Saúde

Úlcera gástrica: como identificar os sinais de alerta

Para que compreenda os sintomas, as causas e conheça os possíveis tratamentos, Sara Ferreira, médica gastroenterologista no Hospital CUF Infante Santo e no Hospital CUF Torres Vedras, desvenda tudo o que precisa de saber sobre a úlcera gástrica.

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Úlcera gástrica: como identificar os sinais de alerta
© Getty Images
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Jul. 21, 2020

As úlceras gástricas constituem feridas na mucosa do estômago, com mais de 5 mm de diâmetro. São doenças relativamente comuns, estimando-se que 5% a 10% da população terá uma úlcera péptica, em algum momento da vida.

O duodeno é outro local onde podem surgir frequentemente úlceras pépticas, embora a sintomatologia seja, por vezes, diferente da das úlceras do estômago.

Existem muitos mitos relativamente a esta doença, sendo da maior importância que se procure aconselhamento médico para avaliar as queixas, decidir acerca do pedido de exames complementares de diagnóstico e orientar o plano terapêutico e de seguimento adequados.

Quais os sintomas mais comuns?

Um dos sintomas mais comuns da úlcera gástrica é a dor abdominal, habitualmente nos quadrantes superiores.

Esta dor pode ser desencadeada pela ingestão de alimentos e ocorre, em média, 15 a 30 minutos após as refeições. Muitas vezes é acompanhada por sintomas que podem surgir noutras doenças do aparelho digestivo e não só, como náuseas, enfartamento ou distensão abdominal.

Não é raro que a primeira manifestação da úlcera gástrica seja já uma complicação, como uma hemorragia digestiva alta – Sara Ferreira, médica gastroenterologista

A existência de vómitos persistentes e/ou de anemia por falta de ferro são sinais de alarme que implicam sempre a realização de endoscopia digestiva alta. Nas úlceras gástricas em particular, não é incomum a perda de peso.

Estes sintomas, estando presentes em várias outras doenças, devem ser objeto de avaliação pelo médico, pois só assim se poderão decidir os exames complementares mais adequados em termos de investigação. O atraso no diagnóstico da doença pode levar a complicações e comprometer o seu tratamento atempado.

Não é raro que a primeira manifestação da úlcera gástrica seja já uma complicação, como uma hemorragia digestiva alta (na forma de vómitos com sangue ou fezes negras e com cheiro caraterístico), uma perfuração gástrica ou uma obstrução à passagem dos alimentos para o intestino delgado.

Na verdade, em alguns doentes cuja apresentação foi esta, já havia, retrospetivamente, alguma sintomatologia, que não foi adequadamente valorizada ou investigada.

O que pode causar uma úlcera gástrica?

Quanto às causas da úlcera gástrica, existem duas fundamentais – a infeção por uma bactéria (H.pylori) e o consumo de alguns medicamentos, nomeadamente anti-inflamatórios não esteróides (medicamentos “para as dores”).

Assim sendo, a ideia de que as úlceras são causadas pelo stresse/ansiedade (úlceras nervosas) ou pelo consumo de determinados alimentos não tem qualquer fundamento científico.

Também a ideia de que as úlceras podem ser crónicas não tem fundamento, ou seja, é necessário efetuar o tratamento adequado de forma a permitir a sua cicatrização e evitar a recorrência.

Em 70% a 90% dos doentes com úlceras gástricas, confirma-se a presença da bactéria H.pylori no estômago, sendo esta a causa da doença, isoladamente ou em conjunto com outros fatores.

É obrigatório pesquisar a infeção por esta bactéria quando se diagnostica uma úlcera gástrica, pois se estiver presente, só a sua erradicação permite a cicatrização da doença e evitar que haja recorrências da mesma.

O uso de fármacos analgésicos/anti-inflamatórios deve ser controlado e, sempre que isso seja viável, deve optar-se pela dose mínima eficaz durante o menor tempo possível. Este aspeto adquire ainda maior relevância na população idosa, que já por si só apresenta um risco acrescido de desenvolver úlcera péptica e suas complicações.

Existem alguns outros grupos populacionais com maior risco de desenvolver úlceras, concretamente os fumadores, os indivíduos que consomem bebidas alcoólicas e os portadores de algumas doenças crónicas, como a obesidade, as doenças pulmonares e do fígado.

Os alimentos não só não causam úlceras, como também não as tratam nem prejudicam a sua cicatrização – Sara Ferreira, médica gastroenterologista

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da úlcera gástrica implica a realização de uma endoscopia digestiva alta, a qual também permite efetuar biopsias da lesão e de outros segmentos do estômago, neste caso para despiste da infeção por H.pylori.

As biopsias da úlcera são muito importantes para estudo de outras doenças que podem também apresentar-se na forma de úlcera gástrica, em particular os tumores do estômago. É por isso que se deve comprovar a cicatrização da doença, realizando uma nova endoscopia cerca de 3 meses após o início do tratamento.

Quais os tratamentos disponíveis?

O tratamento da úlcera gástrica passa por tratar a causa subjacente, concretamente a infeção por H.pylori (e confirmar a sua erradicação) e, sempre que possível, suspender o consumo de fármacos que não sejam obrigatórios, nomeadamente anti-inflamatórios.

Na impossibilidade de o fazer, existem algumas opções de medicamentos que não são tão agressivos para a mucosa gástrica e cumprem o efeito pretendido.

Se houver necessidade de efetuar terapêutica prolongada com fármacos que possam causar úlceras, como medicamentos para tratar ou prevenir doenças cardiovasculares ou corticóides, pode ser necessário prescrever inibidores da bomba de protões (tais como omeprazol, pantoprazol ou esomeprazol), que devem ser tomados enquanto aquelas terapêuticas se mantiverem (em muitos casos, indefinidamente). Os doentes devem seguir sempre as indicações do seu médico assistente.

No caso concreto das úlceras gástricas, a supressão ácida do estômago deve ser mantida com inibidores da bomba de protões durante 6 a 8 semanas, para permitir a cicatrização.

Deve ser ainda desaconselhado o consumo de álcool e de tabaco, mas não há qualquer motivo para evitar alimentos, a não ser os que já devem ser evitados por razões de prevenção de doenças crónicas. Quer isto dizer que os alimentos não só não causam úlceras, como também não as tratam nem prejudicam a sua cicatrização.

Numa pequena percentagem de casos, as úlceras podem ser consideradas refratárias ao tratamento, ou seja, não ter ocorrido cicatrização após tratamento adequado e supressão ácida durante 8 a 12 semanas. Isto pode acontecer por não ter sido erradicada a H.pylori (falsos negativos dos testes usados para comprovar a erradicação) ou porque o consumo de alguns fármacos se mantém.

Também pode dar-se o caso de a úlcera corresponder a outra doença, sendo o tumor do estômago a mais temível. Nestas situações de refratoriedade ao tratamento, as opções cirúrgicas continuam a fazer sentido, tal como fazem nos casos de complicações não passíveis de resolução endoscópica.

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