscientes das nossas emoções e, para isso, temos de olhar para nós próprias e saber o que nos consegue acalmar. Isto não é egoísmo”, diz a médica.

13. Banir a palavra dieta

“Em vez de se concentrar no que não pode comer, centre-se nos alimentos que pode ingerir, não conte calorias e torne a alimentação saudável apetitosa e atrativa. Para termos energia suficiente para viver uma vida preenchida e vivermos saudáveis mais anos, temos de comer bem”, aconselha Mel Noakes.

Autocuidado: 20 regras para cuidar de si

14. Direito à fragilidade

Tal como nos diz Ana Cláudia Quintana Arantes, “o processo de autocuidado, autocompaixão, reconhecimento da nossa força, coragem, humanidade e fragilidade é muito importante. Esta última não pode ser vista como uma fraqueza, mas como um mérito que conquistamos ao longo da vida e que permeia muito o sofrimento. Além disso, todos temos o direito a estar tristes e ter medo.”

15 Cuidado com os objetivos

O empreendedor e fundador e CEO da Universidade de Mindvalley, Vishen Lakhiani, no livro Código das Mentes Extraordinários (Albatroz, 2019), garante que estabelecer objetivos como ensinam nas escolas e universidades em todo o mundo apenas serve para planear a nossa vida de acordo com a carreira e com o dinheiro.

Em primeiro lugar, Vishen Lakhiani distingue objetivos de recurso e finais. Os primeiros “não existem por si só, sendo degraus para algo mais” (ter uma boa média para entrar numa boa faculdade, por exemplo). Já os segundos “consistem em seguir o coração e são muitas vezes sentimentos” (ser feliz, estar apaixonado, alegre…).

Para atingir estes últimos, o empreendedor diz que tem de responder a três questões: “Que experiências quer ter na vida? Como se quer desenvolver? Como quer contribuir?”. Depois, faça uma lista de objetivos finais e mantenha-a visível.

16. Escrever um diário

Só precisa de seis minutos por dia para o fazer. Quem o diz é Dominik Spenst. O que é que a faz feliz? É a pergunta-chave para a sua vida e um diário pode ajudá-la a encontrar a reposta. Estruture o seu diário deste modo, como ensina no livro 6 Minutos para Mudar a Sua Vida (Pergaminho):

Rotina matinal

• Aponte três (ou uma) coisas pelas quais esteja grata e os motivos para tal;
• Pense como pode tornar o seu dia maravilhoso;
• Defina-se como a pessoa que quer ser.

Rotina noturna

• Pense no que que fez de bom por outra pessoa;
• Pense no que aprendeu durante o dia e como pode melhorar;
• Aponte os momentos felizes do seu dia.

17. A importância da autorreflexão

A reflexão é essencial para se avaliar o passado e as metas para o futuro, ou seja, para se conhecer melhor. Dominik Spenst, no livro 6 Minutos para Mudar a Sua Vida, lembra que a ciência garante que as pessoas que autorrefletem têm benefícios em quase todos os aspetos da vida: “Planeiam melhor, são mais disciplinadas e focadas, conseguem lidar melhor com as suas emoções, tomam decisões mais bem informadas e têm maior capacidade de prever problemas.”

18. A beleza não é apenas física

Há quem se esqueça facilmente disto, mas faça o exercício que Mel Noakes recomenda: “Pense nas pessoas que ama. Provavelmente o que mais ama nessas pessoas não é o aspeto físico.”

A coach dá o seu próprio exemplo: “Quando penso no meu marido – e ele é atraente fisicamente –, a primeira coisa que me vem à cabeça é a maneira como ele me faz rir, a sua inteligência e como ele é enquanto pai, ou seja, são muitas as características que o tornam bonito. Não é a nossa imagem que nos define”.

19. Exercitar o corpo

Meredith Gaston, no livro A Arte do Bem-estar, lembra que “o exercício deixa as endorfinas a circular no cérebro, mensagens felizes que criam sensações agradáveis de alegria, bem-estar e ânimo. É um grande antidepressivo e promotor do nosso sistema imunitário”.

A chave para o fazer, diz, é escolher a modalidade de acordo com a nossa personalidade, níveis de energia, clima e até estações do ano. Caminhar, fazer ioga, tai chi, pilates, nadar, correr, fazer desportos de equipa, dançar, treino intervalado, treino de pesos ou jardinagem, tudo é válido.

20. Inspiração na Natureza

No livro A Arte do Bem-estar (Casa das Letras), Meredith Gaston, artista e formadora, garante que temos de aprender com a Natureza: “Com as condições certas, qualquer jardim pode crescer. Para isso, é preciso:

• Revitalizar: “Quando nos revitalizamos, absorvemos os nutrientes, pensamentos e ideias de que precisamos.”

• Cuidar: “Cuidamo-nos quando alimentamos a alegria e a inspiração que desejamos. Podemos consegui-lo através do compromisso, da dedicação para connosco e para com o nosso mundo.”

• Confortar: “Quando nos confortamos, damos amor, atenção, tempo e espaço para simplesmente ser. A Natureza é perfeita assim.”

• Desabrochar: “É uma alegre celebração do nosso florescimento e o reconhecimento de tudo o que somos e de tudo o que podemos ser.”


Agora que já tem uma ideia sobre como pôr em prática o autocuidado, leia o testemunho sobre como 5 dias dedicados ao autocuidado afetaram a minha vida.

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº 225, março de 2019
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