Relações e família

Orientação vocacional: conheça os benefícios desta avaliação psicológica

Quisemos perceber em que consiste a orientação vocacional e o que pode fazer pelos nossos jovens. Sobretudo interessou-nos o seu objetivo primordial, bem como onde e de que forma pode ser realizada. Falámos com um especialista.

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Orientação vocacional: conheça os benefícios desta avaliação psicológica
© Unsplash
Marta Vieira
Escrito por
Jun. 20, 2020

Quando se é jovem e chega a hora de perseguir os nossos sonhos, nenhum obstáculo parece grande o suficiente para impedir a nossa demanda.

Mas e quando não sabemos que sonhos temos? Ou quando temos tanto medo de escolher erroneamente que preferimos que tomem a decisão por nós?

Ainda parece existir pouca informação sobre as reais vantagens da orientação vocacional. Mas se é verdade que um jovem só terá sucesso se trabalhar numa área relacionada com os seus gostos e interesses – garantindo o esforço e disponibilidade necessários para a tarefa – também é verdade que primeiro terá de fazer uma escolha.

Escolha essa, relacionada com a área de estudo que mais se enquadre nas suas características e verdade interior. Até porque, escolher o caminho académico pelos motivos errados pode muito bem ser a receita para o insucesso.

Esta escolha deverá ter por base o amor, interesse, curiosidade, gosto e propósito, garantindo não só uma maior probabilidade de sucesso na vida académica, e posteriormente profissional, como sobretudo a possibilidade de uma vida mais feliz, entusiasmante, preenchida e cheia de propósito.

Quem nos introduz ao tema é Miguel Gonçalves, diretor clínico na clínica de psicologia e coaching Learn2be. É a este psicólogo que colocamos as mais pertinentes questões acerca deste processo de avaliação denominado orientação vocacional.

Se o jovem não sabe com clareza quem é, será muito difícil ter uma visão clara do caminho académico que quer seguir – Miguel Gonçalves, psicólogo clínico

Antes de mais, o que é a orientação vocacional?

“Trata-se de uma avaliação psicológica que através do estudo dos interesses, raciocínios e realidade psicológica do jovem mostra quais os caminhos académicos e profissionais mais relacionados com a sua identidade, recursos e vontade e onde este terá maior probabilidade de sucesso, bem-estar e preenchimento pessoal”, introduz-nos o psicólogo clínico.

Segundo o mesmo, o maior benefício desta mesma avaliação está diretamente relacionado com o que considera ser a maior lacuna no nosso ensino.

Embora, desde cedo, os jovens sejam treinados para exercitar as suas capacidades intelectuais como a memória, atenção, linguagem ou capacidade de trabalho, a verdade é que raramente são encaminhados para um processo de autoconhecimento e gestão das próprias emoções.

Ora, como consequência de não se conhecerem emocionalmente e psicologicamente de forma a perspetivarem sobre a própria vida e o seu propósito, torna-se difícil e até perigoso, segundo Miguel Gonçalves, escolher o caminho académico a seguir.

“E se o jovem não sabe com clareza quem é, será muito difícil ter uma visão clara do caminho académico que quer seguir”, remata.

Todos os jovens, mesmo os mais seguros no seu caminho, deveriam realizar esta avaliação de forma a ganharem mais entendimento e consciência sobre si próprios e promover ao máximo a sua maturidade – Miguel Gonçalves, psicólogo clínico

Não se trata, pois, de os jovens não serem bons estudantes, mas antes uma certa falta de maturidade emocional para escolherem com segurança o seu percurso.

“É neste sentido que a orientação vocacional se torna uma forte aliada e um instrumento que pode favorecer muito o sucesso de todo este caminho académico”, conclui prontamente.

Quando recorrer a esta ferramenta?

Miguel Gonçalves é peremptório neste capítulo, com uma verdade tão crua que sorrimos perante o seu reconhecimento.

“Regra geral, o ser humano só se preocupa quando dói”, percebemos imediatamente o que quer dizer.

Assim, “sempre que o jovem demonstre angústia, ansiedade, incerteza ou medo sobre o caminho académico a seguir, é muito importante que os pais possibilitem o acesso a uma orientação vocacional”, continua o psicólogo clínico.

Desta forma, não se está só a garantir uma maior segurança nesta escolha, mas também o despiste de alguma questão psicológica ou emocional menos organizada.

Miguel Gonçalves não tem dúvidas: “todos os jovens, mesmo os mais seguros no seu caminho, deveriam realizar esta avaliação de forma a ganharem mais entendimento e consciência sobre si próprios e promover ao máximo a sua maturidade”.

Como é que se processa, exatamente?

Se já apreendeu o conceito de orientação vocacional, mas quer saber na prática como decorre esta avaliação, não espere mais.

Regra geral, são aplicadas duas provas:

  • Prova de interesses. Para identificar as áreas em que o jovem tem mais gosto;
  • Prova de raciocínios. Para avaliar a habilidade de raciocinar de forma lógica.

Na Learn2be, no entanto, a orientação profissional de perfil, como é designada, é composta por três sessões:

  • Primeira sessão. Onde se realiza um entrevista semi-diretiva com o jovem, para o conhecer melhor, perceber os seus gostos e propósito e criar uma ligação de trabalho.
  • Segunda sessão. Em que é aplicada a prova de interesses, a prova de raciocínios e ainda uma avaliação da personalidade e funcionamento emocional.
  • Terceira sessão. Onde são entregues os resultados da avaliação, de forma oral e escrita. É dado um parecer psicológico de qual ou quais os melhores caminhos a seguir, assim como as informações práticas relacionadas.
Regra geral, o jovem tem contacto com a orientação vocacional, na passagem do segundo ciclo para o terceiro ciclo, ou seja, no 9º ano e na entrada da faculdade, isto é, no final do 12º ano – Miguel Gonçalves, psicólogo clínico

E qual é o propósito final?

Quando questionado sobre qual o objetivo primordial por que se deve reger esta mesma avaliação psicológica, Miguel Gonçalves dá-nos não um mas antes três objetivos essenciais:

Primeiro:

“Pretende-se nutrir o jovem de maior entendimento e consciência sobre si próprio, sobre os seus interesses e raciocínios, sobre a sua personalidade e funcionamento emocional”.

Segundo:

“Quer-se conecta-lo a um motivo interno que lhe provoque a ação, ou seja, garantir a sua motivação (motivação = motivo + ação)”.

Terceiro:

“Tenciona-se orientar o jovem no sentido de todas as possibilidades que ele pode seguir a nível académico e esclarecer todas as dúvidas práticas que este possa ter em relação aos processos técnicos e burocráticos de candidaturas e ingressos”.

Onde se pode realizar e de que forma?

“Regra geral, o jovem tem contacto com a orientação vocacional na passagem do segundo ciclo para o terceiro ciclo, ou seja, no 9º ano e na entrada da faculdade, isto é, no final do 12º ano”.

O que ocorre por diversas vezes é que muitas escolas realizam algum tipo de orientação vocacional em grupo, o que na perspetiva de Miguel Gonçalves não é suficiente.

Porquê? Porque são somente analisados os interesses e possivelmente os raciocínios dos jovens, ficando de lado a avaliação da personalidade.

“Passa-se novamente por cima da questão de que cada jovem é uma pessoa individual, com o seu mundo próprio, as suas características psicológicas e emocionais próprias, as suas vontades e as suas dificuldades”

Embora veja utilidade na avaliação realizada pela escola, até porque coloca em contacto o jovem com o seu mundo interior, o psicólogo clínico considera esta uma intervenção superficial.

O ideal é um trabalho de introspeção posterior por parte deste e de preferência a realização de um processo completo de orientação vocacional individual, com um psicólogo, possivelmente numa clínica privada”.

“Claro que tem os seus custos, mas aqui os pais têm de avaliar a relação entre custo e preço”, explica, pausadamente.

E desenvolve: “o preço será o que irão pagar pontualmente por essa avaliação e o custo será o perigo, ou não, do jovem começar a sua vida ativa num caminho com o qual não se identifica, podendo levar a uma vida que não tem a ver consigo, nunca vindo a expressar o máximo das suas capacidades e potencialidades”.

Esta avaliação, quando bem realizada, irá garantir, com uma elevada percentagem de certeza e segurança, que a decisão tomada pelo jovem está em linha com a sua verdade interior – Miguel Gonçalves, psicólogo clínico

Como é que as famílias podem estimular esta adesão?

Já no fim da nossa conversa, Miguel Gonçalves fala-nos do papel da família durante este processo, aludindo-nos que esta deve sempre motivar o jovem a realizar este trabalho de exploração interna.

De que forma? “O ideal seria a família estar presente no dia da sessão da entrega do relatório, para que essa informação fosse logo trabalhada em contexto familiar e com a mediação do psicólogo”

Até porque “só assim se se pode garantir que o jovem saia da sessão esclarecido e seguro e que toda a família esteja a par e envolvida com o objetivo e caminho que foi traçado”, elucida-nos o psicólogo clínico.

Finalmente, deixa-nos algo para refletir, despedindo-se com toda a sua sabedoria: “o melhor medicamento para a ansiedade é tomar decisões. Esta avaliação, quando bem realizada, irá garantir, com uma elevada percentagem de certeza e segurança, que a decisão tomada pelo jovem está em linha com a sua verdade interior”.

Até mesmo porque, segundo o que nos disse logo no início desta conversa: “a melhor forma de combater o medo é a informação, o conhecimento e o ganho de consciência”.

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