Relações e família

"O pai está triste". Como explicar a morte ao seu filho?

Contar a uma criança que alguém próximo morreu é sempre um momento sensível. Será que devemos dizer a verdade ou utilizar eufemismos como “foi fazer uma grande viagem”? A psicóloga clínica Diana Costa Gomes responde.

Untitled-7 Untitled-7 Untitled-7
© Getty Images
Escrito por
Diana Costa Gomes, psicóloga
Nov. 05, 2019

Um dos motivos pelos quais me procuram: explicar a morte às crianças. A forma como as crianças compreendem a morte depende, obviamente, da idade.

Dos 2 aos 5 anos

Em idade pré-escolar (2 aos 5 anos), a criança está numa fase egocêntrica e muito literal na forma como interpreta o mundo. Logo, deverão evitar-se eufemismos e explicações vagas e baseá-las em factos.

Mais: a criança nesta idade percebe a morte como um estado temporário. A pessoa morta ainda come, respira e assim que acordar, retornará à vida (basta ver nas brincadeiras a quantidade de vezes que a mesma pessoa morre e “desmorre”…).

É importante explicar-se à criança que aquela pessoa, ou animal que morreu não pode andar, respirar, comer… A morte não é uma forma de dormir e quem morre não volta a acordar. Deverá ser dito à criança que as pessoas e/ou animais morrem quando estão muito, muito, muito, velhinhos. E enfatizar o muito, porque, aos olhos das crianças em idade pré-escolar, os pais e os professores são, muitas vezes, velhos. Há muitas formas de doença e de estar doente, mas as pessoas só morrem quando estão muito, muito doentes.

Dos 6 aos 9 anos

Já na idade escolar (6 aos 9 sensivelmente), as crianças distinguem perfeitamente fantasia e realidade. Outro fator importante é que aqui já sentem culpa. Contrariamente à fase anterior, já não vêem a morte como temporária.

Não há mal nenhum no facto de a criança ver o pai ou a mãe chorar. As crianças precisam de aprender como expressam a dor. Quando a mãe ou o pai chora, isto mostra-lhe que é permitido chorar.
Diana Costa Gomes Diana Costa Gomes

O facto de a compreenderem não quer dizer, contudo, que consigam lidar com ela. Um dos pensamentos comuns é: “se aquele morreu, então aquele também pode morrer”, e é daqui que advém o medo de perder os pais. Outro: “se aconteceu ao outro, também me pode acontecer a mim”, e a criança pode vir a desenvolver alguns medos.

Mais: a morte traz mudança e a criança nesta idade receia um trato diferente por parte dos pares, amigos, professores, familiares. Deverão evitar-se eufemismos e não devemos ter medo de dizer “morte” ou “morreu”. “Foi levado” ou “foi fazer uma grande viagem” são eufemismos que poderão alimentar os receios de abandono das crianças e poderão desenvolver ansiedade e confusão. Nunca dizer: “fechou os olhos” ou “foi dormir”. Isto poderá desenvolver nas crianças medo de ir para a cama à noite.

Não há mal nenhum no facto de a criança ver o pai ou a mãe chorar. As crianças precisam de aprender como se expressa a dor. Quando a mãe ou o pai chora, isto mostra-lhe que é permitido chorar.

Dos 10 aos 12 anos

Os pré-adolescentes (10 aos 12 anos) reagirão de forma muito diferente face ao grupo anterior. Já estão aptos a compreender o impacto que a morte tem neles próprios e na família. Poderão ter questões relacionados com crenças culturais e religiosas e poderão querer saber mais sobre o céu, o inferno e a vida após a morte.

A reação poderá variar entre raiva, depressão e, sobretudo, poderá mudar abruptamente e oscilar com frequência.
Diana Costa Gomes Diana Costa Gomes

Por outro lado, têm já uma visão de futuro e serão naturais questões de como aquela perda irá refletir-se na sua vida futuramente. Ainda assim, não são incomuns nesta fase comportamentos de negação: “não sinto nada” ou “não quero saber”, aos quais será necessário prestar atenção.

A melhor postura será mostrarmo-nos abertos e disponíveis para que possa expressar a sua dor. Quer isto dizer, passar algum tempo a sós com o pré-adolescente ou, por outo lado, deixar que esteja a sós como a sua dor (ver fotografias, ouvir música, etc.). Não obstante, não devemos mostrar tolerância excessiva ou ignorar comportamentos agressivos e acting out. Será, se os houver, altura para procurar ajuda profissional.

Os adolescentes possuem uma abordagem compreensiva idêntica à do adulto. Não possuem, todavia, mecanismos para a elaborar, dado o turbilhão emocional desta fase do desenvolvimento. Devido à convicção da sua imortalidade e omnipotência característica desta fase do desenvolvimento, é-lhes difícil aceitar a morte. A confrontação com a morte pode intensificar a pressão que já sentem à medida que enfrentam o futuro e suas incertezas.

A reação poderá variar entre raiva, depressão e, sobretudo, poderá mudar abruptamente e oscilar com frequência. Aqui será importante prestar atenção a sinais de depressão e mudanças de comportamento. Nesta fase, é particularmente importante a interação com os pares para que o adolescente não se sinta “diferente” por causa da morte e se consolide o sentimento de pertença.

Partilhar emoções com as crianças e adolescentes é mais saudável do que escondê-las. Aprenderão que chorar e mostrar dor são formas naturais de expressar dor e não há mal nenhum em fazê-lo.

-“E se me perguntar “porquê”?
Direi que não há mal nenhum em responder:
-“Sabes, eu também me pergunto o mesmo!… “

Lembre-se que existe ajuda especializada para a ajudar a lidar com este acontecimento disruptivo e que afeta, não apenas a criança ou adolescente mas toda a dinâmica familiar.

Diana Costa Gomes é mestre em Psicologia da Saúde e formada em Psicoterapia Cognitivo-comportamental. É, entre outras áreas, especializada em psicologia infantil e mãe de gémeos. Pode acompanhar as suas dicas e desabafos no blogue De Barriga Cheia, no Facebook e no Instagram.

Últimos