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#PowerWorkGirls. Patrícia Esparteiro: a candidata karateca aos Jogos Olímpicos deste ano

Este é certamente um nome que irá ouvir falar nos próximos meses, uma vez que é a grande promessa da representação portuguesa no karaté nos Jogos Olímpicos deste ano. Falámos com Patrícia Esparteiro, que nos mostrou o que é ser mulher num desporto de homens.

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#PowerWorkGirls. Patrícia Esparteiro: a candidata karateca aos Jogos Olímpicos deste ano #PowerWorkGirls. Patrícia Esparteiro: a candidata karateca aos Jogos Olímpicos deste ano
© D.R.
Marta Chaves
Escrito por
Abr. 21, 2021

É a grande estreia do karaté nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão, com data marcada para 23 de julho, e certamente estará um nome português presente na competição.

Embora ainda não esteja apurada, Patrícia Esparteiro prepara-se para as últimas fases de qualificação para aquela que é a maior competição de desporto do mundo e a ansiedade de querer ganhar começa a surgir.

Patrícia tem 27 anos, é do Porto, e falámos com ela sobre o seu percurso enquanto karateca e os obstáculos que tem encontrado. O desporto ainda não tem a visibilidade merecida, mas, aos poucos, a atleta consegue estar presente em competições internacionais, representada pelo Sporting Clube de Braga.

Conta-nos que as mulheres estão a ganhar, cada vez mais, um papel de destaque nesta modalidade, mas este é um caminho que ainda será longo. Além disto, confidenciou-nos ser uma fervorosa beauty junkie – e isso confirma-se em todos os momentos que pisa o tatami, pois está impecavelmente bem maquilhada e sem um fio de cabelo fora do rabo de cavalo.

Entrevista a Patrícia Esparteiro

É curioso que em pequena a Patrícia praticou ballet. Como é que surgiu o karaté?

Tinha seis anos e fazia ballet quando estava no infantário. Chegou um certo dia, nem sei bem como, e virei-me para os meus pais e disse que precisava de aprender a defender-me e que queria ir para o karaté. Nunca sofri de bullying, nem precisava mesmo de me defender, mas tinha a ideia de que podia vir a precisar um dia.

Os meus pais ponderaram e uma semana depois tiraram-me do ballet. Eles próprios sentiram que esta não era uma modalidade que eu gostasse muito de praticar, portanto uma semana depois colocaram-me no karaté. Foi assim que tudo começou, embora as pessoas pensem que foi influência do meu pai porque ele é treinador, mas ele só começou nesta área um ano depois de eu começar. Foi mesmo o oposto e foi engraçado ele interessar-se depois eu ter começado.

Então foi a Patrícia que influenciou o pai a ir também para a área do karaté?

Sim. Ele ia levar-me aos treinos e, a seguir aos meus, ficava a ver os dos graduados, mais velhos, e achou aquilo engraçado.

Hoje não se imaginada nada como bailarina…

Não, não. Ginástica ainda é parecido, agora ballet, acho que não é a minha praia.

É licenciada em enfermagem e tem uma pós-graduação em reabilitação desportiva. Estas são áreas que estão em segundo plano?

Na altura tirei enfermagem porque me pareceu ser o mais correto e não estou arrependida, de todo. Sempre foi a área da saúde que mais me fascinou em termos profissionais, mas neste momento está em stand-by.

Gosto muito da área de estética, talvez ainda não muito desenvolvida em enfermagem aqui Portugal, mas não sei, quem sabe um dia se não pego neste plano B, mas por agora ainda não.

Os meus pais sempre me apoiaram nas decisões que tomei, mesmo quando decidi deixar por completo a parte profissional e dedicar-me ao karaté

Não deve ter sido fácil conciliar a vida de estudante com a de atleta.

Pois, confesso que foram os piores anos no que diz respeito a resultados desportivos, pois não estava a 100%. Uma das minhas características é que me dedico sempre a tudo, e em todas as áreas da minha vida, mas nessa altura sentia que não conseguia dar 100% nem à minha carreira desportiva, nem ao meu curso. Ainda assim, fiz tudo direitinho, não deixei cadeiras para trás, foi tudo bem feito.

Mas, por exemplo, quando estava em estágio, custava muito. Primeiro porque não tinham em conta se eu era ou não atleta, não ligavam a isso, e às vezes chegava a fazer turnos de 17 horas e meia e ir treinar duas vezes por dia no dia a seguir. Foi muito complicado.

Os seus pais nunca tiveram dúvidas de que o karaté podia não ser a melhor área para investir?

Não. Por acaso os meus pais sempre me apoiaram nas decisões que tomei, mesmo quando decidi deixar por completo a parte profissional e dedicar-me ao karaté. E na altura não recebia absolutamente nada.

Eles sempre apoiaram o meu sonho desde que eu disse que era isto que eu queria fazer. Tentar a qualificação olímpica tinha de ser agora, não poderia deixar para depois e eles estiveram sempre ao meu lado. As coisas acabaram por correr bem.

Qual é a sensação de poder vir a ser a primeira atleta portuguesa a representar o karaté nos Jogos Olímpicos?

Neste momento somos só dois atletas no projeto olímpico e a tentar a qualificação olímpica, isto fruto dos resultados que tivemos nos últimos anos. Por acaso somos uma rapariga e um rapaz, mas sendo eu mulher, sinto-me bastante orgulhosa. Isto não é um trabalho só meu, há muita coisa há volta de um atleta.

Os meus pais são o meu grande suporte, e eu até digo isto desta forma: nós, atletas de alta competição, somos como um carro de fórmula 1, quando paramos numa box, temos 20 pessoas à nossa volta, a apartar parafusos, a tirar a roda, a pôr a roda, e nós também funcionamos assim. Ou seja, não sou só eu.

Tenho o meu treinador, o preparador físico, o meu nutricionista, psicólogos… E mesmo com patrocínios, porque isto não se faz sem investimento, neste caso consegui o apoio de uma instituição portuguesa, o Montepio Crédito, que também ajuda bastante neste percurso em que tenho de investir. Todos estes elos ligados puxaram por mim para eu conseguir esta qualificação.

''Acho que há um mito geral que este é um desporto para rapazes, ou que somos brutas, ou que as mulheres que praticam são mais masculinas''

E como reagiu quando soube que o karaté se ia tornar numa modalidade olímpica? Houve logo aquela sensação de que tinha de estar presente?

Foi nos Jogos Olímpicos de 2016 que ficou decidido, mas a Federação Mundial já andava a tentar que o karaté se tornasse numa modalidade olímpica.

Finalmente conseguimos! Esta é uma modalidade que traz muitos valores, muita tradição. Os Jogos Olímpicos são o topo da carreira de qualquer atleta, portanto, mal eu soube que íamos ser olímpicos tornou-se no que eu mais queria.

Entretanto, já nos retiraram para 2024, o que faz disto uma oportunidade única: ou é, ou não é. Se não for agora, já não vai ser para 2024, por isso quero dar tudo nestes jogos.

Como é o dia de uma atleta a preparar-se para os Jogos Olímpicos?

Já começámos a preparar-nos, por assim dizer, há quatro anos e com um ano extra que, na verdade, deu bastante jeito. Este tempo de confinamento deu para corrigir muitos pormenores, muitos aspetos técnicos, mesmo em casa, como aconteceu no último ano. Mas mesmo assim deu para evoluir.

Não é fácil. Há dias em que treino seis ou sete horas por dia, é como se fosse um trabalho como qualquer outro. Em termos físicos é claro que é desgastante, mas quando fazemos o que gostamos, conseguimos.

Tenho plano alimentar, tenho de descansar… Às vezes chega àquela hora da noite em que já não dá mais, a máquina tem de desligar completamente. É aquilo que eu disse. Nutricionistas, psicólogos, patrocinadores, o próprio ginásio, a fisioterapia… Tudo isto tem de estar dentro do nosso plano, do nosso ritual, porque também faz parte.

Qual é o próximo passo para a qualificação?

Vou fazer um torneio em junho, em Paris, que qualifica diretamente três atletas. É bastante difícil. Eu até digo que é mais difícil conseguir a qualificação do que conseguir uma medalha olímpica, porque, por exemplo, nos Jogos Olímpicos nós só estamos 10 (no mundo inteiro) numa categoria. Já no torneio de qualificação vai uma por país. Ou seja, vai estar o mundo todo a concorrer para aqueles três lugares que nos vão dar o ticket direto.

Vai ser difícil, mas acredito que tenho todas as chances para conseguir e, lá está, eu tenho de ser a primeira pessoa a acreditar que é possível.

Em Portugal olha-se muito para o futebol, embora tenhamos de reconhecer que temos atletas com imenso valor em todas as modalidades

Sendo esta fase tão stressante, tem algumas estratégias para lidar com a ansiedade e para se acalmar?

A própria modalidade em si transmite muita calma. Somos pessoas muito disciplinadas, trabalhamos muito em contexto de treino com a parte da respiração, da concentração, e eu acho que isso, de certa forma, ajuda a controlar todo este stresse do quotidiano.

Depois, tenho estratégias de respiração para quando tenho de me acalmar mais um pouco, que são desenvolvidas com os psicólogos quando eu me sinto mais ansiosa e tenho a minha frequência cardíaca mais elevada. Aqui sei que o melhor é parar, respirar fundo, e fazer uma técnica respiratória para desacelerar e concentrar-me no que tenho de fazer.

Qual foi, até agora, o momento mais marcante da sua carreira?

Sem dúvida a medalha de bronze que tenho dos Jogos Europeus, em 2019, em Minsk. Para já, foi o auge da minha carreira.

No topo estão os Jogos Olímpicos e logo a seguir estão os Jogos Europeus. Não é um campeonato da Europa, são jogos, mas daí terem importância, porque essa medalha foi no movimento olímpico, ou seja, nós fomos representar o comité olímpico de Portugal. Foi muito marcante esta conquista.

Como é ser atleta em Portugal? Sente que ainda há muita coisa a melhorar?

Acho que em Portugal olha-se muito para o futebol, exclusivamente para o futebol, e estas modalidades são muitas vezes deixadas de lado, embora tenhamos de reconhecer que temos atletas com imenso valor em todas as modalidades, seja no karaté, atletismo, taekwondo, natação… Há tantos atletas bons em Portugal que muitas vezes não são reconhecidos, e nem digo pela população em geral, digo mais nas notícias, na comunicação social, que só falam de futebol.

Falta-nos esse reconhecimento. Muitas vezes também não somos apoiados, não temos muitos patrocínios. Ainda não temos capacidade financeira para investirmos em nós, atletas, destas modalidades amadoras. É preciso um empurrão no apoio da parte de instituições, governo, dos órgãos de comunicação social…

Maquilhar-me e estar vestida com o kimono dá-me uma confiança fora do normal!

Acha que o karaté ainda é visto como uma modalidade de homens?

Acho que há um mito geral que este é um desporto para rapazes, ou que somos brutas, ou que as mulheres que praticam são mais masculinas. Mas isto é um mito, completamente. Vou dar o meu exemplo, eu sou super vaidosa. Para competir maquilho-me, arranjo o cabelo, e gosto de estar esteticamente bem. E mesmo em competição, a nossa apresentação conta.

A disciplina que eu pratico, a kata, que é como se fosse uma coreografia, um combate imaginário que faço sozinha, é muito semelhante à ginástica. Podemos não ter aquele fato, mas arranjamo-nos à mesma. Cada vez mais, há mais mulheres a praticar karaté.

É curioso porque no seu Instagram vemos a Patrícia sempre maquilhada e arranjada e utiliza frequentemente a hashtag #womenempowerment. É a maquilhagem também uma forma de empoderamento?

Exatamente. Eu acho que tudo aquilo que nos faça sentir melhor ou nos faça sentir mais confiantes é um caminho a seguir. Maquilhar-me e estar vestida com o kimono dá-me uma confiança fora do normal! Por acaso uso imenso essa hashtag exatamente por isso, porque devemos mimar-nos, devemos estar no nosso melhor até para o nosso interior estar mais feliz.

Há uns anos, nas competições aqui em Portugal, ninguém se maquilhava. Eu ia lá fora e via que elas faziam, por exemplo, um eyeliner. Isto para dizer que a minha expressão facial vai dizer ao árbitro como eu estou a encarar o que estou a fazer num combate. Acho que maquilhar-nos vai, de certa forma, enfatizar as nossas expressões faciais.

Quando tinha 14 ou 15 anos e levava as miúdas mais pequeninas aos campeonatos também lhes colocava máscara de pestanas, fazia o risco nos olhos, e isto foi passando. Neste momento, numa competição de karaté, quase todas as crianças se maquilham.

Quem é a Patrícia fora do tatami?

Eu, realmente, dentro do tatami transformo-me. Às vezes as pessoas até estranham, porque eu fora do tatami rio-me muito, sou muito tranquila, adoro viajar, adoro ir ao shopping… Sou uma Patrícia muito descontraída.

Na altura em que treinava todos os fins de semana sentia que estava a perder alguma coisa, principalmente na juventude?

É o que eu digo, há prós e contras. Perdi muita coisa. Perdi muitos jantares, muitos almoços, saídas à noite com os amigos, não fui às praxes na faculdade, houve muita coisa que ficou por fazer. Por outro lado, ganhei muito.

Sou muito open mind devido a isso. Já viajei muito, conheci pessoas incríveis de outros países, conheci culturas, religiões, conheci tanta coisa que equilibra a balança.

Além de ganhar, claro, o que é que espera da experiência em Tóquio?

Acho que estou a desfrutar do processo. Embora estejamos a passar por tempos difíceis, estou a desfrutar dos treinos e até do cansaço. Quer consiga a qualificação ou não, acho que aproveitei todo o processo.

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