Relações e família

Crónica. Gravidez e o caminho para a maternidade

A gravidez é, por si só, um momento de muitas emoções e mudanças. É um caminho em que a mulher se torna mãe e abraça mais um papel na sua vida. O cenário pandémico em que vivemos atualmente coloca ainda mais desafios. Em que pode um psicólogo ser útil?

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Crónica. Gravidez e o caminho para a maternidade
© Shutterstock
Catarina Canelas Martins
Escrito por
Jun. 16, 2020

Como cuidar de si? E do bebé? E da relação? E do trabalho? Como olhar para todos estes desafios com coragem e positividade? As grávidas são inundadas de emoções fortes, dúvidas, ansiedades, opiniões de outros, tomadas de decisão, transformando-se este “este estado de graça” num período não tão gracioso.

Os nove meses de gravidez não são nove por acaso, sendo que todos eles são essenciais nesse processo que antecede a chegada do novo elemento da família e de pós-parto.

Neste caminho, o casal é um núcleo fundamental e ambos terão a oportunidade para ensaiar papéis e tarefas, ligar-se ao bebé, reestruturar relações no sentido de incluir o novo elemento, além de entrar em contacto com mazelas emocionais do passado e elaborá-las aumentando o conhecimento sobre si e dando suporte a esta nova identidade em construção.

Mudanças emocionais e psicológicas

As mudanças que ocorrem na gravidez têm um fundamento hormonal, aumentando a irritabilidade, sensibilidade, desânimo, mudança na rotina de sono e apetite.

Estas são alterações esperadas e passageiras e variam entre mulheres. Nesta fase, é fundamental que o casal olhe para este momento como transitório e aproveite para estreitar laços e o seu companheirismo, que será tão fundamental na chegada do bebé.

É enorme a quantidade de processos individuais, de casal, sistémicos, físicos, que acontecem com a chegada de um bebé.

A consulta de psicologia poderá ser o espaço ideal para individualmente ou em casal, elaborar as várias fases, emoções e desafios que se apresentam
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Podemos distinguir quatro fases, distribuídas pelos três trimestres de gestação e um “quarto trimestre” após o nascimento.

Primeiro trimestre

A mulher terá de aceitar esta gravidez e integrá-la, olhando-a como real. Este momento traz consigo algumas emoções de medo e insegurança, sentimentos ambivalentes, associados a pensamentos sobre o bebé, viabilidade da gravidez, a alteração de papéis pela qual a mulher está a passar.

É natural que nesta fase exista um maior recolhimento pois estão a ser elaboradas questões muito individuais, muito simbólicas e do universo do imaginário.

Segundo trimestre

Acontece uma diferenciação entre a mãe e o bebé. A gravidez começa a ganhar maior realidade pelo tamanho da barriga e os movimentos do bebé.

A representação de que o bebé é um elemento separado da própria mulher é fundamental para a ligação entre mãe e bebé, para a preparação para o nascimento e para a separação no parto.

Nesta fase, a mulher tende a regressar ao seu contacto com a infância e a reelaborar a relação com os seus pais, sobretudo com a sua mãe, procurando modelos maternos para ela própria se preparar. É importante que a grávida aceite não só aquilo que correu bem com os seus pais, mas também as suas falhas e fracassos.

Aqui, a gravidez alcança um estatuto social diferente pelas evidências físicas, os sintomas físicos também tendem a melhorar, pelo que é descrito pela maior parte das mulheres como a melhor fase da gravidez.

Terceiro trimestre

Poderão novamente ocorrer maiores oscilações emocionais, com estados de maior ansiedade e depressão, medo do parto e da separação do bebé.

É uma fase onde é necessária flexibilidade por parte do casal no sentido de se ajustarem aos seus novos papéis e na qual o casal poderá sentir alterações ao nível afetivo, sexual e das suas rotinas.

Existem alguns riscos nesta fase bem como uma série de oportunidades. É importante que o casal passe por esta crise (espectável nesta fase do ciclo vital da família), encontrando um novo equilíbrio na sua conjugalidade que agora também contemplará a parentalidade.

“Quarto trimestre”

Ocorre no pós-parto e é quando a mulher passa por uma fase desgastante devido às alterações de sono, foco nas necessidades do bebé, reestruturação ao nível dos relacionamentos e ao nível profissional.

A mulher terá de integrar a nova identidade parental, confrontando-se com um balanço entre ganhos e perdas que a maternidade lhe trouxe, aceitar mudanças que advêm deste período, reconstruir objetivos pessoais.

Nesta fase, o autocuidado poderá ser um pouco descurado, bem como o equilíbrio na relação de casal. É fundamental que a mulher consiga preparar este momento munindo-se de informação, de uma rede de suporte (técnico, logístico e afetivo), seja capaz de reconhecer as suas necessidades físicas e emocionais, verbalizá-las e atendê-las.

Caso contrário, poderá ser uma fase extremamente tensa, levando a dificuldades na vinculação mãe-bebé, desencontros mais permanentes e desafiantes ao nível do casal e até a alguns estados mais patológicos como depressão pós-parto.

Gravidez em tempos de pandemia

A Covid-19 trouxe um desafio acrescido para as grávidas e para os casais. Além de todas as questões emocionais e logísticas já envolvidas e toda a imprevisibilidade característica deste período, a pandemia trouxe ainda mais incertezas.

A gravidez, como referimos, representa uma fase de inúmeras adaptações por parte da mulher e do casal. O contacto com a falta de controlo aumenta, ainda mais, a ansiedade e medo que habitualmente já se verificam.

Diria que um dos fatores mais importantes é a elaboração das emoções mais desorganizadoras que possam surgir, informação acerca dos procedimentos de cada hospital relativamente à pandemia (para que a escolha do mesmo possa ser consciente) e confiar nos profissionais de saúde que a possam acompanhar.

A elaboração de um plano de parto poderá ser também fundamental para que a mulher consiga conhecer e antecipar procedimentos com os quais estará ou não confortável tendo em conta as circunstâncias atuais, preparando-se psicologicamente para o que vai acontecer e aumentando alguma sensação de previsibilidade face a todo o processo de parto.

Quando recorrer ao psicólogo?

A consulta de psicologia poderá ser o espaço ideal para individualmente ou em casal, antes, durante e após a gravidez, elaborar as várias fases, emoções e desafios que se apresentam.

Numa fase prévia, de pré-conceção, pensar nos padrões e emoções a elaborar no sentido de partir para uma gravidez com uma “bagagem” mais organizada.

Durante a gravidez, para dar suporte na elaboração de todos os medos/inseguranças, vinculação ao bebé e questões identitárias e relacionais que surgem. E após a gravidez, por exemplo, na adaptação à parentalidade.

Catarina Canelas Martins, psicóloga Clínica e terapeuta Emdr, tem desenvolvido o seu trabalho nos últimos anos com famílias e adultos na Clínica de Psicologia e Coaching Learn2Be. Apaixona-a tudo o que envolva o bem-estar emocional e psicológico pois acredita que sem essa estabilidade e equilíbrio não é possível vivermos no nosso máximo potencial. Siga-a nas redes sociais Facebook e Instagram.

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