Bem-estar

Fazer nada é também uma arte (e ajuda na ansiedade)

Tem um nome e uma nacionalidade, chama-se niksen e é um hábito neerlandês que ajuda a combater a ansiedade e a estimular a criatividade, porque a inatividade também é importante.

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Fazer nada é também uma arte (e ajuda na ansiedade) Fazer nada é também uma arte (e ajuda na ansiedade)
© Unsplash
Rita Caetano
Escrito por
Out. 16, 2023

Primeiro, falaram-nos do hygge, o hábito dinamarquês de apreciar os pequenos prazeres da vida para se ser feliz; depois, do lagom, a habilidade sueca de encontrar o equilíbrio em todas as esferas da vida; seguiram-se o sisu, a capacidade norueguesa de enfrentar os desafios com coragem e determinação estoicas; e o nunchi, o subtil ‘dom’ coreano de conseguir ler um espaço e as pessoas que lá estão.

Agora, as atenções viram-se para o niksen, a arte neerlandesa de nada fazer sem sentimentos de culpa à mistura. E é sobre este último que este artigo versa.

O poder do niksen

Certamente que conhece alguém – ou sentiu isso mesmo na pele – que se queixou de não saber o que fazer em alguns momentos, sobretudo na altura do confinamento social.

E o melhor conselho que podemos dar a quem nos diz estas palavras em qualquer situação é apenas que se desligue por completo do mundo que a rodeia, ou seja, não fazer nada e sentir-se feliz com isso.

Não é fácil, porque não estamos habituados a esses momentos, mas é possível, como mostra o exemplo dos Países Baixos, que até têm fama de ser muito produtivos, mas que conseguem seguir como poucos uma regra básica: trabalhar quando se tiver de trabalhar e relaxar quando se estiver a relaxar.

E é nas alturas dedicadas ao relaxamento que tem de deixar algum tempo para o niksen, que significa não fazer nada ou fazer qualquer coisa sem propósito.

Pode ser olhar por uma janela, ficar sentada no sofá ou numa cadeira, ouvir música, deitar-se na relva, caminhar sem um rumo definido ou até tricotar e olhar para a máquina de café enquanto ela trabalha para lhe dar aquela bebida tão preciosa, como diz Carolien Janssen no livro Niksen: The Dutch Art of Doing Nothing (em tradução literal, Niksen: A arte neerlandesa de nada fazer), publicado pela plataforma CreateSpace Independent.

Certo é que cada pessoa tem de descobrir o seu niksen por tentativa e erro, e que este termo neerlandês nada tem a ver com preguiça.

Experimente, por exemplo, terminar uma tarefa e deixar uns minutinhos para não fazer nada e vai ver que começa a perceber o efeito do niksen

Não é mindfulness

Também não se deve confundir niksen com mindfulness, como diz Olga Mecking, jornalista e tradutora que ainda este ano irá publicar, pela Piatkus, o livro Niksen: Embracing the Dutch Art of Doing Nothing (em tradução literal, Niksen: Abraçar a arte neelarndesa de não fazer nada).

No niksen não se pede atenção plena, pelo contrário, pede-se que deixe a mente vaguear em vez de a focar no presente.

Olga Mecking afirma que nenhum outro conceito nórdico lhe faz tanto sentido como o niksen. Natural da Polónia, mas a viver nos Países Baixos há quase uma década, diz que o aculturou rapidamente sem se sentir preguiçosa.

“Sou mãe de três filhos e dedico muito tempo às crianças, cozinho todos os dias, mas também tenho o meu próprio negócio e escrevo durante horas. Talvez por isso, não haja nada de que mais goste do que não fazer nada”, algo para o que não lhe sobra muito tempo, refere no seu site, mas que aproveita ao máximo.

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© rawpixel

Como praticar Niksen

Para muitas pessoas, não fazer nada é mais difícil do que possa parecer à primeira vista. Se esse é o seu caso, siga estas regras:

  •  Comece por tirar apenas uns minutos por dia para o niksen, mas faça-o todos os dias.
  • Experimente o que funciona melhor para si  – sentar-se numa cadeira ou num sofá com ou sem música, caminhar sem rumo, deitar-se na relva, tricotar, olhar para quem passa num jardim…
  • Depois de encontrado o seu niksen, tire uma noite por semana e, posteriormente, um fim de semana sem compromissos.
Fonte: Adaptado do livro Niksen: The Dutch Art of Doing Nothing, Carolien Janssen, Create Space Independent

Vantagens para a saúde

Os benefícios do niksen são tanto de ordem psicológica como física, isto porque reduz a ansiedade e o stresse, como já explicaram os investigadores da Universidade de Roterdão, nos Países Baixos.

Não nos podemos esquecer que a vida de grande parte das pessoas é muito stressante, condição que o confinamento social não conseguiu diminuir.

Se, antes, se corria de um lado para o outro, durante a quarentena, a correria passou a ser feita dentro de um só espaço, até porque a acumulação de tarefas não diminuiu, passou a coexistir nos mesmos horários, dificultando o seu desempenho.

E o niksen ajuda a libertarmo-nos de todos os deveres e a relaxar e isso diminui os níveis de stresse. Experimente, por exemplo, terminar uma tarefa e deixar uns minutinhos para não fazer nada e vai ver que começa a perceber o efeito do niksen. Depois, sim, estará pronta para a próxima atividade.

Mais criatividade

Este hábito neerlandês estimula ainda a criatividade, ou seja, é ótimo para refrescar as ideias. É isso que acontece com Olga Mecking, que diz ter as melhores ideias quando não está a fazer nada. Convém lembrar que mesmo quando não está ocupado, o nosso cérebro processa informação.

Um estudo publicado na Frontiers in Psychology, sob o tema As Vantagens e Desvantagens de Deixar a Mente Vaguear, mostra que este processo ajuda a que as pessoas atinjam os seus objetivos porque ajuda a clarificar as suas ações.

A investigação, feita pelo Departamento de Psicologia da Universidade Sapienza, de Roma, em Itália, revelou ainda que esse estado de inatividade não pode ser permanente ou terá o efeito contrário e aí, sim, pode ser apelidado de preguiça.

Por isso, não é de estranhar que o niksen saiba sempre melhor depois de um período de atividade intensa. A felicidade não é estar sempre relaxado; a produtividade também contribui para nos sentirmos felizes.

Tudo na medida certa tem mais sabor e, já sabe, reserve sempre um tempo para não fazer nada.

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº 240, junho de 2020.

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