Relações e família

Crónica. Perda gestacional: quando o ninho fica vazio

Nenhuma mãe está preparada para uma perda desta dimensão. Catarina Canelas Martins, psicóloga clinica e cronista da Saber Viver, explora os desafios que os pais enfrentam após uma perda gestacional.

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Crónica. Perda gestacional: quando o ninho fica vazio
© Getty Images
Catarina Canelas Martins
Escrito por
Set. 24, 2020

O nosso corpo está preparado para gerar vida e esse desejo dá forma ao projeto de vida de muitos casais. Cimentar as relações familiares, dar continuidade à sua existência, gerar uma vida, cuidar, ver crescer…

Não sendo um sonho e objetivo generalizado, podemos considerar que a maior parte das mulheres sonham ser mães e nunca se espera passar por uma experiência de perda ao longo daquele que é um processo considerado natural e para o qual a mulher estará supostamente inatamente preparada.

O bebé sonhado

Socialmente não gostamos de falar de temas menos felizes, menos “bonitos”, que mexem com emoções difíceis. As mesmas emoções que, individualmente, acabamos por engolir, não lhes dando voz e deixando para segundo plano aquilo que nos magoa.

É essencial olhar mais fundo para esta realidade que toca tantas mulheres e famílias, a perda do filho sonhado.

Planeada ou não, a chegada de um bebé é marcada por um misto de emoções cuja adaptação irá depender da perceção que se tem e do significado que se atribui à gravidez. Momentos de dúvidas, ansiedades, medos, mas também (para muitos) de alegria, amor, entusiamo e curiosidade.

O corpo começa a mudar e a tomar novas formas, os primeiros sinais da gravidez chegam e começa a elaborar o “ser mãe e ser pai”. Apesar de demorar nove meses, este processo começa muitas vezes mesmo antes da conceção.

Ao longo do crescimento da mulher, que assume papéis de cuidadora nas suas brincadeiras desde cedo e, mais tarde, com as fantasias acerca do bebé que deseja conceber, é comum o casal pensar nos nomes, na fisionomia, nas mudanças que a vida irá ter, nos modelos parentais que esperam adotar, nos padrões que querem ou não repetir, naquilo que poderão fazer com este novo elemento da família, na forma como a família alargada e amigos irão apoiar e receber a notícia, entre tantos outros detalhes.

O processo de construção desta realidade desejada e sonhada é complexo e difere de mulher para mulher, de casal para casal, mas sabemos que existem bebés que vivem de algum modo mesmo antes de habitarem o útero.

Não devemos esquecer nunca que a perda gestacional se trata sempre de uma perda e que, como qualquer perda, pressupõe um processo de luto
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A perda e o luto

“Não há batimento cardíaco”, “Esta gravidez não é viável”, “Agora vai esperar por uma espécie de menstruação, mas mais abundante”, “Não se preocupe, tenta para a próxima que ainda é nova”, “Antes agora que mais tarde”, são abordagens comuns à perda gestacional.

Poderia enumerar tantas outras, consoante os vários casos e motivos da perda. É necessário que quem esteja por perto, quer seja técnico ou não, reconheça este acontecimento como uma perda efetiva, aceite as manifestações emocionais e não apresse a sua resolução nem desvalorize o processo de luto que esta perda também implica.

A possibilidade de não correr tudo como é natural e esperado é distante e é tão anti-natura pensar sequer nessa possibilidade.

É como se intrinsecamente esse papel social – o de ser mãe – e essa capacidade estivessem de algum modo garantidos a partir do momento em que somos mulheres. Não há porque duvidar. A sociedade espera isso de nós. Nós esperamos isso de nós mesmas.

O não conseguir, o não correr bem, as tais más notícias, é tudo demasiadamente doloroso pois rouba aos pais e às mães o seu papel, o seu bebé, aquele que começou a ser gerado muito antes de sequer ter habitado o útero.

Os motivos da perda gestacional são vários e esta pode ocorrer em fases diferentes da gestação, com impactos emocionais diversos (aborto espontâneo, gravidez ectópica, malformação congénita, morte fetal).

A forma como a gravidez é concetualizada e o seu significado poderá ser diferente entre mulheres e casais. Todas estas questões irão contribuir para uma elaboração singular da perda que deve ser respeitada.

Não devemos esquecer nunca que a perda gestacional, quer tenha um carater marcadamente mais emocional ou mais físico, se trata sempre de uma perda e que, como qualquer perda, pressupõe um processo de luto que poderá ser mais ou menos adaptativo, mais ou menos intenso, dependendo do significado atribuído à gravidez e dos recursos individuais disponíveis.

As fases do processo de luto

Podemos identificar três fases do processo de luto que são esperadas e pelas quais a mulher e o casal poderão passar com ritmos e intensidades distintas. São elas:

Fase de choque e negação – ocorre imediatamente após a perda e na qual não se acredita no sucedido, podendo-se sentir perdida e com alguma sintomatologia física como perda de apetite, insónia, náuseas, sensação geral de desconforto.

Fase de desespero e expressão da dor – caracteriza-se pela tomada de consciência da realidade da morte e desinteresse pelas diversas atividades da vida. A sintomatologia fisiológica pode intensificar-se bem como os sintomas depressivos.

Fase da reorganização e resolução – constitui uma progressiva recuperação do interesse pela vida e pelas suas várias áreas (trabalho, relações, hobbies, etc). O futuro parece menos pessimista.

A morte de um filho, mesmo quando este ainda era apenas um saco gestacional ou um embrião implantado no útero, é trágica para muitas mulheres. Pode ser um momento de grande culpabilização, sensação de incapacidade, incompetência, gerando um medo que poderá acompanhar as gravidezes subsequentes.

Estas perdas interferem no sentido de si mesmo (Quem sou eu sem o meu filho?), no papel social (Sou mãe?) e na relação de casal.

É fundamental a sensibilização dos profissionais de saúde para esta realidade pois poderá fazer uma grande diferença no decurso de um processo de luto, sendo que o momento da notícia e acompanhamento no processo médico poderá constituir mesmo um trauma.

A relação de casal também passa por transformações, e reconhecer e aceitar as diferenças individuais na expressão da dor e elaboração da perda é essencial
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Papel do pai e relação de casal

Apesar da expressão emocional por parte do homem já ser mais comum e aceite socialmente, continua-se a focar mais na dor da mãe que na dor do pai quando falamos da perda gestacional.

Não podemos nem devemos nunca esquecer que o pai também passa pela perda e pelo luto e sofre, o pai também perde um filho. Pode não expressar com a mesma intensidade e até pode ocultar a sua dor, mas também sofre intensamente.

A relação de casal também passa por transformações com toda esta experiência e reconhecer e aceitar as diferenças individuais na expressão da dor e elaboração da perda é essencial para que possa ser integrada e significada também a dois.

Pedir ajuda

A perda de um filho é extremamente dolorosa e até traumática. A forma como lidamos com ela depende muito das nossas características de personalidade, dos nossos recursos emocionais, da nossa rede de suporte, do significado atribuído e grau de ligação materno-fetal.

Por vezes, por ser uma perda ainda durante a gestação, desvaloriza-se o impacto da mesma levando a que não se elaborem as dores da alma, as culpas, os medos.

Reconhecer que precisamos de suporte nesta fase poderá ser o primeiro passo para nos reconstruirmos e integrarmos esta experiência.

Catarina Canelas Martins, psicóloga Clínica e terapeuta Emdr, tem desenvolvido o seu trabalho nos últimos anos com famílias e adultos na Clínica de Psicologia e Coaching Learn2Be. Apaixona-a tudo o que envolva o bem-estar emocional e psicológico pois acredita que sem essa estabilidade e equilíbrio não é possível vivermos no nosso máximo potencial. Siga-a nas redes sociais Facebook e Instagram.

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