Saúde

18 mitos esclarecidos sobre o novo coronavírus

Afinal, devemos ou não usar máscara para a nossa proteção individual? É verdade que o vírus vai desaparecer na estação quente? São muitas as questões que se levantam quando o tema é o novo coronavírus. Maria Espírito Santo, de Medicina Geral e Familiar, esclarece alguns mitos e responde às perguntas que mais inquietam os portugueses em tempo de pandemia.

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18 mitos esclarecidos sobre o novo coronavírus
© Getty Images
Escrito por
Mar. 24, 2020

Numa altura em que a incerteza e medo pairam no ar, devido à chegada de uma nova doença invisível que se propaga à velocidade da luz, queremos trazer-lhe alguma tranquilidade. Assim, e com esse objetivo em mente, reunimos as respostas às principais questões sobre a doença do momento, a Covid-19.

18 mitos sobre a Covid-19

1. Com luvas e máscara estou protegida do coronavírus?

A máscara deve ser usada apenas quando indicada e tendo em conta as recomendações das autoridades de saúde, ou seja: pessoas com sintomas de infeção respiratória (tosse, espirros, congestão nasal) e pessoas que prestem cuidados a suspeitos de infeção por Covid-19 são quem deve usar máscara.

Para a máscara ser eficaz é importante que seja bem colocada (tapar boca e nariz, e confirmar que não existem espaço abertos entre cara e máscara) e acompanhada da higiene das mãos frequente (nomeadamente antes de colocar a máscara e de cada vez que tocar na máscara). Caso contrário, a máscara pode contribuir para uma falsa sensação de segurança e aumentar o risco de contaminação.

Usar luvas parece ser menos eficaz do que a correta lavagem das mãos. As luvas podem também elas dar uma falsa sensação de segurança, pois temos as mãos (que sabemos ser o local potencialmente mais contaminado do nosso corpo) cobertas, mas esquecemo-nos que os vírus também se alojam na superfície das luvas e levamos as mãos com as luvas à cara, aumentando o risco de contaminação. Como tal, o uso de luvas não está recomendado para a população em geral.

A regra mais importante para todos é a lavagem frequente das mãos com sabão ou a desinfeção com solução alcoólica a pelo menos 70%.

2. A suplementação com vitaminas pode prevenir a transmissão ou tratar a Covid-19?

Apesar de nas redes sociais se encontrarem inúmeros produtos para “reforço do sistema imunitário”, nenhum suplemento demonstrou até à data uma proteção contra o vírus responsável pela Covid-19.

No entanto, há outras medidas que sabemos serem potenciadoras do sistema imunitário, e que também estão associadas a um melhor prognóstico dos doentes afetados pela doença, nomeadamente: deixar de fumar (o tabaco aumenta em grande escala a probabilidade de infeções respiratórias), praticar exercício físico regularmente; a perda de peso e ter hábitos de sono saudáveis, pois para além do défice de horas de sono parecer aumentar a suscetibilidade para infeções, um bom regime de sono tem um impacto altamente positivo no bem estar psicológico, fundamental para atravessarmos o momento que vivemos.

3. A vacina da gripe previne a infeção por Covid-19 e os antibióticos tratam a infeção?

À data de hoje ainda não existe nenhum tratamento ou vacina dirigidos para o coronavírus, estando preconizadas aquilo a que nós médicos chamamos de medidas de suporte, que são várias ações terapêuticas no sentido de controlar os sintomas e permitir a estabilidade dos doentes.

Os antibióticos, como o nome indica, têm como alvo terapêutico as bactérias e não os vírus. A vacina da gripe é uma vacina que muda todos os anos, de acordo com os vírus mais comuns que causaram doença respiratória no ano anterior. Uma vez que esta estirpe de coronavírus é nova, ainda não foi contemplada na vacina, pelo que a vacina da gripe não previne a Covid-19.

4. Quando vier o verão, o vírus vai desaparecer?

Este é um vírus novo e com características muito próprias e que, por isso, preocupa tanto a comunidade médica e científica.

Até à data, o que sabemos é que o vírus se tem manifestado em todos os diferentes climas à volta do globo (desde áreas húmidas e quentes a áreas frias e com neve). Por isso, contrariamente à maioria das infeções respiratórias que são causadas por vírus que predominam no inverno, não é possível prever como será o comportamento do coronavírus ao longo das próximas estações.

5. As crianças não são infetadas pela Covid-19

Os dados epidemiológicos, que vamos retirando da China, Itália e Espanha, têm demonstrado que as crianças também são infetadas pelo novo coronavírus, contudo, o que parece acontecer é que a maioria tem sintomas ligeiros e recuperam completamente.

Têm sido ainda descritos alguns casos de crianças infetadas pelo coronavírus, mas assintomáticas, ou seja, apesar de não terem queixas, podem transmitir o vírus.

Importa também refletir  que as crianças nas escolas e infantários contactam com muito mais agentes patogénicos (vírus, bactérias) do que a maioria dos adultos no seu dia a dia, pois tocam em tudo, partilham tudo, não param de tocar na cara. Assim, é extremamente importante educá-los para se protegerem, não só neste momento de pandemia em que estamos todos mais sensibilizados, mas para sempre, de forma a que adquiram hábitos que se tornem rotineiros e sustentados na vida das crianças.

6. Os jovens não são infetados pelo coronavírus

Pessoas de todas as idades podem ser infetadas pelo coronavírus. A principal diferença é que os mais velhos e as pessoas com doenças de base (nomeadamente doenças pulmonares ou associadas a compromisso do sistema imunitário, diabetes, HTA) parecem ser mais vulneráveis e apresentar formas mais graves da doença.

Da mesma forma, a idade também parece ser um fator de risco para um pior prognóstico, e daí a grande preocupação com os idosos.

7. Não devemos falar da Covid-19 às crianças

É natural que as crianças, nesta fase em que veem as suas rotinas alteradas e os adultos preocupados, também elas fiquem mais ansiosas, tristes, inseguras, irritadas ou até mesmo zangadas. É por isso importante protegê-las e evitar a exposição excessiva a notícias ou imagens alarmantes, mas também é importante que esteja disponível para conversar.

Falar abertamente sobre a situação, ouvir os medos e preocupações, e procurar explicar a verdade de acordo com o nível de compreensão da criança. Pode ainda explicar que também é uma situação nova para os adultos, e que estes também têm medo, mas que todos juntos, fazendo cada um o seu papel, vamos conseguir ultrapassar.

Algumas dicas importantes para manter a saúde mental das crianças neste período:

Procure manter as rotinas (ter horários de sono e refeições, para brincar, estudar e para a atividade física);
Experimente alguns exercícios de relaxamento e mindfulness em família;
Faça jogos em família e garanta o contacto regular com amigos e família através de telefonemas ou videochamadas.

8. Toda a informação sobre a Covid-19 é importante

Pandemia é por si só uma palavra assustadora, e até os mais distraídos estão atentos ao que se passa no mundo e procuram descobrir o máximo que sabem sobre este vírus que de repente parou as nossas vidas. No entanto, nesta sede de informação importa ter algum espírito crítico, pois muita da informação que chega até todos nós são fake news.

Assim, quando nos deparamos com uma nova notícia, afirmação, post de Facebook ou áudio no WhatsApp, devemos olhar para a fonte e perceber se esta é alguma das organizações que sabemos que nos dá informação fidedigna ou se essa informação está confirmada por alguma dessas fontes. Tudo o resto devemos procurar esclarecer.

Fontes recomendadas: a DGS, nomeadamente através do site covid19.min-saude.pt; a WHO (World Health Organization – Organização Mundial de Saúde) e o Centers for Disease Control and Prevention.

9. Não devo tomar Ibuprofeno?

Esta questão surgiu após alguns estudos que pareciam demonstrar haver algum malefício para os doentes infetados com Covid-19 que se encontravam a tomar Ibuprofeno. No entanto, estes estudo são poucos e não permitem chegar a uma conclusão definitiva.

O Infarmed emitiu um comunicado reforçando que, havendo indicação médica para a toma de Ibuprofeno, este não deve ser suspendido. O mais importante é que se aconselhe com o seu médico antes de iniciar qualquer medicação.

10. Aplicar água do mar no nariz previne a infeção pelo vírus da Covid-19?

A lavagem nasal recorrente com agua do mar é frequentemente recomendada no tratamento das infeções respiratórias comuns, no entanto, e até à data, não há evidência de que a lavagem nasal recorrente com água do mar proteja de infeção pelo coronavírus.

11. Os animais domésticos podem transmitir Covid-19?

De acordo com a informação da Organização Mundial de Saúde não há evidência de que os animas de estimação (cães e gatos) sejam infetados e possam transmitir a doença.

12. O vírus pode ser transmitido através dos alimentos?

O vírus não parece se transmitido pela via digestiva, nomeadamente através dos alimentos. As portas de entrada que conhecemos para o vírus no nosso organismo são a boca e nariz, e potencialmente os olhos.

Ainda assim, antes da preparação das refeições é importante realizar a higiene correta das mãos.

Surgem também muitas dúvidas relativamente ao supermercado e o que sabemos para já é que o tempo de vida do vírus nas superfícies é de cerca de 6 a 8 horas no plástico e pouquíssimas horas no cartão.

A principal recomendação que podemos dar é: não há problema em carregar sacos de plástico nem em pegar nas coisas no supermercado, desde que não toque na cara enquanto arruma as compras e, assim que acabar, lave logo as mãos.

13. Comer alho previne a infeção pelo coronavírus?

O alho é um alimento saudável e que parece ter algumas propriedades antimicrobianas, no entanto, não há evidência que sustente que comer alho proteja as pessoas desta infeção.

14. Posso continuar a beber água canalizada?

Até à data o vírus não foi detetado na água. O tratamento convencional das águas deverá eliminar e inativar o vírus que causa a Covid-19, pelo que pode beber água em segurança.

15. Tomar um banho quente ou beber água muito quente ajuda a prevenir a Covid-19?

Não há evidência que demonstre que tomar banho em água muito quente previna a infeção pelo novo vírus. Para além disso, pode ser mais danoso do que benéfico, pois pode resultar numa queimadura. O mesmo se aplica a beber água muito quente, contrariamente ao que circulava pelas redes sociais.

16. Devo lavar tudo com lixívia?

A lavagem da roupa, contrariamente ao que se pensava, não precisa de ser feita a 60 graus, uma vez que o detergente por si só inativa o vírus, tal como acontece quando lavamos as mãos, pois o que mata o vírus é o sabão e não a temperatura da água.

Assim, a lavagem das superfícies e objetos também pode ser com detergente normal, não precisa de ser com lixívia. O álcool é um bom desinfetante e pode ser usado na desinfeção dos teclados e telemóveis, entre outros objetos.

17. Depois de ser infetada pelo coronavírus fico imune?

Como em alguns dos outros pontos, a resposta é a luz do conhecimento que temos neste momento, e importa sempre recordar que este é um vírus novo sobre o qual todos os dias a comunidade científica aprende algo novo. Contudo, os estudos para já realizados parecem indicar que após a cura o risco de recidiva é muito baixo, havendo portanto uma imunidade para o vírus.

18. Isto é tudo um exagero?

As palavras “pandemia” e “emergência” assustam qualquer um. Não menos assustador é aquilo que nos é pedido: contenção social.

Cada um deve ficar em sua casa, sair só para o essencial e o mínimo de vezes possível. As crianças não vão à escola. Não devemos dar abraços nem beijos. Não devemos visitar os nossos avós ou outros parentes idosos. São coisas difíceis de fazer, mas também são difíceis de pedir. Mas, acima de tudo: são necessárias.

Estamos perante um vírus que, pelo que tem sido descrito até agora, para além de ter uma disseminação superior aos restantes vírus respiratórios que conhecemos, também parece ter uma mortalidade superior (salvaguardando que números finais só poderemos tirar quando tudo isto passar).

A forma de controlar um vírus assim parece relativamente simples, mas depende de todos nós e de como cumprimos o nosso papel: distanciamento social, higiene respiratória (ao tossir, cobrir a boca e o nariz para um lenço descartável que deve ir para o lixo logo de seguida, ou fazê-lo para o cotovelo) e lavagem das mãos. Em loop.

Esta é definitivamente a forma mais eficaz para conter a Covid-19, assegurar que conseguimos gerir os recursos de saúde necessários para todos e pôr um fim a esta pandemia.

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