Relações e família

Crónica. É possível amar sem desejar?

Este tema é comum entre casais e chega à consulta quer em casal quer individualmente. O desânimo e frustração são frequentes e a questão que se impõe surge: estaremos condenados a deixar de desejar os nossos companheiros?

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Crónica. É possível amar sem desejar?
© Unsplash
Catarina Canelas Martins
Escrito por
Jul. 23, 2020

Parece existir uma tendência para que o desejo do casal diminua ao longo da relação, contudo, isso não significa que exista necessariamente um problema. Estranho? Como assim? Não é suposto sentirmos sempre desejo pela pessoa que escolhemos partilhar a vida e que efetivamente amamos? A resposta é que não, nem sempre.

A relação é quase como um ser vivo que se ajusta e equilibra a par dos seus elementos e é influenciada por todas as dinâmicas parentais e sociais.

A multiplicação de papéis, os desafios da vida ou simplesmente a rotina, é um desafio para o desejo e, por vezes, a problemática começa a surgir quando um dos elementos manifesta uma diminuição do seu desejo sexual e o outro não.

Este desencontro traz desafios ao casal, que sem recursos para compreender e olhar para a sua relação se pode deixar inundar de preconceitos, medos, inseguranças e aumentar o fosso na sua intimidade e desejo sexual.

Ao longo do tempo, acabamos por ir sentido mais segurança e previsibilidade e menos entusiasmo, novidade, excitação
Catarina Canelas Martins Catarina Canelas Martins

Segurança vs desejo

A segurança cresce na relação com o tempo, intimidade, cumplicidade, compromisso e, curiosamente, o desejo é quase inversamente proporcional a essa tranquilidade que vamos adquirindo e que é tão preciosa na construção de um projeto a dois e ao amor.

Desejamos aquilo que não temos, aquilo que não conhecemos, aquilo que nos desperta curiosidade, aquilo que é imprevisível.

Qualquer uma de nós já terá sentido que quer muito comprar algo e quando adquire esse objeto, o entusiasmo desaparece em pouco tempo.

Connosco, nas relações, acontece algo semelhante, e, ao longo do tempo, acabamos por ir sentido mais segurança e previsibilidade, que nos permite confiar, crescer, construir, e menos entusiasmo, novidade, excitação.

A diminuição do desejo não deve ser vista como uma sentença de morte numa relação satisfatória em tantas outras áreas
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O “mito da naturalidade”

Um dos preconceitos que bloqueia os casais emocionalmente nas suas relações é o “mito da naturalidade”. “Se gostamos um do outro temos de sentir desejo e este deve ser natural”.

É tão natural amar e desejar, como amar e perder o desejo. São faces da mesma moeda que é a relação, e esta, como já disse anteriormente, é dinâmica.

A diminuição do desejo não deve ser vista como uma sentença de morte numa relação satisfatória em tantas outras áreas, mas sim como uma oportunidade para aprofundar o conhecimento, a intimidade e explorar a dois a novidade, o entusiasmo, a curiosidade que nem sempre acontecem num impulso natural.

Estes dois impulsos, para a segurança e para a novidade, trazem um desafio ambicioso: ter espaço e alimentar ambos na mesma relação.

Esther Perel tem uma frase que acredito traduzir o derradeiro desafio “os ingredientes do amor são aqueles que destroem o desejo”. Aquilo que ambicionamos no amor, poderão ser bem-vindas no desejo. Uff…que desafio!

Sugestões para potenciar o desejo

É importante que os casais estejam conscientes do que os faz sentir ou não desejo;

Que compreendam que a sexualidade não se esgota no coito mas se vive ao longo do dia, com pequenos gestos, mensagens, preliminares;

Num primeiro momento, o desejo e a sexualidade acontece na individualidade de cada elemento do casal e o autoconhecimento nesse sentido é fundamental;

Investir na novidade. E esta não se esgota em fazer algo novo, mas também permitirem-se manifestar algo que não se têm permitido manifestar na relação, como por exemplo uma característica ou um desejo (esta questão de não nos permitirmos viver as várias partes de nós na relação leva muitas vezes a comportamentos de infidelidade)

Compreender que o desejo não é apenas algo espontâneo, mas pode surgir em resposta a um estímulo – procure os estímulos!

Deem espaço para a individualidade, pois esta ajuda a alimentar a curiosidade pelo outro;

Aceitar que o sexo pode ser premeditado ou programado numa relação de compromisso – e está tudo bem!

Catarina Canelas Martins, psicóloga Clínica e terapeuta Emdr, tem desenvolvido o seu trabalho nos últimos anos com famílias e adultos na Clínica de Psicologia e Coaching Learn2Be. Apaixona-a tudo o que envolva o bem-estar emocional e psicológico pois acredita que sem essa estabilidade e equilíbrio não é possível vivermos no nosso máximo potencial. Siga-a nas redes sociais Facebook e Instagram.

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