Bem-estar

Chega o verão, chegam as inseguranças? Este é o relato de 3 mulheres

O verão chega e o corpo despe-se. Mas mantém, não raras vezes, vestidas as inseguranças. Não é a só a leitora que o sente. Todas passamos por isso. Deixamos-lhe alguns testemunhos para que não se sinta sozinha quando vestir o biquíni.

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Chega o verão, chegam as inseguranças? Este é o relato de 3 mulheres Chega o verão, chegam as inseguranças? Este é o relato de 3 mulheres
© João Bonneville Chaves/Tomás Monteiro/João Paulo Oliveira
Inês Aparício
Escrito por
Ago. 17, 2026

Não existem experiências únicas. Há sempre alguém que já passou pelo mesmo que nós. Esta premissa é ainda mais verdade quando falamos sobre o corpo feminino, tantas vezes alvo de olhares críticos e comentários capazes de destruir a autoconfiança da própria Beyoncé.

Exige-se que sejamos magras, mas não demasiado; tonificadas, mas sem parecermos capazes de abrir um frasco sozinhas; ou com a barriga lisa, mesmo depois de termos acabado de dar à luz uma nova vida. É uma pressão que nos acompanha em praticamente todas as fases e que aprendemos a normalizar, não só pela visão dos outros, como de nós próprias.

“As mulheres tendem a ser socializadas, desde cedo, para olhar para si próprias através do olhar dos outros. Isto favorece aquilo que a psicologia designa por auto-objetificação: a tendência para avaliar constantemente o próprio corpo como um objeto a ser observado e julgado. Essa vigilância permanente tem custos emocionais importantes, nomeadamente ao nível da autoestima, da ansiedade e da relação com o próprio corpo”, nota Andreia Filipe Vieira, psicóloga clínica.

Afeta-nos a todas de forma mais ou menos profunda. Se umas aprendem a lidar com a pressão social para atingirem determinado tipo de corpo e conseguem bloquear as vozes na sua mente que teimam em comparar-se com as imagens que veem nas redes sociais, outras duvidam de si e não são capazes de estender a toalha na praia com receio do que possam pensar. Mas ninguém está sozinha. Revemo-nos nas histórias umas das outras e percebemos que há um caminho a trilhar para nos apaixonarmos pelas nossas singularidades. Cada uma com a sua experiência, contexto e história. Deixamos-lhe as palavras honestas de três mulheres empoderadas que, como todas nós, vivem de altos e baixos com o seu corpo.

Carmo Sousa Lara

©João Bonneville Chaves

Já foi alvo de críticas por causa do seu corpo?

Acho que quase todas as mulheres, em algum momento da vida, já ouviram vários comentários sobre o seu corpo. Uns disfarçados de elogio, outros de preocupação, opinião ou “brincadeira”, que se torna muito pesada cá dentro. Durante muito tempo, deixei que essas vozes ocupassem espaço dentro de mim ao ponto de chegar a lugares muito escuros. Hoje, percebo que a forma como alguém olha para o meu corpo diz mais sobre essa pessoa do que de mim.

Como aprendeu a gostar de ver a sua imagem refletida?

A verdade é que não aprendi a gostar de tudo todos os dias. Aprendi a não precisar de gostar de tudo para me sentir suficiente e amada.

Ainda há dias em que pensa mudar certa parte do corpo por algum motivo?

Sim. Há dias em que olho para mim com mais criticismo do que gostaria. A diferença é que já não construo a minha identidade à volta desses pensamentos, das “falhas” ou daquilo que hipoteticamente poderia estar melhor.

Hoje, percebo que a forma como alguém olha para o meu corpo diz mais sobre essa pessoa do que de mim.

Alguma vez ponderou seguir alguma dieta mais restritiva ou recorrer a medicação?

Vivi, desde muito nova, em vários ciclos de dietas restritivas. Conheço-as, infelizmente, bem e fizeram-me muito mal, apesar do “sucesso” aparente que tive na perda de peso. Ninguém fala do reganho ou dos distúrbios alimentares que daí advêm, do mal que muitas dessas dietas fazem à saúde. Foram muitas dietas restritivas que contribuíram, juntamente com a minha componente genética, para uma doença crónica, muito séria e que não tem cura: a obesidade. Nesse âmbito, os fármacos como Trizepartida ou a Semaglutide são uma luz no fundo do túnel. Necessários, porque não havendo cura para esta doença, através deles há finalmente tratamento. Faço-os há mais de um ano e meio, em multidisciplina médica. Não tenho vergonha alguma de o dizer, assim como digo que faço medicação todos os dias para a tiroide ou qualquer outra doença crónica que tenha.

Acredita que algum dia deixaremos de sentir que temos de seguir um determinado padrão de corpo?

Acredito que os padrões vão continuar a existir porque a sociedade gosta de criar modelos de referência e isso gera muito dinheiro. O que espero é que deixem de ter o poder que tiveram durante tanto tempo. E acredito que estamos a caminhar nessa direção cada vez que uma mulher escolhe tratar-se com mais amor do que julgamento. Se houver uma mensagem que gostava de deixar é esta: o corpo não é o requisito para começarmos a viver. Não precisamos de esperar pelo peso certo, pela forma certa ou pela versão perfeita de nós. A vida está a acontecer aqui e agora. E merecemos habitá-la exatamente como somos, enquanto continuamos a crescer, a cuidar de nós e a florescer.

Soraia Tavares

©Tomás Monteiro

Receber comentários sobre o corpo é uma experiência comum enquanto mulher. Estas palavras costumam ter peso na sua autoconfiança?

Na verdade, não me aconteceu muitas vezes ou, talvez, não me tenha marcado o suficiente, a não ser sobre o meu tom de pele. Podem ter comentado algo, mas sem intenção. Como o meu percurso escolar foi pelo teatro e a ideia sempre foi dar o nosso corpo para servir a personagem, talvez na minha profissão nunca tivesse sentido isso da mesma forma.

Como era a relação com o seu corpo?

Quando fiz o Chicago, foi a primeira vez que olhei para ele de outra forma, porque a personagem tinha uma dimensão muito sensual. Percebi, aí, que nunca me tinha permitido explorar essa parte de mim, o que foi desafiante e, por vezes, até frustrante, mas acabou por ser muito importante, porque me obrigou a olhar para mim não apenas como atriz, mas como mulher. Tive muitas aulas de dança e lembro-me de chorar frequentemente no início. Na altura, não percebia porquê. Mais tarde, compreendi que estava relacionado com os bloqueios que carregava em relação ao meu próprio corpo. Não é que não me visse como uma pessoa sensual, simplesmente não me permitia a expressar essa dimensão de forma tão livre.

Como foi trabalhando isso?

Tive muitas aulas. Foi como uma terapia corporal. A relação com o meu corpo tornou-se totalmente diferente depois disso.

Como vê o seu corpo agora?

Olhando para trás, percebo que a maior pressão que coloquei sobre mim surgiu com as redes sociais e a constante comparação com os outros.

Que impacto têm?

Questiono-me se sou suficientemente magra, se treino o suficiente, se estou a fazer o bastante. Acho que acontece a muitas pessoas. As redes sociais criam um ambiente de comparação constante e é muito difícil ficar completamente imune a isso. Quando comecei a trabalhar ativamente na criação de conteúdos, essa consciência tornou-se presente. Por mais confortável que esteja comigo mesma, não seria honesto dizer que nunca me comparo ou que nunca penso em coisas que gostaria de mudar.

A maior pressão que coloquei sobre mim surgiu com as redes sociais e a constante comparação com os outros

O seu contexto cultural teve influência na forma como olha para o corpo?

Sendo cabo-verdiana, cresci com referências diferentes daquelas que muitas vezes vemos nos padrões de beleza ocidentais. Existe uma valorização maior das curvas e de uma imagem feminina mais voluptuosa. Nesse sentido, acredito que a pressão sobre o corpo foi um pouco mais leve durante o meu crescimento. Nunca senti que o tema ocupasse um espaço central nas conversas à minha volta, embora não signifique que não existissem padrões ou expectativas.

Rosália da Costa Alves

©João Paulo Oliveira

Como via o seu corpo quando era mais nova e como foi evoluindo com o tempo?

Como adolescente, nunca tive complexos com o meu corpo. Curiosamente, foi por volta dos 23 anos que comecei a sentir-me muito mais insegura. Na altura, tinha um corpo bastante diferente do que tenho hoje, com uma maior percentagem de gordura e, apesar de parecer magra, não estava saudável. Talvez tenha sido nesse momento que começou a minha jornada para uma vida mais ativa. E com essa evolução, a minha confiança também cresceu.

Como é a sua relação com o espelho?

Diria ser sempre conflituosa, ainda que em níveis muito controlados. Sinto que nunca estou satisfeita com a minha evolução. Sempre me frustrou muito não ver progressão nas pernas. No ano passado, fui diagnosticada com lipedema, uma doença crónica que dificulta bastante a perda de gordura nessa região. Ter o diagnóstico ajudou-me a fazer as pazes com o meu corpo.

Sente uma maior pressão para alcançar determinado tipo de corpo quando o verão se aproxima?

Não, nunca trabalhei para o “corpo de verão”. Treino o ano inteiro: acordo às seis da manhã, mesmo no inverno. Para mim, treinar e comer bem é um investimento para me sentir com mais saúde, mais energia e mais foco. E claro, isso também se reflete na minha confiança.

As redes sociais têm algum impacto na forma como vê o seu corpo?

Seria impossível negar. As redes sociais fazem com que estejamos sempre a ver outros corpos. O desafio é perceber que muitas vezes aquele corpo “seco” e definido que vemos no ecrã não é necessariamente um corpo saudável, principalmente no caso das mulheres. É também importante entender que estamos a ver corpos sem conhecer a história completa: não sabemos a rotina daquela pessoa, os seus níveis de energia, os desafios que enfrenta. Por isso, faço diariamente o exercício de me comparar apenas comigo mesma. A minha meta é melhorar a minha composição corporal e os meus níveis de energia, não ter o corpo que vi em alguém no Instagram.

Acredita que algum dia deixaremos de sentir que temos de seguir um determinado padrão de corpo?

Acho que sempre existirá uma noção social daquilo que é considerado “um corpo bonito” e isso vai mudando com o tempo. Felizmente, creio que há cada vez mais informação sobre saúde e espero que as pessoas substituam esse “padrão” por um conceito que vá muito além da estética e que esteja verdadeiramente centrado na saúde e na energia.

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº 313,  julho de 2026.

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