Relações e família

Será o amor romântico incondicional?

Estaremos a confundir amor com dependência emocional ou medo de perder o outro? No Dia dos Namorados, Helena Paixão, psicóloga clínica, reflete sobre o amor incondicional romântico e o que torna uma relação saudável.

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Será o amor romântico incondicional? Será o amor romântico incondicional?
© Pexels
Helena Paixão, psicóloga clínica
Escrito por
Fev. 14, 2026

Crescemos rodeados de histórias que nos ensinaram que o amor verdadeiro tudo suporta, tudo perdoa e tudo aguenta. Filmes, músicas e narrativas culturais repetem a ideia de que, quando o amor é “a sério”, é incondicional.

Mas será mesmo assim? Ou estaremos a confundir amor com resistência, apego ou medo de perder? Do ponto de vista psicológico, esta é uma questão central porque a forma como entendemos o amor influencia diretamente a forma como nos relacionamos, colocamos limites e cuidamos de nós.

O que significa, afinal, amor incondicional?

O conceito de amor incondicional está, sobretudo, associado às relações parentais, sobretudo na relação cuidador–criança. É um amor que não depende do comportamento do outro para existir. A criança pode errar, testar limites, falhar e continua a ser amada.

Nas relações românticas, a lógica é diferente.

O amor entre adultos pressupõe reciprocidade, escolha consciente e responsabilidade emocional. Não é apenas um vínculo afetivo, é uma relação entre duas identidades autónomas. Por isso, falar de amor romântico incondicional pode ser não só irrealista, como potencialmente perigoso.

Quando o “amor sem condições” se transforma em autoabandono

Muitas pessoas permanecem em relações que lhes causam sofrimento acreditando que amar é aguentar. Aguentar a indiferença, a falta de cuidado, a desvalorização emocional ou até comportamentos abusivos. Nestes casos, o amor deixa de ser um espaço de crescimento e passa a ser um lugar de sobrevivência e toxicidade.

Do ponto de vista psicológico, isto acontece muitas vezes quando o medo de perder é maior do que o medo de se perder a si próprio, a autoestima está fragilizada, existe um padrão de vinculação inseguro ou quando se confunde intensidade emocional com amor.

Amar sem condições, nestes contextos, não é um amor saudável, é muitas vezes uma tentativa de garantir vínculo a qualquer custo.

O amor saudável não elimina conflitos, mas cria espaço para reparação. Não exige perfeição, mas exige compromisso emocional – Helena Paixão, psicóloga clínica

Amor saudável implica condições?

As “condições” num amor adulto não são exigências rígidas ou jogos de poder. São limites emocionais básicos como respeito, segurança, cuidado, responsabilidade afetiva e coerência entre palavras e ações.

Quando dizemos “Eu amo-te, mas não aceito ser desrespeitada.” ou “Eu escolho estar contigo, mas não à custa da minha saúde emocional.”, não estamos a amar menos. Estamos a amar de forma mais consciente.

O amor saudável não elimina conflitos, mas cria espaço para reparação. Não exige perfeição, mas exige compromisso emocional.

A diferença entre amar e precisar

Um dos grandes desafios nas relações românticas é distinguir amor de necessidade emocional. Quando precisamos do outro para nos sentirmos inteiros, validados ou seguros, tendemos a aceitar mais do que devíamos. O amor maduro nasce da escolha, não da carência. Não significa que não precisemos de vínculo. Todos precisamos. Significa que o outro não pode ser a única fonte de valor pessoal, segurança ou identidade.

Quando o amor é vivido como dependência, qualquer ameaça à relação ativa ansiedade, controlo ou submissão. Quando é vivido como escolha, permite liberdade e crescimento mútuo.

Amar não é perder-se

Do ponto de vista terapêutico, uma das frases mais comuns em contexto de consulta é:
“Eu já não sei quem sou fora desta relação.”

Quando o amor exige que nos anulemos, silenciemos emoções ou ignoremos limites internos, deixa de ser amor e passa a ser um padrão relacional desadaptativo. Amar alguém não implica abdicar de si. Pelo contrário, relações saudáveis fortalecem a identidade, não a diminuem.

O amor romântico saudável é um amor com presença, escolha e responsabilidade emocional. É um amor que aceita imperfeições, mas não normaliza o sofrimento. Que compreende falhas, mas não ignora padrões destrutivos.

É um amor que diz: “Escolho-te, enquanto esta relação for um lugar seguro para ambos.” E isso não o torna frágil. Torna-o adulto.

Amar bem também se aprende

Muitos de nós não aprendemos a amar de forma segura. Aprendemos a adaptar-nos, a agradar, a ficar, a insistir. Questionar a ideia de amor incondicional nas relações amorosas é um passo importante para relações mais saudáveis com os outros e connosco próprios. Amar não é resistir a tudo. Amar é escolher cuidar e continuar quando o amor é fonte de respeito, admiração, intimidade e crescimento mútuo. E, talvez, isso seja a forma mais profunda de amor que existe.

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