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Como ajudar alguém que sofre de ansiedade

É um dos problemas de saúde mental mais comuns nos dias de hoje, mas há formas de poder ajudar. Conhece alguém que sofra de ansiedade? Leia este artigo.

O nervosismo domina-a em situações aparentemente calmas, tem dificuldade em dormir, sente medos que não são reais e evita certos sítios porque lhe causam desconforto, sofre por antecipação e pensa repetidamente em certos assuntos. Costuma sentir isto constantemente? Ou conhece alguém assim? Então, dê atenção a estes sinais.

A ansiedade é um problema real que está na ordem do dia, sendo que afeta milhares de pessoas em todo o mundo. Segundo um documento da Direção Geral de Saúde (Depressão e Outras Perturbações Mentais Comuns), a proporção da população global com perturbações de ansiedade, em 2015, foi estimada em 3,6%, e são mais comuns nas mulheres. O número estimado de pessoas que vivem com distúrbio de ansiedade no mundo é de 264 milhões.

Já no Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, de 2014, dá-se conta que Portugal tem a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa, a par com a Irlanda do Norte. Os fatores que podem conduzir a isto são variados, mas os problemas do mundo atual podem provocar efeitos visíveis na sociedade, como nos diz João G. Pereira, professor universitário e diretor clínico da Casa de Alba (Comunidade Terapêutica em Saúde Mental).

A ansiedade pode aliar-se mais à depressão, por exemplo, e levar a um retraimento social ou ao evitamento de certas situações  – João G. Pereira, psicólogo

“A sociedade moderna, com o capitalismo neoliberal e os mais recentes movimentos ‘reativos’ (fascismo/populismo/nacionalismo) é geradora de várias tensões. Ao mesmo tempo que proporciona uma aparente liberdade (de escolha, de expressão, de movimento) pode também propiciar um esvaziamento moral e de sentido, importantes influências para as perturbações mentais”, explica o psicólogo e psicoterapeuta. E deixa o exemplo do Reino Unido, que tem sido “afetado por várias crises sociopolíticas recentes” e que por isso já se fala numa epidemia de perturbações mentais.

The Neurobiology-Psychotherapy-Pharmacology Intervention Triangle, de João G. Pereira, Jorge Gonçalves e Valeria Bizzari (57€)

Parecendo que não, tudo isto leva aos sintomas que referimos acima. É importante, por isso, olharmos para nós próprios, mas também para os que nos rodeiam, que tantas vezes não nos pedem ajuda. Ora, como podemos lidar com alguém com este tipo de perturbações e ajudar?

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Como identificar e ajudar pessoas com ansiedade

Segundo o psicólogo, há formas simples para evitar que a ansiedade atinja níveis excessivos. Caso tenha algum caso na família ou no seu círculo de amigos, eis alguns conselhos para poder intervir e ajudar.

 Ajude-a a promover hábitos de alimentação saudável;

Certifique-se de que a pessoa em questão dorme bem. Há passos na rotina noturna que podem ser implementados, como ouvir música ou evitar certos alimentos. Conheça-os;

Incentive-a a dar passeios ao ar livre ou a fomentar o convívio social. Ter a proatividade de marcar um jantar com amigos ou acompanhá-la numa caminhada todos os dias de manhã pode ser um bom começo;

 Ajude a reduzir o consumo de televisão, de notícias e o tempo passado online. A televisão e a internet estão “sempre à mão” e a tentação é passar horas agarradas aos ecrãs. Oferecer um livro novo (e positivo) ou convidar para outras atividades poderão ser bons incentivos;

 Cuide da sua relações pessoal com essa pessoa. “Dar atenção, validar emocionalmente, saber ouvir, dar tempo, ser curioso… o carinho e o amor fazem milagres”, explica o especialista;

 Alerte-a para a importância de evitar o trabalho excessivo e de aprender a escutar os sinais do corpo. “Muitas vezes o nosso corpo avisa-nos que estamos a passar um certo limite. Tonturas, formigueiros, cãibras, dores de cabeça, palpitações ou falta de ar são apenas alguns exemplos que nos dizem que é preciso parar ou abrandar o ritmo.” Se conhece alguém a sofrer com estes sintomas, incentive-a a estar atenta e a abrandar.

Em certos contextos escolares ou laborais, por exemplo, onde a competição é extrema, a ansiedade é muitas vezes vista como fraqueza – João G. Pereira, psicólogo

Ansiedade e stresse: descubra as diferenças

Afinal, podemos fazer distinção entre sentirmo-nos ansiosos e stressados? Podemos, basta percebermos como funcionamos quando sentimos cada um deles. Como explica João G. Pereira, o stresse “é o que nos faz ‘funcionar’ (trabalhar, produzir, criar)”, enquanto a ansiedade é “o que nos permite ‘proteger’ (lutar, fugir ou “congelar”).

O especialista chama-nos ainda a atenção para dois tipos de stresse, com termos em inglês, que podemos sentir.

Eustress, uma espécie de stresse bom, saudável, que nos traz sensações de felicidade e satisfação. Motiva-nos e é desafiador;

Distress, “que corrói e pode estar na origem de várias doenças por influência da libertação de cortisol”.

Com a ansiedade, a sensação é semelhante. É bom senti-la nas quantidades certas para nos conseguirmos proteger. Porém, “quando se torna excessivo e patológico, podemos entrar em estado de alerta sem que se vislumbrem ameaças concretas”, alerta o psicólogo.

Tal como o stresse, a ansiedade também tem várias categorias. Aprenda a identificá-las:

A ansiedade fóbica, “em que existe evitamento ativo de certas situações”;

A ansiedade de separação, “muito ligada à dependência de certas pessoas ou objetos”;

A ansiedade social, “receios excessivos ou não fundamentados a nível social e relacional”;

• Perturbação de ansiedade generalizada, “em que praticamente todas as situações são vividas com ansiedade desproporcional”.

Deixamos a nota de que estas sensações são puramente físicas e são manifestações de que a nossa mente pode estar perturbada. Deve-se, assim, procurar a origem e causas dos problemas que “estão invariavelmente ligadas às relações sociais e de vinculação”.

Portugal é o país com o número mais elevado de prescrições de benzodiazepinas (ditos ‘ansiolíticos’) na Europa ocidental – João G. Pereira, psicólogo

A relação de amizade entre ansiedade e depressão

É preocupante perceber que a ansiedade, em casos extremos, pode mesmo levar à depressão e a estado de exaustão e tristeza profunda. Por isso, os estados de alerta devem estar em níveis máximos quando suspeitamos que nós, ou alguém perto de nós, possa estar a ter estes sintomas.

“É sempre importante estar a atento a alterações súbitas do comportamento. A ansiedade pode aliar-se mais à depressão, por exemplo, e levar a um retraimento social ou ao evitamento de certas situações ou, por outro lado, “mascarar-se” com um aumento de adrenalina e uma vida social excessiva, consumo de álcool e procura de sensações”, adverte o especialista.

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Atualmente, este problema ainda não é tão levado a sério como deveria. Segundo dados da OMS, em 2015, foi estimado que mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, o que corresponde a 4,4% da população mundial. Portugal teve as prevalências anuais mais elevadas de perturbações de ansiedade, correspondendo a 16,5% da população.

“Infelizmente, nalguns contextos, ainda são problemas desvalorizados. Em certos contextos escolares ou laborais, por exemplo, onde a competição é extrema, a ansiedade é muitas vezes vista como fraqueza”, refere João G. Pereira. E acrescenta mesmo que é possível sentirmo-nos deprimidos se começarmos a ter medo de coisas tão simples como sair à rua ou ir ao supermercado.

A medicação tem resultados benéficos?

Pode ter, mas é um passo que tem de ser extremamente bem avaliado. “Infelizmente, o recurso à medicação é sobrevalorizado na nossa cultura. Portugal é o país com o número mais elevado de prescrições de benzodiazepinas (ditos ‘ansiolíticos’) na Europa ocidental e o segundo em termos de perturbações da ansiedade”, afirma.

Antes de aceder à medicação, o acompanhamento psicológico profissional deve ser prioridade para quem passar por estes problemas. “A medicação deve apenas ser utilizada quando as outras opções falharam, em conjunto com outras intervenções psicossociais, e sempre na dose mais baixa e pelo período mais curto possível,” acrescenta.

No livro A Ansiedade nos Nossos Dias, do médico-psiquiatra e psicoterapeuta Diogo Telles Correia, conseguimos perceber de que forma a medicação (e não só) pode tratar uma pessoa com ansiedade. Em relação aos chamados benodiazepinas, o especialista diz: “Existem efeitos secundários conhecidos, como alterações da memória e desenvolvimento de dependência, que podem ocorrer se estes medicamentos forem usados de forma abusiva”.

livro a ansiedade nos nossos dias

A Ansiedade nos Nossos Dias, de Diogo Telles Correia (15,50€)

Na verdade, é tudo uma questão de equilíbrio. “Se prescritos por um médico psiquiatra, que saberá como e durante quanto tempo os administrar, podem ser tomados sem qualquer problema”, acrescenta.

O eficaz caminho do “diálogo aberto”

Aponte na agenda o evento que junta especialistas nacionais e internacionais para discutir assuntos sobre saúde mental. Nos dias 23 e 24 de novembro, a FCSH da Universidade Nova de Lisboa recebe o 3º Encontro Internacional em Saúde Mental da Fundação Romão de Sousa, também chamado de “open dialogue”, ou “diálogo aberto” para todos os que procuram saber mais sobre este tema.

“O Open Dialogue é considerado o sistema de tratamento com os melhores resultados no Mundo Ocidental. Num dos vários estudos realizados em pacientes com primeiros episódios psicóticos, passados 5 anos, mais de 80% dos pacientes tinha regressado em pleno ao mundo laboral e 81% não apresentava quaisquer sintomas psicóticos, um resultado significativamente superior ao habitual nos serviços tradicionais”, diz-nos João G. Pereira, responsável pela realização e organização desta conferência internacional.

“Nos locais onde o Open Dialogue é praticado, o público irá encontrar um sistema deshierarquizado, compassivo, respeitoso e que coloca o paciente no centro das decisões. Não se tomam quaisquer decisões ‘à porta fechada’, sem a presença dos pacientes. A rede familiar e social é envolvida desde o início, procura-se obter informação acerca do problema, construir um plano de intervenção e desenvolver um diálogo psicoterapêutico”, acrescenta.


Lida com alguém que sofre de ansiedade, stresse extremo ou depressão?

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