Sexo

Ser ninfomaníaca pode ser um sofrimento. Fomos perceber este transtorno

É uma patologia ainda não muito falada, mas que merece atenção. Qual é a linha que separa uma ninfomaníaca de uma pessoa com um desejo sexual excessivo? Dizemos-lhe as principais diferenças.

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Ser ninfomaníaca pode ser um sofrimento. Fomos perceber este transtorno
© Unsplash
Marta Chaves
Escrito por
Jun. 01, 2020

Num panorama geral, o desejo sexual entre géneros é ainda muito díspar e encarado de forma, também ela, muito distinta. Se falarmos de um desejo sexual excessivo, nos homens é automaticamente olhado de lado, como se de um problema se tratasse e visto muitas vezes com repulsa. Nas mulheres, esse mesmo desejo é quase fantasiado, sensual, e não é visto como um transtorno que merece atenção.

A ninfomania é um problema e, embora não seja falado com regularidade, pode tornar-se uma verdadeira angústia – e até perigoso – para quem sofre desta condição.

Fala-se muito sobre como aumentar o desejo sexual, como despertar a chama numa relação ou como pode uma mulher ou homem tornarem-se mais ativos sexualmente. E quando é ao contrário?

A Saber Viver falou com a sexóloga Vera Ribeiro para perceber mais sobre esta patologia que, tal como muitas outras, deve ter acompanhamento médico.

O que significa ser ninfomaníaca?

Começámos por perguntar à especialista qual a base da ninfomania. É simples: “Caracteriza-se pelo impulso sexual excessivo. Na grande maioria dos casos, os primeiros comportamentos têm início na adolescência e vai-se demonstrando de uma forma sistemática e progressiva no decorrer dos anos, podendo manifestar-se em episódios ou durante fases de vida distintos.”

O apetite sexual excessivo também é denominado por hipersexualidade e não escolhe géneros, nem idades. Ainda que se saiba que começa por volta da adolescência, a sexóloga garante que “não é possível determinar uma idade”, mas obviamente há sinais de alerta a que deve estar atenta para que este transtorno não ganhe outros contornos.

Em todo o caso, ter um desejo sexual ativo e querer ter relações sexuais (ou algum tipo de prazer) de forma desmedida, tem diferenças significativas entre si.

Vera Ribeiro refere em relação à ninfomania: “Não é uma manifestação única/pontual, são pequenas manifestações que vão aumentando na sua recorrência.”

Há até quatro fases de desenvolvimento deste transtorno, enumeradas pela especialista. São elas:

  •  1.º Aumento das fantasias sexuais;
  • 2.º A excitação crescente que só é saciada com resolução do ato;
  • 3.º A fase em que predomina uma sensação de impotência em tentar resistir ao comportamento sexual, antes da satisfação, ou seja, nenhum estímulo externo pode demover esta vontade;
  • 4.º A uma sensação inequívoca de total impotência, culpa e remorso pelos atos praticados.
Problemáticas relacionadas com a dinâmica familiar durante a infância podem estar associadas ao aparecimento deste tipo de transtorno em fases adultas – Vera Ribeiro, sexóloga

Mas, afinal, o que pode levar ao desenvolvimento da ninfomania?

Ainda não existem muitos dados ou estudos que possam comprovar que, de facto, existem razões que ajudam a despoletar esta patologia. Porém, como a especialista afirma, “talvez a combinação de múltiplos fatores possam ser a razão”.

“Problemáticas relacionadas com a dinâmica familiar durante a infância podem estar associadas ao aparecimento deste tipo de transtorno em fases adultas. Há também a associação de transtornos tais como o de humor, ansiedade e ainda de impulso ou outros relacionados com o uso de substâncias (embora com menor prevalência)”, explica-nos.

Existem ainda alguns comportamentos que podem servir de sinais para a prevenção e tratamento da ninfomania. É o caso da masturbação compulsiva, o consumo exagerado de pornografia e ainda o sexo casual com diferentes parceiros.

Porém, e a fim de sermos mais específicas, Vera Ribeiro diz ser possível diagnosticar esta patologia que pode resultar num sofrimento considerável para quem padece dela.

Diagnosticar o transtorno

Como o podemos fazer? “Quando os comportamentos começam a fugir ao controle da própria, trazendo um sentimento de frustração, angustia e grande sofrimento, influenciando a sua vida pessoal”, explica.

O diagnóstico é feito quando estes comportamentos sexuais se verificam ao longo de um período mínimo de seis meses, com intensas e recorrentes fantasias e/ou comportamentos sexuais”.

Associados a estes fatores, estão também:

  • Tempo consumido com fantasias/comportamentos sexuais que interfere em outros objetivos não sexuais;
  • Fantasias/comportamentos sexuais que ocorrem em resposta ao humor disfórico;
  • Fantasias/comportamentos sexuais que ocorrem em resposta a eventos stressantes;
  • Não obter sucesso ao tentar controlar ou reduzir fantasias/comportamentos sexuais;
  • Perpetua no comportamento, ignorando riscos de dano físico ou emocional. Além disso, precisa estar presente sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em áreas importantes do funcionamento.
Fonte: DSM-V.

Os perigos e os tratamentos possíveis

Quando falamos de um apetite sexual sem limites, é inconcebível não se falar dos perigos que isto pode acarretar. O mais comum e ainda muito ignorado é a proliferação das doenças sexualmente transmissíveis, que continua a registar números elevados no nosso País.

Em Portugal, os dados de 2018 da Direção Geral da Saúde, revelados pelo Jornal de Notícias, revelaram que o número total de casos notificados de gonorreia, sífilis e clamídia aumentou 33% face a 2017, para os 2558 registos.

Este pode ser um dos problemas mais graves associados ao vício sexual. A falta de controlo leva, inúmeras vezes, ao desleixo no uso do preservativo.

“As doenças sexualmente transmissíveis são um problema grave, pela frequência das relações sexuais e variedade de parceiros, bem como o importante sofrimento subjetivo para a própria na busca de saciação das suas fantasias e impulsos sexuais, como por exemplo o sentimento de perda de controle e culpa”, menciona a sexóloga.

Em relação ao tratamento, a combinação de duas especialidades podem ser muito bem a resposta: a psiquiatria e a psicologia. Sendo a primeira “fundamental para o acompanhamento de fármacos tais como antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina e estabilizadores de humor.”

No caso da psicologia, Vera Ribeiro indica: “Existem várias correntes, cada uma delas com propostas de tratamento diferentes. A que considero mais rápida e eficaz terá o enfoque na prevenção e estratégias eficazes da recaída, mas dependerá sempre da severidade e há quanto tempo existem os sintomas.”

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