Entrar numa loja, pegar numa peça de roupa e voltar a deixá-la no mesmo sítio. Não porque seja demasiado cara ou porque não fosse aquilo que procurava, mas porque surge um pensamento difícil de ignorar: e se precisar deste dinheiro mais tarde? “Na consulta, encontro frequentemente pessoas que vivem com medo de gastar e sentem culpa sempre que fazem uma compra porque estão sempre à espera de que aconteça alguma coisa no futuro”, afirma Cátia Silva, psicóloga especializada em ansiedade, burnout e depressão.
Nos últimos anos, este comportamento tem sido apelidado de anorexia financeira, um medo persistente de gastar dinheiro, mesmo que não existam dificuldades económicas objetivas. Pode manifestar-se mesmo em pessoas com empregos estáveis e sem dívidas, mas que vivem numa necessidade constante de controlo.
Para Daniel Rocha, analista e comentador de mercados financeiros, esta ansiedade está relacionada com a crescente dificuldade em alcançar estabilidade. O aumento do custo de habitação, a precariedade no trabalho e as redes sociais estão entre os principais responsáveis por alimentar a anorexia financeira.
Embora possa afetar qualquer pessoa, Daniel Rocha considera que “quem tem entre 25 e 35 anos hoje está numa posição particularmente difícil”. “Quanto ao género, os estudos mostram de forma consistente que as mulheres reportam mais ansiedade à volta do dinheiro”, resultado das desigualdades salariais e uma menor exposição a falar e decidir sobre investimentos.
Tudo começa na infância
A relação que hoje temos com o dinheiro começou a construir-se muito antes de aprendermos a fazer contas ou a gerir um orçamento. Desde cedo, observamos a forma como os adultos que nos rodeiam falam sobre dinheiro, lidam com despesas e tomam decisões financeiras.
“Se cresceram num ambiente onde o dinheiro era motivo constante de conflitos, preocupação ou insegurança, é natural que, na vida adulta, sintam maior necessidade de controlar tudo ou vivam com receio de que nunca seja suficiente”, explica Cátia Silva. Acrescentando que frases como “o dinheiro não nasce das árvores” e “temos de poupar para o pior” podem ser mensagens transmitidas com a intenção de proteger, mas que futuramente podem transformar-se em crenças profundas.
A falta de literacia financeira é outro dos desafios. Em muitas famílias, falar sobre salários, rendas ou dificuldades financeiras continua a ser um tabu. “O silêncio protege o desconforto de curto prazo, mas deixa as pessoas mais vulneráveis a longo prazo”, explica Daniel Rocha. Quando não existe um espaço seguro para se esclarecer dúvidas, torna-se mais difícil reconhecer um mau negócio ou perceber quando se está a tomar uma má decisão.
O preço que não se vê
Quando a preocupação com o dinheiro permanece de forma persistente, as consequências deixam de se refletir apenas na conta bancária. A saúde mental, a relação com os outros e a dinâmica entre casal podem sair afetadas. Para Cátia Silva “diferenças na forma de gastar, poupar ou planear o futuro podem dar origem a discussões repetidas, afastamento emocional e dificuldades na comunicação”.
Viver permanentemente em ansiedade mantém o organismo num estado de alerta quase constante, que aumenta o risco de sintomas depressivos, alterações do sono, dificuldades de concentração e exaustão emocional. “É frequente encontrar pessoas que evitam férias, jantares ou atividades com amigos não porque não tenham capacidade financeira, mas porque o simples ato de gastar lhes provoca ansiedade”, explica a psicóloga. Com o tempo, este comportamento pode levar ao isolamento e comprometer a qualidade de vida.
Pequenas mudanças, grandes diferenças
Ultrapassar uma relação ansiosa com o dinheiro passa, antes de mais, por conhecer melhor os próprios hábitos. “Uma coisa simples que ajuda bastante é saber, com precisão, para onde foi cada euro durante um mês inteiro, sem esconder despesas numa categoria vaga de diversos”, sugere Daniel Rocha.
Tanto o analista como Cátia Silva defendem igualmente a importância de ter uma reserva de emergência, mesmo que pequena. Esta estratégia, “muda a experiência de uma despesa inesperada, deixa de ser uma crise e passa a ser algo já esperado e coberto”. Além de reforçar a literacia financeira, há também que “identificar crenças antigas sobre dinheiro e questionar se continuam a ser verdadeiras na realidade atual”, sublinha a psicóloga como passo essencial para olhar para o dinheiro de forma diferente.
Antes de fazer uma compra maior ou fora do habitual, pode também esperar um ou dois dias antes de confirmar a compra. “Não é sobre privação, é sobre tirar a decisão do calor do momento, seja ansiedade ou vontade de recompensa, e dar-lhe espaço para ser avaliada com mais calma”, conclui Daniel Rocha.
