Relações e família

O pesadelo da violência no namoro entre os jovens

As relações afetivas entre os adolescentes devem ser um lugar seguro e saudável para o qual podem voltar sempre. Mas quando a humilhação, o controlo, o medo ou o ciúme tomam conta, o conto de fadas desvanece-se. Conheça a violência no namoro por inteiro.

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O pesadelo da violência no namoro entre os jovens
Marta Vieira
Escrito por
Jan. 31, 2020

A adolescência é o período por excelência das alterações corporais e do desenvolvimento cognitivo; da autonomia e da autorregulação emocional; da construção de uma identidade e da inserção na vida social; do despertar da sexualidade e da descoberta do amor.

É com as primeiras relações amorosas que os jovens se moldam como futuros adultos numa sociedade que privilegia as relações humanas. Podem ser muito felizes aqui, ou, pelo contrário, tirarem lições para a vida, neste seu percurso tão pueril ainda.

A verdade é que a violência não é exclusiva das relações entre adultos e, muitas vezes, começa mesmo a desenhar-se na juventude. Para nos ajudar a compreender a complexidade da violência no namoro, falámos com Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica e terapeuta Emdr na clínica de psicologia e coaching Lern2be, para nos guiar numa conversa informada e reflexiva.

Este é um tema que precisa de ser falado pois é no namoro que se começam a ensaiar os relacionamentos do futuro com tudo o que isso implica: perceção de mim, dos outros, expectativas – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

De que estamos a falar?

A APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), na sua página de apoio aos jovens vítimas desta problemática, define-a como “um ato de violência, pontual ou contínua, cometida por um dos parceiros (ou por ambos) numa relação de namoro, com o objetivo de controlar, dominar e ter mais poder do que a outra pessoa envolvida na relação”. Sumariamente está cá tudo, embora esta realidade se revele um submundo bem mais denso.

“Este é um tema que precisa de ser falado pois é no namoro que se começam a ensaiar os relacionamentos do futuro com tudo o que isso implica: perceção de mim, dos outros, expectativas” começa Catarina Canelas Martins.

“É também nesta fase que se começam a estabelecer papéis de vítima/agressor que poderão ser mantidos ao longo da vida e que se começam a construir crenças sobre o próprio e os relacionamentos, que poderão ser altamente limitantes” continua prontamente.

Uma pergunta muito recorrente: como se distingue da violência doméstica? De facto, enquadra-se no quarto legal do crime de violência doméstica, contudo, acontece no âmbito de uma relação entre jovens.

Formas de violência

Violência verbal (humilhação, crítica, ameaça);
Violência psicológica (controlo, manipulação, danificação de objetos);
Violência relacional (promoção do isolamento social);
Violência física (empurrões, murros, bofetadas);
Violência sexual (coação à prática de relações sexuais ou carícias forçadas).

A ideia que se deve ter presente é que existe uma evolução destas formas de violência. Se, inicialmente, possam ser desvalorizadas de tão impercetíveis, com o passar do tempo tendem a agravar-se, assumindo uma intensidade desmensurada.

Quem são as vítimas?

Se nas relações de violência entre adultos é mais comum ser a mulher subjugada ao poder do homem, aqui as probabilidades são de igual para igual. A única diferença está no tipo de agressão.

As raparigas recorrem mais à violência verbal e psicológica e os rapazes fazem-se valer da violência física, para ferir ou magoar a vítima. Esta poderá então experienciar vergonha e culpa; desconfiança e insegurança, medo e solidão, mas também tristeza e ansiedade.

Explicações querem-se

O estudo psicológico tanto de agressores como de vítimas, no contexto das relações amorosas, tem vindo a ser alvo do interesse da comunidade científica.

Existem alguns modelos explicativos da violência entre parceiros íntimos, onde se destacam sobretudo as características do indivíduo, da relação entre os parceiros íntimos e das comunidades onde estão inseridos” explica-nos Catarina Canelas Martins.

Ou seja, para além da importância de fatores individuais que podem aumentar a probabilidade para exercer violência ou ser vítima da mesma, é importante atender, igualmente, a fatores situacionais “sendo que pessoas que testemunharam violência ou foram vítimas na infância poderão ter uma probabilidade aumentada para experimentar violência numa relação de namoro” alerta-nos a psicóloga clínica.

Para terminar uma relação assim é necessário muitas vezes apoio. Quer seja dos pais, de professores, de um psicólogo, ou outro adulto de referência (ex.: treinadores), ou mesmo de uma associação como a APAV – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

Impacto sério na vida dos jovens

Experienciar uma relação íntima abusiva tem implicações na vida dos jovens, não só ao nível individual, como seria de esperar, mas também familiar e nos vários contextos sociais em que estes se movem, incluindo a escola. Algumas consequências podem ser, inclusive, sinais de alerta para os demais. Destacam-se:

Dificuldades de concentração;
Falta de motivação;
Isolamento da família e/ou amigos;
Declínio do desempenho escolar;
Desinteresse por atividades prazerosas;
Sentimentos de medo e tristeza;
Lesões físicas sem explicação;
Diminuição da autoestima;
Alteração do padrão de sono e/ou alimentação.

A importância do pedido de ajuda

O pedido de ajuda parte da necessidade de sair da relação disfuncional na qual a pessoa muitas vezes já se encontra bastante fragilizada” explica Catarina Canelas Martins sobre esta fase.

De facto, recorrer ao auxílio de terceiros, trata-se de uma tarefa bem mais complexa do que se poderia imaginar. Catarina Canelas Martins e a APAV enumeram uma série de razões que podem levar os jovens a recusarem este pedido de ajuda:

Não reconhecimento de que se está numa relação abusiva;
Receio de culpabilidade pelo relacionamento abusivo;
Receio de se ficar sozinho e não encontrar outra relação;
Esperança que o comportamento abusivo termine;
Vergonha associada;
Procura de privacidade;
Ignorância acerca dos recursos disponíveis.

“Para terminar uma relação assim é necessário muitas vezes apoio. Quer seja dos pais, de professores, de um psicólogo ou outro adulto de referência (ex.: treinadores), ou mesmo de uma associação como a APAV” reforça Catarina Canelas Martins.

De facto, para além de instituições informativas e de apoio como a própria APAV, os jovens podem sempre recorrer aos hospitais e centros de saúde para uma ajuda médica e/ou psicológica; às autoridades policiais, onde poderão apresentar queixa e informarem-se dos trâmites legais associados; à escola que pode acompanhar o caso e o jovem de perto.

O passo mais importante é reconhecer que não mereces estar numa relação onde amor é confundido com violência e onde a cada dia que passa perderás mais o amor-próprio e a esperança – Catarina Canelas Martins, psicóloga clínica

Desafios Sociais

O papel da família, agentes educativos e sociedade no geral é estar atenta aos sinais que os seus jovens vão manifestando e não desvalorizar” explica Catarina Canelas Martina. Como?

“É necessária empatia, disponibilidade para ouvir sem criticar, dar suporte e orientar para que se encontre uma solução que passa por muitas vezes reestruturar emocionalmente a vítima, trabalhar a sua autoestima e os seus padrões relacionais”.

Por outro lado, a psicóloga também fala na importância de ver o agressor como um jovem que precisa de apoio e orientação.

A mesma acredita que “o caminho [da sociedade] passa por sensibilizar os jovens para aquilo que é ou não é o amor “uma vez que, muitas vezes, “lhes faltam modelos saudáveis de relacionamentos nas suas vidas”.

“O passo mais importante é reconhecer que não mereces estar numa relação onde amor é confundido com violência e onde a cada dia que passa perderás mais o amor-próprio e a esperança” conclui a psicóloga, numa mensagem direta aos jovens a viver esta situação.

A propósito do tema, no dia 5 de fevereiro pelas 18h30, não perca a inauguração da exposição São Valentim que Nos Perdoe, e participe num debate sobre a violência no namoro, moderado pelo jornalista Paulo Farinha, com Inês Lopes Gonçalves, o psicólogo Eduardo Sá, Daniel Cotrim da APAV e ainda a artista Clara Não. A exposição estará patente até dia 16 de fevereiro, na Fnac do Colombo.

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