Saúde

O que é que a Psicologia pode fazer por si?

Existe um sem número de razões que a podem impedir de consultar um psicólogo e desconfiamos que a maior delas é o desconhecimento. Quisemos desmistificar a Psicologia de vez, junto de um especialista.

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O que é que a Psicologia pode fazer por si?
© Getty Images
Marta Vieira
Escrito por
Jun. 23, 2020

No que toca à Psicologia, aos psicólogos e a todo o trabalho por estes desenvolvido, cremos não estar completamente desfasadas quando dizemos que ainda existe alguma ignorância aqui associada.

É como se a Psicologia ainda precisasse de provar alguma coisa enquanto ciência. Como se o que se passa dentro das quatro paredes de uma vulgar consulta psicológica ainda estivesse envolto num misticismo tal, que ora nos aguça a curiosidade, ora nos afasta por medo do desconhecido.

Será mesmo assim? Para que não restem dúvidas quanto ao que esta área científica pode fazer por si e para que também um dia possa vir a beneficiar de tudo o que tem para lhe oferecer, sem medos ou reticências, resolvemos falar com o melhor especialista de todos: o próprio psicólogo.

Elegemos, desta forma, a psicóloga clínica e terapeuta Emdr Catarina Canelas Martins, atualmente a exercer funções na clínica de Psicologia e coaching Leran2be, para nos falar da profissão que resolveu abraçar para vida.

Quisemos perceber junto desta profissional da saúde mental porque é que é importante dar palco à Psicologia, que diferentes áreas de atuação existem e até mesmo explorar a psicologia clínica.

Mas também fazer chegar à leitora em que consiste um processo terapêutico e a que problemáticas dá resposta. Tudo isto sem deixar de esclarecer os principais mitos e conceções erróneas associadas.

Finalmente, pretendemos compreender como se pode alterar a relutância, que ainda reside junto da sociedade, em consultar um psicólogo.

Porque se há algo que devemos cuidar com todo o empenho e mais ainda é a nossa saúde mental. Daí a urgência deste artigo.

Porque é que é importante falar da Psicologia?

Antes de se introduzir ao tema, respondendo à nossa primeira questão, Catarina Canelas Martins oferece-nos o que considera uma definição simplista, mas em tudo clara do que é a Psicologia.

“A palavra psicologia remete-nos para o seu significado, “psyque” = mente e “logos” = estudo ou conhecimento”, começa por nos orientar.

“Assim sendo, Psicologia é a ciência que estuda a mente. Os nossos comportamentos e emoções são formas de compreendermos como a nossa mente funciona e então trabalhar no sentido de potenciar um maior bem-estar”, conclui.

A verdade é que, e tal como já havíamos desvendado: “apesar de existirem ainda alguns preconceitos e até mesmo desconhecimento acerca do trabalho dos psicólogos, fica evidente a pertinência da saúde mental nos vários contextos da sociedade”.

A psicóloga clínica não tem dúvidas de que “desmistificar, informar e educar a mesma no sentido de compreender que a saúde mental – apesar de não ser mensurável com um raio-X, uma análise ao sangue ou visível – é tão importante e pode causar tantas ou mais mazelas que uma ferida que não é tratada”.

O objetivo do psicólogo clínico é avaliar e ajudar a prevenir, entender e aliviar o sofrimento ou disfunção com causas psicológicas, promovendo o bem-estar e o potencial da pessoa que procura esse suporte – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

Como se distingue a Psicologia clínica?

A ciência da Psicologia é uma área bastante abrangente. De facto, “sempre que estamos a falar da compreensão acerca do pensamento e comportamento humano estamos a falar de Psicologia”, como nos explica Catarina Canelas Martins.

Assim, não é de estranhar que, ao longo do tempo se tenha subdividido em diferentes frentes, cada uma com o seu foco. Tem-se, portanto, a Psicologia organizacional, educacional, forense, social, neuropsicologia, clínica. É, pois, sobre a última que nos vamos focar hoje.

“A Psicologia clínica debruça-se sobre a previsão/prevenção, compreensão/diagnóstico e tratamento/alívio de problemáticas relacionadas com a adaptação, incapacidade e desconforto com origens psicológicas”, começa por desenvolver a terapeuta.

Desta forma, “o objetivo do psicólogo clínico é avaliar e ajudar a prevenir, entender e aliviar o sofrimento ou disfunção com causas psicológicas, promovendo o bem-estar e o potencial da pessoa que procura esse suporte”, conclui prontamente.

Mas mesmo dentro da Psicologia clínica, existem diversas abordagens que se distinguem quanto à sua base teórica e, consequentemente, terão impacto na forma como cada psicólogo trabalha.

Isto é, na sua forma de avaliar, nas estratégias terapêuticas que aplica ou mesmo na duração do processo terapêutico.

Em que consiste o processo terapêutico?

Depois de uma avaliação psicológica inicial, o psicólogo e o cliente/paciente vão iniciar um processo com objetivos específicos. Estes, contudo, não são estanques e podem ser redefinidos ao longo do processo.

Segundo Catarina Canelas Martins, é numa base preferencialmente semanal que irão ocorrer os encontros onde são trabalhadas as temáticas que trouxeram o cliente/paciente à consulta.

Sabemos hoje que a relação terapêutica é fundamental para o sucesso de um processo terapêutico”, isto é, mais do que a abordagem teórica do próprio psicólogo, o que ditará o sucesso do processo terapêutico é a relação que se estabelece entre os seus intervenientes.

Trata-se de “um caminho que terá necessariamente de ser um processo colaborativo, onde se constrói uma base segura e de confiança que dará estrutura ao caminho terapêutico a percorrer”, descorre a psicóloga clínica.

Que problemáticas podem ser trabalhadas em consulta?

Relativamente às problemáticas a que dá resposta, estas são inúmeras e a intervenção deste profissional da saúde mental será não só útil como mesmo essencial ao longo do ciclo de vida.

Muitas vezes até em equipas multidisciplinares. Ou seja, juntamente com outros profissionais de saúde como médicos, psiquiatras, enfermeiros.

Assim, e a título de exemplo, destacam-se: perturbações de ansiedade, obsessivo compulsivas, de personalidade, alimentares, depressão, problemáticas de adaptação como luto, divórcio, parentalidade, perdas de trabalho, dificuldades relacionais, stresse, problemas de comportamento, dificuldades ao nível do sono, entre tantas outras.

Mas há mais uma ideia que Catarina Canelas Martins não quer deixar passar e prende-se com o facto de a Psicologia clínica não ter apenas como propósito resolver problemas.

Na verdade, “são visíveis as melhorias ao nível da qualidade de vida diretamente relacionadas com o desenvolvimento e autoconhecimento de qualquer pessoa que queira evoluir”.

Quer isto dizer que quanto melhor nos conhecemos, melhor conseguiremos ultrapassar as diversas questões que nos surgem ao longo da vida. E a psicoterapia pode ter um papel essencial neste ponto.

“Não significa que não vamos sofrer ou sentir desconforto se tivermos feito psicoterapia, significa sim que teremos uma maior capacidade de compreender o que estamos a viver e adaptarmo-nos de uma forma mais positiva”.

Quais os principais mitos associados?

Muito do desconhecimento existente em relação à Psicologia e ao psicólogo prende-se com os chamados mitos – ou se não quisermos ir tão longe – conceções erróneas associadas.

Pedimos alguns comentários a Catarina Canelas Martins do que considerámos as principais fontes de engano que (ainda) persistem.

1. “Só vai ao psicólogo quem tem problemas graves ou é maluco”

“Por brincadeira, costumo dizer que nunca conheci nenhum maluco na minha prática clínica e que quem me procura são pessoas completamente comuns”.

2. “Sozinho consigo resolver” ou “Para pagar a um psicólogo para conversar prefiro falar com um amigo”

“Muitas vezes, olharmos para aquilo que nos dói ou desconforta, sozinhos ou acompanhados por pessoas que gostam de nós e não têm treino, pode ainda ser mais perturbador e até fator de manutenção das dificuldades”.

“O psicólogo oferece um suporte especializado pelos seus conhecimentos, instrumentos, técnicas e não tem o objetivo de resolver pela pessoa, mas sim em conjunto com a esta”.

3. “O psicólogo dá conselhos”

“Não é este o papel do psicólogo. O psicólogo ajuda a pensar e a compreender aquilo que se sente, pensa, a forma como lida com as dificuldades”.

“Questiona, ajuda a clarificar, confronta quando necessário, apoia na formulação de opções mais potenciadoras e menos redutoras ou limitadas que geram ciclos viciosos ou sofrimento, estimula as conquistas e os novos caminhos que por vezes geram medos e inseguranças”.

4. “As consultas são caras”

A Psicologia é uma das tantas formas de ajuda que existem e é uma escolha. O valor financeiro investido depende da forma como olha para o seu bem-estar e como o valoriza”.

“Além disso, hoje temos imensos profissionais em diferentes contextos (privados e públicos), permitindo o acesso a diferentes populações, e muitos deles também disponíveis para ajustar os seus honorários às necessidades de quem procura”.

“É um dos melhores investimentos que poderá fazer em si mesmo visto que uma vez adquiridos, esses ganhos não se perdem nem desvalorizam”.

Porque é que ainda se evita consultar um psicólogo?

Bem a propósito do ponto anterior, Catarina Canelas Martins revela-nos que a dificuldade em recorrer a esta ajuda especializada se deve, exatamente, aos mitos e conceções erradas identificadas – e outras que ficaram por referir.

Segundo a mesma, neste momento é comum referirmo-nos a alguém que “está no psicólogo”. O que a seu ver é um aspeto positivo.

“É um sinal dos tempos e felizmente começa a ser cada vez mais comum, ajudando a desmistificar muitas questões que durante tanto tempo limitaram o acesso do psicólogo à população no geral”.

Assim, o que antes era visto como algo elitista ou para pessoas fracas ou muito desorganizadas está aos poucos a alterar-se.

Mesmo quando dói e achamos que não somos capazes, existe um caminho a percorrer. O psicólogo está cá para caminhar consigo – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

Para a psicóloga clínica, uma outra questão que considera pertinente abordar é o facto de enquanto seres humanos, termos dificuldade em olhar para o que nos dói e fazer algo com isso.

A complexidade em ver além do problema e nos percecionarmos como agentes de resolução e não passivos. Muitas vezes, quando estamos em sofrimento “alimentamos espirais negativas e acomodamo-nos à dor”. Porque é que isto acontece?

“Porque é difícil pedir ajuda, porque não reconhecemos que precisamos desse apoio. Todas as pessoas que estão num processo terapêutico comigo têm algo em comum: uma coragem incrível para se porem em causa e um desejo imenso de melhorarem as suas vidas”, declara emotivamente a psicóloga clínica.

O que fazer para alterar consciências?

Finalmente, a terapeuta indica-nos o que pode ser feito ao nível da sociedade, mas também individualmente e através das pessoas que nos rodeiam, relativamente à procura de ajuda psicológica.

“É essencial os média falarem sobre o papel da Psicologia na sociedade e termos mais estudos cujos resultados cheguem à população e comprovem o impacto do processo terapêutico na mesma a vários níveis, nomeadamente financeiro”.

Catarina Calenas Martins mostra-se irredutível com a certeza de que “quanto mais investirmos na nossa saúde mental mais prevenimos outros gastos futuros com a nossa saúde”.

Já enquanto indivíduos cabe-nos reconhecer que se estamos com dificuldade em sair do mesmo sítio, algo que nos está a gerar sofrimento ou a limitar a nossa felicidade, podemos sempre pedir ajuda.

Por sua vez, amigos, familiares ou colegas de trabalho, sempre que virem alguém à sua volta a sofrer “não procurem resolver o problema pela pessoa, mas antes incentivá-la a encontrar um caminho válido e sustentável”.

“Mesmo quando dói e achamos que não somos capazes, existe um caminho a percorrer. O psicólogo está cá para caminhar consigo”, termina.

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