Nutrição

Dietas, suplementos e promessas milagrosas: o que funciona e o que é mito

Dietas milagrosas? Superalimentos? Jejum intermitente? Produtos mágicos para desinflamar? É possível iniciar 2026 com uma alimentação mais saudável, mas há mitos que importa combater.

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Jan. 28, 2026

A lista de questões sobre supostas soluções perfeitas no que à alimentação diz respeito podia continuar nas próximas linhas. Somos cada vez mais bombardeados por promessas que, se por um lado nos fazem sentir culpadas, por outro, causam pressão desnecessária. E dúvidas. Muitas dúvidas. No começo de cada ano somam-se as metas e a vontade de fazer diferente. Tudo certo. O problema é criado quando os objetivos são superiores à realidade. Ou seja, o melhor é mesmo começar com pouco e ir aumentando gradualmente. É um caminho, uma corrida, não é uma maratona.

“Costumo dizer aos meus clientes que o melhor é ter uma meta de cada vez e até dois objetivos semanais relacionados com a nutrição”, explica a nutricionista Bárbara Cancela de Abreu, com especialização em nutrição clínica e oncológica, a dar consultas na CUF Cascais e CUF Sintra. “A nutrição é uma ciência e não o que funcionou com a vizinha ou um acho que”, acrescenta.

Desde logo o que é recomendado para uma pessoa pode não ser adequado a outra. É preciso fazer uma história clínica e avaliar cada situação, adaptando-a ao contexto individual. “Quando alguém estranha a sugestão de uma dieta completamente diferente da que propus a um amigo, respondo: ‘Eu recomendo tantas dietas quantos clientes tenho’. Não faz nenhum sentido ter propostas de alterações de comportamentos ligados à saúde sem analisar as grandes dificuldades das pessoas, o orçamento familiar, a sua genética e as suas individualidades.”

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Também a nutricionista Ligia Moreira, do Departamento de Evidência Científica da Ordem dos Nutricionistas (ON), considera que “as metas devem ser alcançáveis, para funcionarem, para que a motivação permaneça”. Não adianta querer perder dez quilos em pouco tempo,por exemplo. Da mesma forma, a comparação com outros também pode não ser benéfica para cada caso, e os nutricionistas são fundamentais. “Avaliam o que é possível e necessário equilibrar conforme as necessidades de cada um.”

Opções mais saudáveis

Uma alimentação saudável é “a que contém todos os macro e micronutrientes, a mais semelhante à dieta mediterrânica, um padrão de dieta à base de vegetais, de frutas, cereais integrais, frutos secos, gorduras à base de azeite e peixes com o baixo consumo de carne vermelha, de açúcares e produtos ultraprocessados”, explica a representante da Ordem dos Nutricionistas.

É preciso ter o cliente à frente para Bárbara Cancela de Abreu conseguir prescrever um plano alimentar, que se quer personalizado. Mas, existem indicações mais generalistas que se adaptam a todos. “Os alimentos querem-se naturais. Sacos de polpa de fruta, compotas de fruta e sumos de fruta não são fruta. Fruta é aquilo que a natureza dá e o que se apanha da árvore”, defende.

Por outro lado, vê em consulta “pessoas excessivamente suplementadas e que se desresponsabilizam”. Ou seja, há quem opte por tomar vários suplementos e seguir conselhos de dietas aleatórias que se encontram facilmente na ‘internet’, seguindo o que a nutricionista intitula “manobras de marketing” e diminuem a responsabilidade que devem ter de cuidar de si e da sua alimentação.

“As metas devem ser alcançáveis, para funcionarem, para que a motivação permaneça” – Ligia Moreira, nutricionista

As refeições devem iniciar-se com uma sopa ou salada e metade do prato acompanhado com legumes. Não se culpe quando come algo menos saudável. Por outro lado, adotar compensações muito restritivas dos excessos não é recomendado. A saúde não depende de um alimento, mas sim do estilo de vida. “No caso de duas mulheres da mesma idade, em que uma faz atividade física e outra não, as necessidades nutricionais são completamente diferentes. E importa também a qualidade do sono, o número de horas que passam no exterior, a profissão, etc. Na consulta não falamos apenas de dieta ou daquilo que a pessoa come”, explica a nutricionista da CUF.

Quanto mais descascarmos um alimento, em vez de o “desembalarmos”, mais natural será. “Um prato variado e colorido vai conter uma maior quantidade de micronutrientes (ferro, cálcio, fósforo, vitaminas e minerais), sempre equilibrado com macronutrientes (hidratos de carbono, gorduras e proteínas), salienta Ligia Moreira.

O corpo reconhece aquilo que é natural, avança Bárbara Cancela de Abreu. “A vitamina C vinda da salsa, do kiwi e da laranja tem uma ação positiva no organismo. Recomendo sempre às pessoas optarem pelos alimentos naturais.” A saúde está nas pessoas, não está nos alimentos, garante. “Os nutrientes é que têm a ação, não são os alimentos em si.”

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A hidratação também é essencial, afirmam ambas as nutricionistas. “Costumo prescrever água como um medicamento, distribuída pelo tempo e várias vezes ao dia, para aumentar a eficácia da sua absorção”, explica Bárbara Cancela de Abreu. Recomenda-se também limitar a quantidade de sal e álcool. Comer lentamente às refeições sem televisão nem telemóveis e praticar atividade física são sugestões a ter em consideração. “É um caminho gradual e o que importa é começar por algum lado e combater a inércia.”

Descodificar mitos

Bárbara Cancela de Abreu, especialista em nutrição clínica, refere alguns dos principais mitos que importa combater.

‣ As regras de alimentação saudável resultam de estudos científicos e de sociedades internacionais e não da opinião de cada médico ou nutricionista.

‣ As dietas que excluem alguns grupos de alimentos e a culpabilização de um nutriente ou de um alimento.

‣ A venda de suplementos e produtos milagrosos sem se saber o estilo de vida e as características das pessoas.

‣ Quando o discurso passa por culpabilizar algum nutriente ou alimento entramos num mundo em que se quer vender e em que não se pretende comunicar ciência.

‣ As regras excessivamente rígidas, a linguagem extrema em que se repetem expressões como “detox”, “limpar”, “jejum” sem haver um respeito pelas funções biológicas de cada pessoa.

‣ Ter alimentos proibitivos. Tudo é gerível. Temos de assegurar um caminho fácil para a exceção e o retorno para a vida saudável. Se ambos os caminhos são muito difíceis, isto significa que o plano não está bem-adaptado ao seu caso.

Dos “superalimentos” à inflamação

É comum vermos publicações e até publicidade associadas aos “superalimentos”. Ligia Moreira explica que este não é um conceito científico, mas que surgiu associado à venda de alimentos que “contêm benefícios, compostos bioativos, nutrientes com ação antioxidante e anti-inflamatória”. É o caso, por exemplo, da semente de linhaça e da semente de chia, que contêm propriedades nutricionais, mas “de forma isolada não são capazes de tratar ou curar alguma doença. Ou mesmo prevenir algo”.

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Quando colocamos vários alimentos naturais num padrão de alimentação saudável “o benefício em termos de saúde já existe, mas isoladamente, não têm o mesmo impacto positivo”, sublinha Bárbara Cancela de Abreu. O grande “segredo” é o equilíbrio, não as restrições exageradas ou as dietas fundamentalistas. “Não existe um padrão único ou uma dieta anti-inflamatória mágica”, acrescenta. “De igual modo, comer uma dada quantidade de alimentos ocasionalmente não vai ser uma bomba inflamatória, esta é uma ideia errada. Há exceção para tudo.”

Relativamente ao inchaço abdominal, uma das queixas frequentes, a par do aumento de peso, Ligia Moreira considera que é preciso identificar a causa. “Pode ser pontual, devido a algum alimento que a pessoa comeu, dificuldade de digestão da lactose, ou qualquer outro diagnóstico a ser feito por um profissional. Só assim é possível prescrever algo para melhorar as queixas.”

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº307, janeiro de 2026.

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