Relações e família

Crónica. Fome emocional: diz-me como comes, dir-te-ei como te sentes

A forma como nos alimentamos espelha a forma como nos relacionamos connosco mesmas e com o mundo à nossa volta. Já encontrou conforto naquele prato de comida, pedaço de chocolate ou copo de vinho? Então, saiba tudo sobre a fome emocional.

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Crónica. Fome emocional: diz-me como comes, dir-te-ei como te sentes
© Rawpixel
Catarina Canelas Martins
Escrito por
Out. 26, 2020

Quantas já nos reconfortamos depois de um dia mais stressante naquela comida que raramente nos permitimos comer? A verdade é que o descontrolo emocional leva ao descontrolo alimentar.

A forma como lidamos com as nossas emoções influencia muito o nosso comportamento no geral. As necessidades emocionais que não estão a ser compreendidas irão expressar-se das formas mais variadas, dependendo de como interpretamos o que está a acontecer e de como escolhemos reagir.

A fome emocional é diferente da fome física. Expressa necessidades diferentes e, tal como o nome indica, a fome emocional está relacionada à falta de nutrição emocional.

Por norma, apetites incontroláveis ou desejos repentinos expressam a necessidade de satisfazer o corpo.

Por vezes, essa satisfação não está exclusivamente relacionada com a fome. Expressa a necessidade de sintonizar, preencher vazios e a comida não é, nem deve ser o único meio de consegui-lo, até porque se for, não estaremos a olhar para as reais necessidades por trás dos impulsos.

Como lidar com a fome emocional?

Um dos grandes erros que cometemos relativamente à alimentação é a guerra em que podemos entrar facilmente, até por uma questão cultural/educacional.

“Não devia comer isto”, “Já comi demasiado”, “Mereço comer isto”,  “Estou com uns quilos a mais”…Um loop sem fim que não traz consciência nem resolve a questão. Pelo contrário, a tendência é aumentar a frustração, a tristeza, a sensação de descontrolo e aumentar os episódios de fome emocional.

É necessário compreender melhor o que está a acontecer de forma sistémica e estar mais atenta:

  • Ao corpo e aos sinais e sensações que este lhe dá;
  • Ao que sente, às suas emoções, numa atitude de observadora, sem julgar ou se envolver demasiado;
  • Tomar consciência das escolhas que faz e compreender porque as toma.
O impulso para comer tem de ser primeiro compreendido e não aniquilado
Catarina Canelas Martins Catarina Canelas Martins

Diria que o grande “segredo” para uma grande parte das questões que nos absorvem e controlam os nossos pensamentos é parar de lutar, observar e decidir.

Estar disponível para uma conversa interna que deve fazer parte da nossa rotina e tornar visível a forma como realmente nos sentimos, dando espaço para que, sem julgamento, compreendamos melhor o que está a acontecer connosco e consigamos tomar decisões mais conscientes e mais alinhadas com aquilo que realmente desejamos.

Por vezes, pode parecer assustador olhar para essas sombras, esses nossos lados para os quais evitamos olhar. Contudo, parece-me que este confronto, pacífico, sem julgamentos ou críticas, é a única forma de fazermos as pazes connosco e encontrarmos respostas sustentáveis para as questões que nos desafiam, como a nossa relação com a comida que começa por ser tão básica (temos fome, comemos) e evolui para uma complexidade que pode ser bastante desafiante, conjugando crenças, valores, educação, relação com o corpo, emoções, etc.

Que estratégias posso utilizar?

O impulso para comer tem de ser primeiro compreendido e não aniquilado. Estamos a falar de nós e não de um campo de batalha.

O objetivo não é alimentar a guerra interna mas sim aumentar a consciência que a irá permitir questionar-se e tomar decisões diferentes.

  • Quando sentir o impulso é importante que não reaja automaticamente, dê-se tempo.

Pode parar, respirar lentamente e aperceber-se das sensações do seu corpo. Aumentar esta conexão entre a mente e o corpo irá trazer-lhe mais consciência e ajudá-la a perceber se realmente tem fome ou não – esta é a tal conversa interna que tem de ser treinada até ser integrada.

  • Com mais consciência, tome agora a decisão. Comer ou não e, caso decida comer, o que comer.

Neste estado de maior consciência pode optar por fazer algo que adie o impulso interpretado inicialmente como fome. Por exemplo, beber um copo de água, ler um artigo, entre outros comportamentos que a ajudem a “surfar” o impulso e a consigam ajudar a perceber se realmente era de fome que se tratava.

O objetivo não é continuar a alimentar esse ciclo de posso/não posso, devo/não devo, mas sim ser mais compreensiva e tolerante consigo mesma
Catarina Canelas Martins Catarina Canelas Martins

Promover a atenção plena

A atenção plena no ato de comer, quer seja nos pensamentos sobre a comida ou no comportamento em si, é fundamental para quebrar um ciclo vicioso de uma alimentação emocional.

O objetivo será sempre a promoção de uma alimentação saudável e consciente e não cheia de regras e limitações. Siga as minha sugestões para combater a fome emocional.

5 sugestões para promover a atenção durante a refeição

  • Escolher um ambiente tranquilo, sem distrações, para fazer as refeições;
  • Sentir a sua fome para que coma apenas quando realmente tiver forme;
  • Apreciar cada garfada com tempo e disponibilidade. Desfrutar da refeição, mastigando, percebendo os sabores, as texturas, os sons;
  • Comer com um ritmo mais lento, no sentido de promover uma melhor digestão.
  • Manter um compromisso consigo mesma e com a sua saúde.

A sensação de frustração neste processo de lidar com os impulsos e tomar consciência é comum. São crenças e comportamentos muito enraizados, e as emoções são complexas e por vezes difíceis de gerir e entender.

Contudo, é essencial que consiga compreender a mensagem principal que quero transmitir: o seu corpo e a sua mente não encontrarão equilíbrio se estiverem em guerra.

O objetivo não é continuar a alimentar esse ciclo de posso/não posso, devo/não devo, mas sim ser mais compreensiva e tolerante consigo mesma, procurando tomar decisões mais conscientes e alinhadas com o seu objetivo e a sua saúde.

Se está no caminho da procura pelo equilíbrio, já está a fazer o melhor que consegue no momento. Embora esse caminho tenha curvas e contracurvas, e até algumas quedas, o equilíbrio só é possível através da pacificação.

Reprimir o que sente, ser crítica, querer soluções rápidas ou ser impaciente não lhe trará essa paz. Consequentemente continuará em guerra, a qual irá promover comportamentos desequilibrados nomeadamente ao nível da alimentação.

A Psicologia, neste contexto, pode ser um suporte essencial, tendo em conta que compreender e alterar as dinâmicas internas, as emoções envolvidas, as crenças, os hábitos, pode ser confuso, complexo e até bastante doloroso. Por isso, fazê-lo acompanhada e com alguém que tem experiência neste contexto é essencial.

Catarina Canelas Martins, psicóloga Clínica e terapeuta Emdr, tem desenvolvido o seu trabalho nos últimos anos com famílias e adultos na Clínica de Psicologia e Coaching Learn2Be. Apaixona-a tudo o que envolva o bem-estar emocional e psicológico pois acredita que sem essa estabilidade e equilíbrio não é possível vivermos no nosso máximo potencial. Siga-a nas redes sociais Facebook e Instagram.

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