* Na rubrica #PowerWorkGirls reunimos histórias de mulheres empreendedoras que todos os dias nos inspiram a perseguir os nossos sonhos. Mulheres que arriscaram sem medos, que trocaram o futuro por presente e o sonho por realidade, e iniciaram assim um árduo caminho em busca da felicidade, realização e reconhecimento.
Fundadora e CEO da Academia Negócios de Saúde, mentora, capa da Forbes, dona de três clínicas médicas e de fisioterapia, autora do podcast Olho prá coisa! e do livro A arte de gerir um negócio de sucesso, Ana Gonçalves é uma verdadeira mulher dos sete ofícios. O seu projeto já ajudou milhares de profissionais de saúde a alcançar o sucesso, com solidez e foco, sem o seu sacrifício pessoal.
A Saber Viver entrevistou Ana Gonçalves, que nos contou sobre o seu percurso profissional, como surgiu a Academia Negócios de Saúde e qual o segredo para um bom work-life balance.
Entrevista a Ana Gonçalves
Tirou uma licenciatura em Fisioterapia e hoje é CEO da Academia Negócios de Saúde e dona de três clínicas. Como foi o seu percurso até aqui?
O meu percurso começou na Fisioterapia, mas rapidamente percebi que ser uma excelente profissional de saúde não me preparava para gerir um negócio. Quando abri a minha primeira clínica, fi-lo porque procurava mais liberdade, autonomia e a possibilidade de construir algo meu. A realidade foi exatamente o contrário.
Durante vários anos fui a primeira a chegar e a última a sair. Trabalhava muitas vezes 14 a 16 horas por dia, acumulava funções, levava trabalho para casa e sentia que o negócio me controlava mais a mim do que eu a ele. Foi nessa altura que percebi que o meu problema não era clínico — era de gestão. Decidi então investir seriamente na minha formação, primeiro através de um executive master em Gestão de Serviços de Saúde e, mais tarde, com um mestrado em Gestão de Empresas. Foram experiências muito importantes, mas também me fizeram perceber outra realidade: a maioria dos empreendedores não tem tempo, disponibilidade ou sequer interesse em fazer um mestrado para aprender a gerir melhor o seu negócio.
Muitas vezes, os conteúdos são demasiado académicos e pouco adaptados à realidade diária de uma pequena ou média empresa. Foi precisamente daí que nasceu a Academia Negócios de Saúde. A nossa missão é encurtar esse caminho. Transformamos conhecimento complexo de gestão em ferramentas práticas que podem ser aplicadas imediatamente no dia a dia de uma clínica ou negócio de saúde. A nossa grande diferenciação é que o nosso corpo docente não ensina apenas teoria. São profissionais que estão na linha da frente: lideram equipas, gerem empresas, contratam e tomam decisões estratégicas diariamente.
O que partilhamos na Academia é o conhecimento validado pelo terreno e pela prática diária. Hoje continuo ligada à gestão das minhas clínicas, mas também tenho o privilégio de ajudar centenas de profissionais de saúde a construir negócios mais sustentáveis, mais rentáveis e, acima de tudo, menos dependentes deles próprios. Porque acredito genuinamente que o sucesso de um negócio não deve ser conquistado à custa da vida pessoal de quem o lidera.
Sempre soube que queria enveredar pela mentoria? Sentia que havia uma falha a colmatar no setor?
Não. Na verdade, se recuar à altura em que escolhi o curso superior, a minha primeira opção nem era Fisioterapia. Entrei para a variante de Matemática e Ciências porque queria ser professora do ensino básico. Os meus pais são professores e cresci num ambiente onde ensinar fazia parte das conversas e da nossa forma de estar na vida. Acabei por mudar de rumo e seguir Fisioterapia, mas a verdade é que essa vontade de ensinar nunca desapareceu.
Mesmo durante a faculdade, era muitas vezes eu que ajudava os colegas a estudar, explicava matérias e procurava formas diferentes de tornar os conceitos mais fáceis de compreender. Olhando para trás, percebo que já existia ali uma vocação natural para a formação. As mentorias surgem muitos anos mais tarde, fruto de uma experiência muito pessoal. Durante muito tempo vivi o mesmo diagnóstico que vejo hoje em tantos profissionais de saúde: a competência técnica refém de uma operação sufocante. Eu tinha uma carreira de sucesso, mas não tinha vida própria.
Com o tempo, formação e aplicação prática, consegui transformar essa realidade. Passei de alguém que era escrava do próprio negócio para alguém que lidera três clínicas, mais de uma centena de colaboradores e que conquistou algo que considero verdadeiramente valioso: liberdade de escolha, liberdade de tempo e liberdade financeira. Foi nesse momento que percebi que guardar esse conhecimento para mim seria quase um ato de egoísmo. Se eu tinha conseguido encurtar um caminho que tantos profissionais percorrem com sofrimento, erros e desgaste, sentia a responsabilidade de partilhar aquilo que tinha aprendido.
Ao mesmo tempo, identificava uma enorme falha no setor. Formamos excelentes profissionais de saúde, mas quase ninguém os prepara para liderar equipas, gerir empresas, interpretar números ou tomar decisões estratégicas. A Academia Negócios de Saúde nasceu precisamente da união destas duas paixões: a paixão por ensinar e a vontade de ajudar outros profissionais a alcançarem o sucesso sem terem de pagar um preço tão alto na sua vida pessoal e familiar.
Em 2025 foi capa da Forbes e lançou A arte de gerir um negócio de sucesso. No livro, assume uma postura muito transparente sobre os seus erros. Qual foi o maior erro que cometeu no início dos seus negócios e o que aprendeu com ele?
Provavelmente, acreditar que conseguia fazer tudo sozinha. Durante muitos anos achei que ser uma boa líder significava estar envolvida em tudo, controlar todos os processos e resolver todos os problemas. Trabalhava horas infindáveis, acumulava funções e acreditava que ninguém faria as coisas tão bem como eu. O problema é que o excesso de controlo cria um negócio dependente do dono e uma empresa que não sobrevive sem a presença constante do seu fundador deixa de ser um ativo sustentável.
Aprendi que liderar não é fazer; liderar é criar as condições ideais para que outras pessoas façam bem. É contratar melhor, delegar com eficácia, confiar mais e construir sistemas que funcionem de forma autónoma. Foi uma aprendizagem difícil, mas transformou completamente a forma como lidero hoje.
Qual é a principal venda nos olhos que sente que os profissionais de saúde ainda têm quando olham para os seus negócios?
Acredito que a principal ilusão é pensar que a competência técnica, por si só, é suficiente para garantir o sucesso de um negócio. Enquanto profissionais de saúde, somos ensinados a investir continuamente no nosso conhecimento clínico. Fazemos cursos, pós-graduações, certificações e procuramos estar sempre atualizados para prestar os melhores cuidados possíveis. E isso está absolutamente certo; a excelência clínica deve continuar a ser uma prioridade absoluta.
O problema surge quando abrimos ou gerimos uma clínica e continuamos a acreditar que o negócio vai crescer apenas porque somos bons profissionais. Costumo dizer que muitos profissionais abrem uma clínica com muito amor, muita dedicação e muita fé. Isso é bonito e importante, mas não basta para pagar salários nem para escalar uma empresa. Quando abrimos as portas de uma clínica, o nosso estetoscópio ou bata ganham uma nova moldura: passamos a ser, obrigatoriamente, líderes e gestores.
Temos de desenvolver novas competências e passar a dominar áreas como liderança, gestão financeira, marketing, vendas, recrutamento, retenção de talento, experiência do cliente e estratégia. Nenhuma destas matérias é ensinada na faculdade, mas todas elas influenciam diretamente a sobrevivência de uma clínica. Vejo frequentemente profissionais extraordinários, dos melhores nas suas áreas, com negócios estagnados, equipas desmotivadas e dificuldades financeiras. Não porque lhes falte competência clínica, mas porque lhes faltam as ferramentas certas de gestão. Mudar este chip mental é o primeiro passo para o crescimento.
Na Academia Negócios de Saúde defende o sucesso sem o sacrifício pessoal. Qual é o segredo para que isto aconteça?
A primeira coisa que costumo dizer é que não podemos ter tudo ao mesmo tempo. Existe sempre uma troca. Se eu quiser fazer tudo sozinha, tomar todas as decisões, controlar todos os processos e estar envolvida em tudo, provavelmente vou ganhar mais dinheiro no curto prazo porque não estou a investir tanto em pessoas e estrutura. Mas vou pagar isso com o meu tempo, com a minha energia e muitas vezes com a minha saúde e com a minha vida pessoal. O segredo não está em trabalhar mais. Está em construir um negócio que não dependa de nós. E isso implica aceitar uma ideia que, para muitos empreendedores, é desconfortável: todas as pessoas devem ser substituíveis dentro de uma organização, incluindo o próprio fundador. Muitas vezes somos nós que criamos a nossa própria prisão.
Queremos continuar no controlo de tudo, queremos que todas as decisões passem por nós e acreditamos que ninguém fará tão bem como nós. Mas esse controlo tem um custo enorme, não só financeiro como emocional, familiar e até de saúde. Quando um negócio depende exclusivamente do seu fundador, deixa de ser um ativo. Passa a ser um emprego muito exigente.
Acredito que o negócio deve ser um veículo para concretizar a nossa estratégia pessoal e não o contrário. O problema é que a maioria das pessoas dedica anos a construir uma estratégia para a empresa, mas nunca para a própria vida. Poucos param para pensar: Que vida quero ter? Quanto tempo quero trabalhar? Que relação quero ter com a minha família? O que é sucesso para mim? E quando não existe uma estratégia pessoal, o negócio ocupa todo o espaço disponível. Vejo muitos profissionais de saúde apaixonados pelo que fazem — e eu própria já estive desse lado. Gostamos tanto da nossa profissão que, a certa altura, deixamos de ter uma identidade para além dela. Passamos a ser apenas o trabalho. E quando isso acontece, qualquer problema no negócio transforma-se num problema na nossa vida. Para mim, o verdadeiro sucesso é conseguir construir um negócio que funciona sem nós todos os dias, para que possamos escolher onde queremos estar. Não porque somos obrigados, mas porque queremos.
Como empreendedora, o que é que a desafia mais hoje em dia?
Hoje o que mais me desafia continua a ser a liderança de pessoas. Acredito genuinamente que as empresas são feitas de pessoas e que o nosso papel enquanto líderes é criar as melhores condições possíveis para que elas cresçam, evoluam e tenham qualidade de vida. Mas, na área da saúde, isso nem sempre é tão simples como gostaríamos. Vivemos um paradoxo interessante. Temos profissionais cada vez mais qualificados, mais conscientes da importância do equilíbrio entre vida pessoal e profissional e com expectativas legítimas em relação ao seu trabalho. Mas, ao mesmo tempo, estamos num setor com muitas limitações.
Por exemplo, muitas profissões de saúde exigem presença física. Não consigo simplesmente oferecer teletrabalho a um fisioterapeuta, a um médico dentista ou a um enfermeiro da mesma forma que outras indústrias conseguem. Além disso, assistimos a uma pressão crescente sobre os preços dos cuidados de saúde, impulsionada pelos seguros, convenções e outros modelos de financiamento que, em muitos casos, reduzem a margem das organizações. Confesso que isso faz-me sentir alguma frustração. Porque gostava de conseguir oferecer ainda mais condições, mais benefícios e mais flexibilidade aos profissionais que trabalham connosco. Nem sempre é possível fazê-lo ao ritmo que gostaria.
Ao mesmo tempo, o crescimento das organizações traz outro desafio muito importante: formar líderes. Hoje o meu maior foco é continuar a desenvolver líderes que sejam capazes de pensar de forma estratégica, tomar decisões e liderar equipas sem dependerem constantemente de mim. Não procuro criar pessoas que façam tudo exatamente como eu faria, mas sim líderes que partilhem os mesmos valores, a mesma exigência, o mesmo sentido de responsabilidade e a mesma preocupação genuína com as pessoas. Porque há um momento em que o crescimento de uma empresa deixa de depender da capacidade do fundador. Passa a depender da capacidade de multiplicar liderança dentro da organização. E esse é, provavelmente, o desafio mais exigente e mais apaixonante que tenho atualmente.
Depois da capa da Forbes e do livro lançado, qual é o próximo grande objetivo que quer alcançar?
A capa da Forbes e o lançamento do livro foram marcos muito especiais na minha carreira, mas não mudaram aquilo que me move no dia a dia. Continuo a acreditar que ainda tenho muito para aprender, construir e contribuir para o setor da saúde. Nos próximos anos, um dos meus grandes objetivos passa por assumir um papel cada vez mais ativo como investidora e parceira estratégica em negócios de saúde. Ao longo da última década tive a oportunidade de acompanhar de perto centenas de clínicas e empresas através da Academia Negócios de Saúde. Isso permitiu-me perceber que existem projetos extraordinários no mercado, liderados por pessoas muito competentes, que muitas vezes só precisam da estratégia, da estrutura ou do parceiro certo para escalar.
Gostava de poder identificar alguns desses projetos e participar de forma mais próxima no seu desenvolvimento, não apenas como mentora, mas também como investidora. Ao mesmo tempo, quero diversificar o meu portefólio por diferentes áreas da saúde. Acredito que isso me permitirá ter contacto com realidades, desafios e modelos de negócio muito distintos, enriquecendo a minha experiência enquanto gestora e empresária. E existe uma razão muito simples para este passo: quanto mais experiência prática eu acumular, mais valor consigo entregar aos profissionais que acompanho.
Uma das grandes forças da Academia é ensinarmos apenas aquilo que vivemos na primeira pessoa; não ensinamos conceitos abstratos, ensinamos aquilo que testamos, implementamos e validámos no terreno. Por isso, vejo estes novos investimentos como uma forma contínua de aprendizagem. Afinal, um líder que deixa de aprender, deixa de conseguir ajudar verdadeiramente os outros a evoluir. O meu objetivo será sempre o mesmo: expandir as fronteiras do meu próprio conhecimento no terreno para continuar a ser o farol que acelera e protege os negócios de quem confia na Academia.




