Durante décadas, o universo da beleza viveu sob o domínio de uma única molécula, o ácido hialurónico. Capaz de reter quantidades massivas de água, tornou-se o ingrediente de eleição de qualquer rotina de cuidado cujo foco fosse a hidratação. No entanto, a ciência não parou no tempo e a abordagem atual é muito mais abrangente e ambiciosa. Já não se fala apenas de hidratar a pele à superfície, mas sim de restaurar o seu funcionamento fisiológico e garantir que a sua arquitetura natural permanece intacta face às agressões externas.
Conforme explica Carolina Pereira, farmacêutica e responsável de relações públicas e comunicação da Filorga, “o ácido hialurónico continua, sem dúvida, a ser um dos ingredientes mais importantes no que diz respeito à hidratação da pele. A sua extraordinária capacidade de captar e reter água faz dele uma referência incontornável na dermocosmética. No entanto, hoje sabemos que uma pele verdadeiramente hidratada depende de muito mais do que apenas aumentar o seu conteúdo em água. A hidratação resulta do equilíbrio entre vários mecanismos, desde atrair água, evitar a sua perda, reforçar a barreira cutânea e preservar a qualidade da pele. (…) Mais do que procurar um ingrediente-estrela, a inovação está no desenvolvimento de fórmulas inteligentes, capazes de atuar em vários mecanismos em simultâneo e de forma sinérgica. E, nesse sentido, considero que estamos no bom caminho para uma abordagem mais holística e completa aos cuidados da pele”.
É precisamente desta evolução que nasce uma nova geração de ingredientes capazes de potenciar a hidratação muito para além do ácido hialurónico. Dos pós-bióticos aos péptidos biomiméticos, passando por moléculas que reforçam a barreira cutânea e protegem a pele das agressões diárias, a ciência está a transformar aquilo que significa ter uma pele hidratada.
O poder invisível dos pós-bióticos
A pele é um ambiente complexo e dinâmico, onde vivem milhares de milhões de microrganismos – é a isto que chamamos microbioma cutâneo. Para que a pele se mantenha saudável e com bom aspeto, é essencial que este microbioma esteja em equilíbrio. É aqui que entram os prebióticos, os probióticos e os pós-bióticos.
Talvez já tenha ouvido falar destes termos no contexto da saúde intestinal, mas são igualmente importantes para a saúde cutânea. Pense assim: se os probióticos fossem os pequenos trabalhadores de uma fábrica, os prebióticos seriam o alimento específico que lhes permite crescer e desempenhar a sua função da melhor forma. Já os pós-bióticos são os produtos finais valiosos que esses trabalhadores produzem naturalmente durante o processo de fermentação.
São substâncias ricas em nutrientes, como péptidos e enzimas, que têm benefícios diretos sem a instabilidade de usar bactérias vivas nas fórmulas. Estes ativos funcionam como mensageiros que comunicam com as células para reforçar a função barreira e acalmar a pele reativa. Ao apoiar a produção de fatores de hidratação naturais do próprio organismo, os pós-bióticos garantem que a pele se mantém preenchida e luminosa a partir de dentro. Além disso, oferecem uma vantagem tecnológica crucial uma vez que são estáveis e seguros, mesmo em peles com a barreira cutânea comprometida ou sistemas imunitários mais sensíveis.
A arte da imitação
Outro conceito que está a dominar os rótulos dos lançamentos na área da beleza é a biomimética. Derivado do grego bio (vida) e mimesis (imitação), este ramo da ciência cria ingredientes que copiam os processos biológicos naturais da pele, como a produção de colagénio ou a retenção de humidade.
A lógica é simples, mas poderosa – substâncias que imitam as que já existem no nosso corpo são melhor reconhecidas, mais bem toleradas e mais eficazes. Embora o conceito não seja novo, uma vez que muitos destes ingredientes já são utilizados há muitos anos no cuidado da pele, só mais recentemente é que se afirmou como protagonista de muitas fórmulas cosméticas. Atualmente, o termo biomimético surge associado a uma grande variedade de produtos, desde máscaras faciais a cremes hidratantes, refletindo uma tendência que continua a ganhar terreno.
Segundo um relatório da Fact.MR de 2025, o mercado global de ingredientes biomiméticos deverá crescer de 2,3 mil milhões de dólares em 2024 para 4,8 mil milhões de dólares em 2034, um aumento que acompanha o interesse crescente por ingredientes inspirados nos mecanismos naturais da pele e impulsionados pelos avanços da biotecnologia. Mas o que explica este entusiasmo? A popularidade destes ativos acompanha uma mudança na forma como as pessoas encaram a saúde e o bem-estar. Existe uma preocupação crescente em compreender melhor o funcionamento do organismo e em encontrar maneiras de apoiar os seus processos naturais de reparação e renovação. O desenvolvimento da medicina regenerativa, aliado ao crescente interesse pela longevidade e pelo biohacking, tem contribuído para colocar os ingredientes biomiméticos no centro desta evolução.
A investigação tem-se focado também na formulação destes ingredientes e nos sistemas de libertação que permitem transportá-los mais eficazmente até à pele, dando origem a soluções cada vez mais avançadas e com melhores resultados. Os péptidos biomiméticos, em particular, assumem um papel cada vez mais importante por atuarem como interruptores que ativam mecanismos de regeneração.
Carolina Pereira confirma esta tendência, defendendo que estes “têm vindo a ganhar um grande destaque, já que ajudam a estimular mecanismos naturais envolvidos na regeneração e qualidade da pele“. São ativos que permitem não só hidratar, mas também melhorar a firmeza e a textura global da pele.
Escudo contra o exposoma
Nos dias de hoje, a hidratação é também uma questão de defesa. Ingredientes como a ectoína e o ácido poliglutâmico surgem como aliados fundamentais contra o exposoma. Como explica Carolina Pereira, a ectoína “é uma molécula protetora que ajuda as células a resistirem ao stresse ambiental, como a poluição ou as mudanças de temperatura (o famoso e muito falado exposoma)”. Já o ácido poliglutâmico destaca-se pela elevada capacidade de reter água à superfície, formando um filme hidratante invisível que impede a sua evaporação.
Esta proteção é indissociávelda saúde da barreira cutânea, a nossa primeira linha de defesa. “Quando esta está com prometida, aumenta a perda de água e surgem sinais de alteração da sua integridade, tais como a sensação de repuxamento, desconforto, rubor (ou vermelhidão) e maior sensibilidade”, alerta a farmacêutica. Por isso, as fórmulas de nova geração combinam diferentes pesos moleculares de ácido hialurónico com ativos que selam a hidratação e reparam esta barreira.
Estratégias para uma rotina eficaz
Com tanta inovação, é fácil cair na tentação de complicar a rotina. No entanto, a máxima “menos é mais” continua a aplicar-se. Tendências como o skin flooding (aplicar inúmeras camadas de hidratação) podem ser úteis em casos de desidratação extrema, mas, para a maioria das pessoas, a consistência é mais importante do que a quantidade. “Nem sempre mais produtos significam melhores resultados. (…) Na maioria das pessoas, uma rotina simples, consistente e adaptada ao tipo de pele é perfeitamente suficiente”, defende a especialista.
O segredo está em escolher produtos com evidência científica e fórmulas multimecanismo. Em vez de procurar o ingrediente da moda, o consumidor deve valorizar a sinergia entre ativos e a capacidade de penetração da fórmula. No verão, por exemplo, o erro mais comum é abandonar o hidratante devido à oleosidade. Carolina Pereira esclarece que “uma pele oleosa continua a precisar de hidratação. (…) Quando a nossa pele se encontra desidratada, pode até produzir mais sebo do que o normal, como mecanismo de compensação”. A solução passa por trocar texturas pesadas por géis ou fluidos leves, mantendo o compromisso de cuidar da pele todos os dias.


