Relações e família

Crónica. Desconfinamento: que desafios nos esperam?

O confinamento trouxe desafios, adaptações necessárias, reações emocionais mais ou menos intensas e, com frequência, todos sentimos incerteza, ansiedade, preocupação pelo cenário diferente e inesperado. E o desconfinamento? Que desafios apresenta e como podemos lidar com eles?

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Crónica. Desconfinamento: que desafios nos esperam?
© Getty Images
Catarina Canelas Martins
Escrito por
Mai. 26, 2020

Em consultas ao longo das últimas semanas, tenho ouvido com frequência as frases “Agora que já me estava a habituar”, “Gostava de continuar em casa”, “Agora vou ter de me adaptar a tudo outra vez”. Se no início o desafio era perceber como nos adaptamos à nova realidade e lidamos com todas as emoções que esta nos trouxe, agora muitas pessoas têm expressado o receio de voltar a esta nova normalidade.

A pandemia trouxe-nos a necessidade de adaptação. Novas rotinas, hábitos, necessidades. Enquanto seres humanos, temos dificuldade em gerir o imprevisto e desconhecido, tentamos resistir, e é isso que, mais uma vez, é necessário com o desconfinamento.

Como voltar ao novo normal?

Estudos que começam a surgir mostram que a pandemia está a ter um elevado impacto numa grande parte da população portuguesa.

O impacto de uma situação pandémica e do isolamento verifica-se na sintomatologia que muitas pessoas começaram a apresentar como ansiedade, depressão, níveis elevados de stresse e no agravamento de perturbações emocionais previamente existentes.

Apesar do confinamento ter terminado, não terminaram as incertezas relativamente ao futuro e, consequentemente, ansiedade, stresse, tristeza.

Se no início o receio era sobre como gerir um período de isolamento e restrição absoluta, o desafio agora passa a ser como voltar a um novo normal com cuidado, responsabilidade e aceitando formas diferentes de gerir a liberdade. Além de toda a gestão emocional e logística que terá de ser reajustada (novamente).

Quem não está confortável e manifesta níveis superiores de ansiedade, não conseguirá lidar tão facilmente com uma normalidade com tantas restrições
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Nesta fase de desconfinamento poderemos verificar comportamentos diferentes. Se por um lado alguns terão a tendência a voltar às suas vidas habituais com uma sensação de alívio, esperança e até um pouco de desvalorização dos cuidados prévios, outros manifestarão mais ansiedade e receio, cuidados redobrados e reticentes relativamente a todo o movimento de normalidade aparente.

Estes dois comportamentos podem trazer algumas dificuldades nos relacionamentos e na gestão das próprias emoções.

Quem não está confortável e manifesta níveis superiores de ansiedade, não conseguirá lidar tão facilmente com uma normalidade com tantas restrições e sentirá uma maior sensação de falta de controlo face a comportamentos diferentes.

Além disso, as diferenças espelham também esta fase de incerteza e de dúvida em que não sabemos muito bem o que está certo ou errado e corremos o risco de nos tornarmos juízes daqueles que nos rodeiam.

Algumas sugestões para estes tempos que vivemos

Tal como em qualquer fase de mudança, será necessária flexibilidade para reajustar rotinas, identificar necessidades e ajustarmo-nos às mesmas, aceitar comportamentos e opiniões diferentes das nossas.

A perceção que cada um de nós tem da realidade afetará com certeza a forma como iremos lidar com o momento atual e essa diferença não só é esperada como natural.

É importante também continuarmos a limitar o acesso à informação e, sobretudo, acedermos a fontes fidedignas, partindo daí para nos orientarmos e tomarmos decisões com as quais nos sintamos confortáveis.

Retomar alguns contactos presenciais pode ser um dos maiores desejos neste momento.

Emocionalmente este poderá ser um dos maiores ganhos desta fase, contudo, as restrições de contacto existem e será fundamental gerir esses encontros sociais com os cuidados devidos e respeito pelos demais.

Estes contactos serão diferentes, mas necessários para mantermos a nossa rede de suporte ativa e disponível e para não sentirmos um desamparo que poderá contribuir para um agravamento de sintomatologia mais ansiosa ou depressiva que possa surgir.

Recorrer a apoio psicológico se sentirmos que não estamos a conseguir gerir ansiedade, pensamentos automáticos negativos, tristeza, entre outros sintomas.

É essencial reconhecermos que por vezes não conseguimos sozinhas retornar ao equilíbrio ou adaptarmo-nos à nova realidade, e nem temos de o fazer. Além de investirmos na rede de suporte, que poderá ser uma ajuda vital nesta fase, esta poderá não existir em alguns casos, ou não ser suficiente noutros.

O apoio de um profissional especializado em saúde mental, como o psicólogo, irá com certeza ajudar no reconhecimento das dificuldades e superação das mesmas, ajudando a reencontrar um novo equilíbrio.

É natural sentir medo, tal como é natural a dualidade entre o desejo de sair e a ansiedade porque o fez
Catarina Canelas Martins Catarina Canelas Martins

Esta é uma nova realidade e não a devemos ignorar nem temer

Se numa fase de isolamento existiam regras bem definidas e restrições bem demarcadas, agora existe uma maior liberdade, contudo, uma responsabilidade elevada.

Esta é uma fase em que teremos de lidar com uma normalidade que todos ansiávamos, mas para a qual não estávamos preparados porque é nova e muito diferente.

As máscaras, os desinfetantes, as restrições, o “não tocar”, as ruas mais vazias, o medo de quem passa por outro alguém e se afasta. Nada será igual nos próximos tempos e isso poderá ser exigente a vários níveis.

Reconheça as suas emoções, as suas necessidades, aceite-as e expresse-as. É natural sentir medo, tal como é natural a dualidade entre o desejo de sair e a ansiedade porque o fez.

Catarina Canelas Martins, psicóloga Clínica e terapeuta Emdr, tem desenvolvido o seu trabalho nos últimos anos com famílias e adultos na Clínica de Psicologia e Coaching Learn2Be. Apaixona-a tudo o que envolva o bem-estar emocional e psicológico pois acredita que sem essa estabilidade e equilíbrio não é possível vivermos no nosso máximo potencial. Siga-a nas redes sociais Facebook e Instagram.

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