Nutrição

Regresso às origens: como ter uma alimentação mais amiga do ambiente

Tem prestado atenção ao que coloca no prato? A sua alimentação pode dizer muito sobre a forma como anda a tratar o planeta. É necessário voltar ao biológico, aos verdadeiros produtos da terra para evitar um possível colapso ambiental.

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Regresso às origens: como ter uma alimentação mais amiga do ambiente
© Getty Images
Vanessa Pina Santos
Escrito por
Vanessa Pina Santos
Dez. 11, 2019

“Estamos a presenciar o começo de uma extinção em massa e tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e de contos de fadas sobre um crescimento económico eterno (…). Os olhos da geração futura estão postos em vocês. E se decidirem fracassar, digo-vos: nunca os iremos perdoar. O mundo está a acordar. E a mudança vai chegar, quer vocês gostem quer não”, disse Greta Thunberg na Cimeira da Ação Climática, em Nova Iorque, no dia 23 de setembro de 2019.

A jovem, de 16 anos, que começou por faltar todas as sextas-feiras às aulas para se sentar à frente do parlamento sueco com o objetivo de alertar para as questões sobre a sustentabilidade ambiental, tem vindo a exigir aos líderes mundiais medidas para um futuro mais sustentável. Algo que parece estar cada vez mais longe de alcançar, visto que o consumo médio de carne por pessoa no mundo aumentou nos últimos 50 anos, de 23 quilos, em 1961, para 43 quilos em 2014, de acordo com uma notícia, de 2018, do jornal The Guardian.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, em 2050, a população será superior a nove mil milhões e, como tal, será necessário produzir mais 60% de alimentos.

Ambientalistas e engenheiros do ambiente dizem-nos que se não alterarmos os nossos hábitos de consumo, principalmente no que diz respeito à alimentação, iremos assistir a um colapso ambiental.

Por isso, a reciclagem, o zero waste, o fim do plástico e a redução do consumo de carne são os pequenos gestos que poderão ajudar-nos a diminuir as consequências de um planeta doente. É nos pequenos gestos diários que ainda reside a esperança e é sobre esses que vamos falar a seguir.

Uma alimentação sustentável

“Foi por volta do mês de maio de 2012 que eu e o meu marido [o realizador de cinema James Cameron] decidimos mudar drasticamente a nossa alimentação. O processo de mudança começou depois de termos visto o documentário Forks over Knives (um documentário ativista sobre alimentação). No dia seguinte, já estávamos a comer de uma maneira totalmente diferente”, explica a ambientalista Suzy Amis Cameron, numa conversa que tivemos com ela no hotel Ritz, em Lisboa.

No entanto, o interesse por questões ambientais surgiu muito antes, ainda no final dos anos 90. Suzy Amis Cameron nasceu em Oklahoma, nos Estados Unidos, e tem vindo a participar de forma ativa na defesa do ambiente. É fundadora de vários projetos relacionados com a sustentabilidade do ambiente, desde a indústria da moda à alimentação.

Recentemente, lançou um livro, Mude de Alimentação, Salve o Planeta: O Plano OMD (Nascente), no qual apresenta o plano alimentar OMD (One Meal a Day), cujo objetivo é alterar uma refeição diária de origem animal por uma de origem vegetal.

“Ter uma alimentação à base de vegetais tem inúmeros benefícios para a saúde, desde a prevenção de doenças, como o cancro, até ao reforço do sistema imunitário. Certamente que o que é melhor para a saúde também será para o ambiente”, diz a ambientalista.

De acordo com a nutricionista Lillian Barros, a dieta mais sustentável para o meio ambiente deve ser aquela que valoriza a redução do consumo de carne, de produtos industrializados e empacotados. “O ideal será aumentar o consumo de frutas, legumes, verduras e frutos secos para que seja possível minimizar ao máximo o impacto negativo no meio ambiente e, ainda assim, contribuir para a saúde de todos”, refere a especialista.

Se decidir seguir o plano OMD (durante um ano) e substituir apenas uma das suas refeições diárias de origem animal por uma de origem vegetal, irá estar a poupar cerca de 736.895 litros de água e o carbono equivalente a 4952 quilómetros a conduzir o seu carro – Suzy Cameron, ambientalista

Os Estados Unidos ainda estão muito longe de seguir essa dieta, pois é um dos locais onde se consome mais carne. “Em média, cada cidadão consome três hambúrgueres por semana, o que equivale a uma impressionante soma de 50 mil milhões de hambúrgueres por ano. Em termos de produção, cada cheeseburger exige 6814 litros de água e cada hambúrguer produz a mesma taxa de emissões do que um automóvel, em 25 quilómetros”, lê-se no livro Mude de alimentação, Salve o Planeta: O plano OMD.

Se decidir seguir o plano OMD (durante um ano) e substituir apenas uma das suas refeições diárias de origem animal por uma de origem vegetal, “irá estar a poupar cerca de 736.895 litros de água e o carbono equivalente a 4952 quilómetros a conduzir o seu carro”, afirma Suzy Amis Cameron. Agora, imagine o que seria isto multiplicado por sete mil milhões de pessoas.

A procura pelo equilíbrio saudável

A questão sobre se a proteína animal é necessária para o bem-estar do organismo do ser humano continua a constituir um eterno debate. Para pessoas que consumiram sempre alimentos de origem animal regularmente, a nutricionista Lillian Barros desaconselha eliminar o seu consumo por completo, sem qualquer acompanhamento.

No entanto, deixar de consumir alimentos de origem animal não tem qualquer consequência negativa para a saúde, desde que “exista um acompanhamento monitorizado por um nutricionista, uma vez que através da combinação correta de proteínas vegetais se consegue obter todos os aminoácidos essenciais, ácidos gordos, vitaminas e minerais”, diz-nos Lillian Barros, referindo que a suplementação com vitamina B12 ou outros micronutrientes pode ser necessária.

Todo o leite de mamíferos contém uma quantidade de opioides naturais. O bebé humano, durante um ano, pode crescer entre os sete e os 18 quilos, uma vaca bebé cresce entre os 60 e os 600 quilos, o que quer dizer que ao consumirmos leite de vaca, estamos a consumir dez vez mais opioides – Suzy Cameron, ambientalista

Por vezes, pode ser difícil deixar para trás alguns dos alimentos que comemos a vida inteira. Suzy Amis Cameron conta-nos sobre o seu processo de mudança e diz-nos que o mais difícil de eliminar na sua alimentação foi o queijo e os iogurtes, alertando-nos para o perigo do consumo dos lacticínios.

“Todo o leite de mamíferos contém uma quantidade de opioides naturais. O bebé humano, durante um ano, pode crescer entre os sete e os 18 quilos, uma vaca bebé cresce entre os 60 e os 600 quilos, o que quer dizer que ao consumirmos leite de vaca, estamos a consumir dez vez mais opioides”, explica a ambientalista.

Conclui ainda dizendo que o leite tem o poder de nos deixar anestesiados, “por isso é que quando não dormimos bem à noite nos dizem para bebermos um copo de leite morno antes de irmos dormir”, acrescenta Cameron.

A perfeita imperfeição

“O principal conselho que eu dou quando alguém deseja mudar de hábitos alimentares é arranjar um aliado para juntos, enfrentarem o processo de mudança. É algo que pode ser divertido e muito interessante, porque existe uma enorme troca de ideias e é bastante empoderador”, conta-nos Suzy Amis Cameron.

Para se conseguir ter uma alimentação mais sustentável, não é necessário ser-se perfeito ou radical. As pequenas mudanças já fazem uma grande diferença. “O plano OMD é um convite para conhecer uma alimentação que não é processada nem de origem animal. Pode comer o que lhe apetecer ao pequeno-almoço ou ao jantar, por exemplo. Só tem de mudar uma refeição e, nesse sentido, não é necessário existir perfeição” diz-nos Suzy Cameron.

Lillian Barros também é da opinião que a melhor a opção é ir reduzindo aos poucos o consumo. “Aumentar a ingestão de frutas e vegetais no prato, mesmo quando existe algum produto animal, é uma excelente forma de reduzir a quantidade necessária”, aconselha a nutricionista.

Poupe tempo, dinheiro e saúde

Uma alimentação à base de vegetais tem de ser obrigatoriamente mais dispendiosa? Não, necessariamente. No entanto, “se comprar produtos de origem vegetal processados, pode tornar-se mais cara”, afirma a autora.

O tempo também é outro fator importante para quem opta por este tipo de alimentação. O segredo está em comprar grandes quantidades de legumes e prepará-los aos domingos, por exemplo, para depois não perder tempo com a sua preparação durante a semana. “É tudo sobre voltar a aprender a cozinhar, que julgo ser uma tarefa um pouco esquecida”, acrescenta a ambientalista.

Além disso, ao alimentar-se de forma mais saudável, tem uma menor probabilidade de ficar doente. Por isso, as idas ao médico serão menos frequentes, o que acaba por ser também uma forma de poupança. “O meu marido esteve constipado uma vez em sete anos. Os meus filhos raramente ficam doentes e nós não tomamos nenhum tipo de medicação”, adianta Suzy Amis Cameron.

Comida verdadeira para pessoas reais

Além da redução do consumo de carne, existem outros fatores que nos ajudam a reduzir a nossa pegada ambiental. Como, por exemplo, “optar por produtos da época e de produção nacional, fazer uma boa gestão de compras para reduzir o desperdício alimentar e minimizar o consumo do plástico”, afirma Lillian Barros.

Basicamente, tudo o que for de produção maciça e industrializada deve ser evitado. É esta a lógica que segue Eunice Maia na sua loja de produtos biológicos, Maria Granel, em Lisboa (Alvalade e Campo de Ourique), onde pode encontrar desde especiarias a leguminosas e chocolates – tudo a granel.

Além disso é uma zero waste store, onde não existe plástico. “As pessoas que nos visitam trazem muitas vezes os seus próprios recipientes e só nesse gesto já estão a evitar as embalagens”, explica Eunice Maria.

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº 233, novembro de 2019.

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