Sociedade

Duelo de habitação: é preferível comprar ou arrendar casa?

Com os preços praticados no mercado imobiliário e de arrendamento, há mais vantagens em arrendar ou comprar casa? Duas mulheres com opções diferentes explicam-nos o que as levou a escolher a solução para habitação própria.

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duelo arrendar ou comprar casa
Escrito por
Carla Macedo
Out. 25, 2018

O preço das casas para comprar nunca esteve tão elevado e os níveis de endividamento das famílias estão iguais aos de 2006. Só que o mercado de arrendamento não se revela uma alternativa porque também aqui os valores estão a aumentar cada vez mais.

Isabel Silva continua, aos 38 anos, a viver numa casa alugada e não pensa comprar uma propriedade tão cedo. “Com os preços que se estão a praticar, é impossível”, diz esta assistente social, que vive com uma filha de 6 anos. “Não é que o banco não me conceda um empréstimo. Agora toda a gente consegue empréstimos… Só que eu não vou contrair uma dívida para a vida. No meu trabalho vejo muita gente que perdeu tudo na crise de 2011, gente que ficou sem marido ou sem pai porque as dívidas eram tantas que se atiraram pela janela, literalmente. Vejo gente que continua a pagar essas dívidas. É muito triste e não vou viver com esse medo.”

Ter uma propriedade sua não estava, há quatro anos, fora das perspectivas de Isabel Silva. “Consegui o meu primeiro contrato sem termo em 2014 e nessa altura pensei seriamente em comprar casa, porque os preços de compra estavam baixos.

Falei com o banco e esperei pela nota de liquidação do IRS desse ano. Mas foi tarde demais. Em 2015, os preços começaram a subir e eu não me via a comprar uma casa por um valor tão alto. Achei que era temporário mas a minha espera revelou-se má estratégia. Se não comprava casa em 2015, agora muito menos… Estou sozinha com a minha filha e tenho de pensar no futuro dela.”

Os valores por metro quadrado têm, de facto, subido por quase todo o País. O preço de venda médio da habitação em Portugal está nos 1180 euros por metro quadrado, de acordo com dados revelados pelo Instituto Nacional de Estatística, em junho deste ano.

Este valor, relativo ao primeiro trimestre, representa uma subida de 7,8% em relação ao período homólogo de 2017. A média do país e de Almada – onde Isabel vive atualmente – estão, no entanto, longe do valor médio por metro quadrado da cidade mais cara de Portugal, que continua a ser Lisboa. Aqui cobram-se 2581 euros por metro quadrado, o que quer dizer que um apartamento de 50 metros quadrados pode valer 130 mil euros.

Foi por essa razão que Catarina Matos, de 33 anos, desistiu da ideia de viver no centro da capital e rumou ao Barreiro. “Nunca lá tinha ido e tinha um certo preconceito, confesso. Mas quando andava à procura de casa para comprar alarguei a minha área de eleição por causa dos preços, pus-me a pesquisar na Ínternet por valores e cheguei à conclusão que era dos sítios mais baratos para comprar casa a uma pequena distância da capital.”

“Alugar também nunca fez parte dos meus planos. Sentia que estava a deitar dinheiro à rua a cada renda que pagava. Gastava 7200 euros por ano com uma casa que nunca seria minha” – Catarina Matos, casa própria

Catarina Matos foi visitar a cidade da Margem Sul do Tejo várias vezes, em horas diferentes do dia para refinar a pesquisa. “Encontrei uma zona ótima, perto da estação de barcos, junto às escolas, a supermercados e a dois jardins ótimos. Temos uma qualidade de vida muito elevada.”

A contabilista vive agora com o marido e os dois filhos num T3 com vista para o Tejo que comprou em 2017. O prédio é da década de 80, o apartamento precisava de obras e, depois de tudo somado, Catarina diz ter gastado 129 mil euros. “Comprei-o há um ano. Uma casa igual, noutra localização, seria o dobro. Em Lisboa seria o triplo!

Porque é que Catarina Matos decidiu comprar, se viver no centro de Lisboa tinha feito parte dos planos desde que chegara à cidade? “Alugar também nunca fez parte dos meus planos. Sentia que estava a deitar dinheiro à rua a cada renda que pagava. Gastava 7200 euros por ano com uma casa que nunca seria minha.”

O nascimento dos filhos, hoje com dois anos, foi o que precipitou a decisão de comprar casa. “O meu namorado e eu queríamos que a casa alugada fosse temporária. Estávamos a viver juntos em Lisboa há quatro anos e a aguardar que os preços voltassem a descer. Quando soubemos que esperávamos dois bebés em vez de um filho apenas, percebemos que não fazia sentido esperar mais. Até comprarmos a casa foi mais de um ano à procura, a tomar consciência que era impossível ficar no centro, a descobrir o Barreiro.”

Está toda a gente a tentar ficar rica de repente, quem vende e quem aluga, mas estão a esquecer-se de uma coisa essencial: depois de toda a gente ter gastado tudo o que tinha para ter um teto, quem tem propriedades vai ficar sem negócio – Isabel Silva, casa arrendada

Havia, revela Catarina, mais um fator a pesar na decisão do casal: o fim do contrato de aluguer que tinham firmado por um período de cinco anos aproximava-se. “Nunca tivemos problemas com o nosso senhorio. Mas o prédio onde morávamos, em Alcântara, tinha várias situações parecidas com a nossa. Casais que tinham assinado contrato com o mesmo senhorio um ano antes de nós e que, findo o contrato de cinco, passavam de 500 para 700, de 600 para 800 euros e em contratos anuais. Esta ía, seguramente, ser a nossa nova renda… não dava para aguentar mais gastos. Ainda para mais com dois filhos, duas creches, fraldas e tudo a dobrar… E também não queria a insegurança dos contratos anuais.”

É um facto que o preço médio do arrendamento no País também está a subir. Lisboa é, também no arrendamento, a cidade que tem o metro quadrado mais caro, a 14 euros, seguindo-se Cascais, Oeiras, Porto e Loures, de acordo com uma informação emitida pelo portal imobiliário Imovirtual, referido pela agência Lusa. No mesmo artigo se pode ler que “o preço do arrendamento no distrito de Lisboa aumentou 28%, no distrito do Porto 10% e no distrito de Setúbal 8%, face a 2016”.

Quando a Euribor voltar a valores positivos as pessoas vão ter de pagar o dobro do que pagam neste momento… – Isabel Silva, casa arrendada

Em Almada, no distrito de Setúbal justamente, Isabel Silva também sabe que os preços estão a subir. “Vivo em Cacilhas, que era uma zona que ninguém queria até há pouco tempo, e em breve vou ter de mudar, tenho a suspeita.” Pela zona mais próxima do rio já circulam histórias de duplicação do valor das rendas.

“Está toda a gente a tentar ficar rica de repente, quem vende e quem aluga, mas estão a esquecer-se de uma coisa essencial: depois de toda a gente ter gastado tudo o que tinha para ter um teto, quem tem propriedades vai ficar sem negócio,” diz Isabel, que avança para um discurso profético.

“A classe média está a ficar sem meios para subsistir porque todo o dinheiro que faz é usado para a habitação. O ciclo que leva à crise financeira está montado: como arrendar uma casa de família é caríssimo, as pessoas estão a comprar casa com créditos elevados porque acham que os podem pagar agora que as taxas de juro estão baixas. Mas as taxas já começaram a subir. Quando a Euribor voltar a valores positivos as pessoas vão ter de pagar o dobro do que pagam neste momento… Vão ficar sem meios para pagar os empréstimos e vão fazer o que fizeram em 2011: perdem tudo e matam-se a seguir. E os bancos nunca perdem: eles ganham com a economia de escala dos pequenos empréstimos, da grande dimensão do valor total emprestado e do aumento das taxas de juro.”

Isabel Silva não é a única que está preocupada com o endividamento excessivo das famílias portuguesas. A contabilista Catarina Matos cita os dados que o Banco de Portugal tornou públicos no verão. “É assustador. Os valores do crédito à habitação deste ano estão iguais aos de antes da crise. Se a bolha rebentar outra vez vai ser muito duro.”

Os meus pais sentiram a crise forte e feio. (…) Mas como tinham um nível de endividamento que não ultrapassava 30% dos rendimentos quando os rendimentos baixaram, conseguiram com as poupanças que tinham fazer face aos problemas. Eu pretendo fazer o mesmo – Catarina Matos, casa própria

Catarina refere-se aos 6.503 milhões de euros que as instituições de crédito tinham emprestado no primeiro semestre de 2018, igualando o valor emprestado no período homólogo em 2006. “Também já ouvimos os agentes imobiliários a dizer que estes preços vão estoirar o mercado… Mas ninguém quer travar esta situação”.

Com esta informação na mão, Catarina Lopes não devia ser a primeira a não querer comprar uma casa a crédito? “Sim e não,” explica Catarina. “Os meus pais sentiram a crise forte e feio. O meu pai, que também é contabilista, perdeu imensos clientes e ainda hoje tem dívidas por cobrar. A minha mãe é funcionária pública e recebeu um corte muito grande no rendimento. Mas como tinham um nível de endividamento que não ultrapassava 30% dos rendimentos, quando os rendimentos baixaram, conseguiram com as poupanças que tinham fazer face aos problemas. Eu pretendo fazer o mesmo.”

A contabilista pormenoriza a sua estratégia: “Primeiro tinha uma poupança que apliquei na compra da casa. Depois negociei uma taxa fixa, o que significa que neste momento estou a pagar mais do que pagaria se estivesse dependente de taxas variáveis, mas também vou pagar menos quando as taxas de juro subirem. E, claro, como o valor nominal da casa é muito mais baixo sobra-me dinheiro ao final do mês para repor a poupança. Se a crise chegar, havemos de nos aguentar.”

Ao conseguir poupar, Catarina Lopes é uma excepção entre os portugueses. Se há 12 anos que o nível de endividamento dos nacionais não era tão alto, há 18 que o nível de poupança não era tão baixo. Os portugueses pouparam no primeiro semestre de 2018 apenas 4% do seu rendimento, fazendo do País o que menos poupa em toda a União Europeia, de acordo com dados do Eurostat.

A casa é para muitas pessoas um sinal de estatuto social. Eu prefiro viver numa casa pequena e ter uma vida mais tranquila – Isabel Silva, casa arrendada

Como é que as pessoas podem poupar se os preços sobem e os salários não sobem?”, pergunta a assistente social Isabel Silva. “O salário médio dos portugueses anda à volta dos 900 euros. As pessoas da minha geração têm na maioria contratos a termo certo com um salário médio de 720 euros. Torna-se difícil poupar.”

Então qual é a estratégia de Isabel Silva? Não estará, como dizia Catarina Lopes, a “atirar dinheiro à rua” com cada renda? “Percebo esse raciocínio. Mas os juros dos empréstimos também fazem as pessoas desperdiçar dinheiro. Há gente que passa dez ou quinze anos apenas a pagar os juros do valor emprestado, sem abater nenhuma parcela do valor do empréstimo. É mais ou menos a mesma coisa, é como ter uma casa arrendada… A minha estratégia para o futuro tem justamente a ver com a mobilidade que o arrendamento me dá. Posso sair de uma casa que já não posso pagar com maior facilidade, inclusivamente posso procurar trabalho fora das zonas urbanas, se for necessário, e mudar-me para lá. A casa é para muitas pessoas um sinal de estatuto social. Eu prefiro viver numa casa pequena e ter uma vida mais tranquila.”

A assistente social continua a não recusar a ideia de comprar uma casa, simplesmente não quer fazê-lo sem controlar o todos os dados. “Faz sentido que seja o banco a ter a responsabilidade de fazer a avaliação de um imóvel, se é o banco que mais lucra com a especulação? O Banco de Portugal emitiu uma ordem este ano para que o valor do empréstimo nunca ultrapassasse 80% do valor do imóvel. O que é que custa ao banco aumentar o valor da avaliação para poder conceder o crédito? Não custa nada. Só que o valor das casas não é estável, como vimos a partir de 2011 quando toda a gente queria despachar apartamentos e moradias e ninguém conseguia vender. Os bancos contribuem para a especulação imobiliária ao fazerem avaliações altíssimas mas não asseguram as perdas de valor dos imóveis dos seus clientes e isto não faz sentido nenhum.”

O aluguer permite-me ter controlo sobre as minhas escolhas. Nunca na vida vou pedir milhares de euros emprestados para pagar a 30 anos sem saber como vai ser o dia de amanhã – Isabel Silva, casa arrendada

Catarina Lopes, a contabilista, vê no apartamento que comprou a crédito no Barreiro um investimento para o futuro. “Se o conseguir pagar até ao fim, como prevejo, é património que deixo até para os meus filhos. Possam eles, depois de morrermos, usá-lo para melhorarem as condições de vida que tiverem.”

Isabel Silva, a assistente social, prefere controlar o presente e adaptar-se às condições que forem surgindo para fazer face às dificuldades. “O meu pé de meia está a ser feito, com esforço, é verdade, mas está a ser feito. Se um dia surgir uma boa oportunidade, eu posso agarrá-la, mas não vou andar angustiada a vida toda por não saber se o banco me vem buscar a casa por eu não poder pagar um valor residual, como eu vi acontecer em 2011. O aluguer permite-me ter controlo sobre as minhas escolhas. Nunca na vida vou pedir milhares de euros emprestados para pagar a 30 anos sem saber como vai ser o dia de amanhã. Muito menos vou alimentar este sistema financeiro desleal que já vi prejudicar tantas pessoas.”

 


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