A preservação da fertilidade deveria ser uma preocupação, na mesma medida em que se prepara a carreira, a vida financeira e outros aspetos da vida. Este é um dos principais conselhos do ginecologista, obstetra e especialista em Medicina da Reprodução Miguel Raimundo. “Vamos para a faculdade, arranjamos um trabalho, mudamos de emprego, temos relacionamentos, e nem sempre é fácil acertar no primeiro ou segundo relacionamento, e, aos 40 anos, começamos a pensar em ter filhos”, afirma.
Mas, nesta idade, as coisas complicam-se. E muito. O adiamento da idade para engravidar e o fator tempo constituem uma das principais causas da infertilidade.
Antigamente, a média de idades no recurso à consulta de Medicina da Reprodução era de 35-36 anos. “Atualmente, é de 38-39, o que tem muito impacto do ponto de vista reprodutivo e gera muita ansiedade”, defende. A opinião é corroborada por Mary Branquinho, médica especialista em Ginecologia e Obstetrícia na AVA Clinic: “O adiamento da parentalidade tem hoje um papel relevante, dado o impacto direto da idade na fertilidade”. Em cerca de metade dos casais, existe também o contributo de fator masculino, sendo fundamental uma avaliação conjunta, adianta.
Na mulher, a idade tem um impacto significativo, com uma diminuição progressiva da fertilidade a partir dos 35 anos, associada à redução do número e da qualidade dos ovócitos. “Após os 40 anos, este declínio torna-se mais acentuado, com menor probabilidade de gravidez, maior risco de aborto espontâneo e aumento de alterações cromossómicas nos embriões”, diz a especialista. No homem, o impacto é mais gradual, mas pode ocorrer “diminuição da qualidade seminal, incluindo alterações na concentração, mobilidade e fragmentação do ADN dos espermatozoides, o que pode afetar o tempo até à conceção e, nalguns casos, as taxas de sucesso reprodutivo”.
Quando procurar ajuda?
A partir de que momento deve um casal procurar ajuda especializada para o início de tratamentos de fertilidade? Não existe uma resposta única para todos os casos, mas as recomendações gerais apontam para a procura de aconselhamento especializado quando não se consegue engravidar após 12 meses de relações sexuais regulares e sem utilização de métodos contracetivos. “No entanto, este período reduz-se para seis meses quando a mulher tem 35 anos ou mais, uma vez que a fertilidade feminina diminui de forma mais acentuada com a idade” sugere Mary Branquinho.
Existem ainda situações em que faz sentido procurar ajuda mais cedo, independentemente da idade ou do tempo de tentativas, que se relacionam com “ciclos menstruais irregulares ou ausentes, endometriose, cirurgia pélvica prévia, doenças com possível impacto na fertilidade ou suspeita de fator masculino”. A consulta permite avaliar fatores de risco, esclarecer e orientar o casal de uma forma individualizada. Recorde-se que, no Serviço Nacional de Saúde, os tratamentos podem ser realizados até aos 40 anos e, no privado, até aos 50.
Um problema sem culpados
Segundo Miguel Raimundo, existe a ideia errada de que a infertilidade é um problema apenas da mulher. Nada mais errado. É do casal. “Um terço das causas de infertilidade são puramente masculinas, 1/3 são causas femininas e, em 10% dos casos, não se consegue entender a causa.” O médico tem notado uma maior tendência de procura de tratamentos por parte de mulheres solteiras, que se cansaram de esperar pelo parceiro ideal, ou casais homossexuais. Mary Branquinho também acompanha esta realidade. “Atualmente, estes tratamentos são também procurados por mulheres que optam pela maternidade independente e por casais do mesmo sexo, refletindo uma maior diversidade de modelos familiares.”
Pesam também os avanços significativos da Medicina da Reprodução e a maior consciencialização sobre a saúde reprodutiva. Com o passar dos anos, a reserva ovárica vai diminuindo. “A mulher nasce com a sua reserva ovárica para o resto da vida, e a mesma é influenciada pelos estilos de vida, pela alimentação, pelo stresse, pelo consumo de drogas, pelo álcool e pelo tabaco”, reforça Miguel Raimundo. A janela de oportunidade da fertilidade vai-se perdendo, e é preciso ter isso em consideração.
O fator mais determinante para o sucesso dos tratamentos é a idade da mulher. Mary Branquinho define como o momento ideal “aquele em que se identifica a dificuldade em engravidar, evitando atrasos desnecessários na orientação clínica”. O primeiro passo é procurar informação clara e individualizada, uma vez que muitos receios resultam de perceções incorretas sobre os tratamentos. “Nem todos os casos exigem abordagens complexas, e muitos começam com medidas simples e progressivas.”
Existem alguns mitos associados aos tratamentos de procriação medicamente assistida (PMA) que importa desmistificar. Um deles é de que a fertilização in vitro (FIV) garante o sucesso a 100%. “Claro que não é verdade. Eu mostro os gráficos, os algoritmos, e é muito comum os casais questionarem sobre a impossibilidade de aumentar as taxas de sucesso, para 50-60%. Infelizmente não conseguimos isso.” Esta ideia tem uma razão de ser: a FIV “é uma das técnicas de reprodução assistida com maiores taxas de sucesso e consiste num conjunto de etapas laboratoriais e clínicas bem definidas”, adianta Mary Branquinho.
A seleção do tratamento de fertilidade, sublinha, “é sempre individualizada e baseada numa avaliação clínica completa. São considerados fatores como idade, causa da infertilidade, reserva ovárica, estudo do sémen e duração da infertilidade”. Com base nesta análise, podem-se indicar desde tratamentos mais simples, como indução da ovulação ou inseminação intrauterina, até técnicas mais complexas, como a FIV, escolhendo sempre a abordagem mais adequada para cada caso.
Barreiras emocionais e financeiras
Seja qual for a opção, a vida do casal muda. “Habitualmente, os casais partem para a consulta muito motivados, com um pico de motivação incrível, mas, à medida que os resultados vêm negativos, a relação e a sexualidade ficam alteradas”, diz Miguel Raimundo. É então essencial haver consciencialização e sensibilização para o processo. A sua função, defende, é alterar um pouco a expectativa dos casais e “explicar o que envolve o processo, a parte da estimulação, dos efeitos secundários, o que pode acontecer na punção, a percentagem de óvulos que não vai ser fecundada e a outra parte que não vai chegar ao embrião que queremos, que nem todos os embriões vão ser bons geneticamente e podem ter de ser descartados, entre outros”. O especialista esclarece algumas questões no seu livro Viva a vida com fertilidade, um guia onde explica as causas da infertilidade, os exames e os tratamentos, e inclui casos reais no final de cada capítulo para que os casais não se sintam sozinhos nesta jornada.
Todo o procedimento pode ser exigente, sobretudo numa sociedade onde existe uma grande pressão social para que os casais tenham filhos. “É importante que o casal saiba quais os efeitos psicológicos esperados após um diagnóstico de infertilidade”, explica Ana Oliveira Pereira, psicóloga clínica e da saúde na AVA Clinic há muitos anos dedicada a esta área. É comum surgir “uma maior ou menor perturbação emocional aquando do diagnóstico e ao longo dos tratamentos que afeta ambos os elementos do casal em diversas dimensões – pessoal, conjugal, profissional e social”.
O que os estudos dizem
Um dos estudos mais importantes citados pela psicóloga baseia-se em registos da Dinamarca e incluiu todas as mulheres registadas para tratamentos de PMA entre 1 de janeiro de 1994 e 30 de setembro de 2009, com uma amostra final constituída por 148.873 casais. Os resultados mostraram não existir qualquer efeito dos tratamentos de fertilidade na dissolução matrimonial futura ao longo de um período de 16 anos. “O risco de separação é influenciado principalmente pela ausência de filhos, independentemente de se ter passado por tratamento de PMA.” Outro estudo, feito com dados do Inquérito Nacional sobre o Crescimento Familiar dos EUA (NSFG), recolhidos entre 2002 e 2013-2015, comparou as taxas de divórcio entre 13.784 mulheres que tiveram tratamentos bem-sucedidos ou mal-sucedidos e um parto natural ou nenhum parto durante o casamento. Os resultados mostraram que as mulheres que recorreram a tratamentos de fertilidade apresentaram um risco menor de divórcio até 20 anos após o casamento, em comparação com os outros grupos. “De novo, a probabilidade era especialmente baixa quando o tratamento era bem-sucedido, mas as mulheres que não engravidaram após o tratamento também apresentaram um risco menor de divórcio.”
Miguel Raimundo defende que os casais que não conseguem concretizar o seu projeto de parentalidade “devem reinventar-se e reencontrar-se na vida a dois“. O médico destaca ainda a relevância de ter um limite financeiro até ao qual se pode ir nas tentativas. “Estamos perante tratamentos com um custo elevado e, a partir de dado momento, as tentativas consecutivas podem ser caóticas financeiramente.” Existem, no entanto, suficientes evidências de que as perturbações emocionais comuns nesta situação “são uma consequência e não a causa da infertilidade”, diz Ana Oliveira Pereira. Da sua experiência, constata que “ainda é elevado o número de casais que desiste, não por questões financeiras, mas porque não conseguem lidar mais com o esforço emocional dos tratamentos de fertilidade”. Ainda assim, aconselha a “manter a esperança e o otimismo e não desistir precocemente de tentar. Todas as estratégias que se sugerem para controlar o stresse têm como objetivo ajudar a que o casal consiga prosseguir, mais do que melhorar a possibilidade de conseguir a gravidez desejada”.
Os dados estatísticos mostram que, após aproximadamente o quinto ciclo de tratamento sem sucesso, as hipóteses de conseguir engravidar são muito baixas. “Os casais nesta situação devem ser apoiados no processo de tomada de decisão, uma vez que interromper os tratamentos é muito difícil, principalmente para as mulheres.” Também aqui é fundamental ter informação de qualidade e expectativas moderadas. “Há pessoas que continuam a procurar tratamentos quando é improvável que resultem, a gastar mais dinheiro do que podem nos tratamentos ou a consultar mais um médico noutra clínica, quando a primeira, a segunda e a terceira opiniões foram todas no sentido de parar”, afirma a psicóloga. Quando é o caso, devem ser exploradas outras opções de tratamento, por exemplo, a doação de gâmetas (óvulos ou esperma), a adoção ou a aceitação de uma vida sem filhos, remata.


