Saúde

Aborto induzido. O que acontece antes, durante e depois da IVG

Desde 2007 que o aborto induzido é permitido por lei em Portugal. Mas sabia que este tem de ser feito até à 10ª semana de gestação, e que a mulher deve ter no mínimo 16 anos para tomar essa decisão sozinha? Descubra como se processa uma interrupção voluntária da gravidez (IVG).

Untitled-7 Untitled-7 Untitled-7
aborto induzido
Escrito por
Solange Sousa Mendes
Jul. 22, 2019

Segundo o último relatório da Direção Geral de Saúde (DGS), de 2008 até 2011 o número de mulheres que recorreu à IVG aumentou progressivamente.

Depois, a tendência foi oposta. Entre 2011 e 2017, as IVG (até às 10 semanas) decresceram 25,2%. Sendo que, só entre 2016 e 2017, diminuíram 3,4%.

Certo é que continuam a haver mulheres nesta situação, a precisar de esclarecimento e apoio. Foi por isso que falámos com a Associação para o Planeamento da Família (APF), para esclarecer algumas das principais dúvidas que podem ainda existir sobre este tema sensível.

“Esta informa no sentido de as mulheres conhecerem e fazerem valer os seus direitos, preparando-as da melhor forma possível para fazerem escolhas que lhe permita uma vida com saúde”, esclarece Paula Pinto, coordenadora da Sexualidade em Linha (linha de apoio criada pela APF em parceria com o Instituto Português da Juventude e do Desporto).

Contactámos ainda Sónia Lourenço, diretora executiva da Clínica dos Arcos, onde se realizam 30% das interrupções de gravidez em Portugal, segundo dados da Direção Geral de Saúde.

Os serviços do Estado estão organizados no sentido de darem uma resposta atempada para que a interrupção da gravidez seja feita cumprindo os prazos legais (até às 10 semanas de gestação) – Paula Pinto, coordenadora da sexualidade em linha

O que é o aborto induzido (IVG)?

O aborto induzido, também denominado Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) é um procedimento usado para interromper uma gravidez. Quando realizado em serviços de saúde legais e autorizados, até à 10ª semana de gestação, é seguro e com riscos reduzidos para a saúde da mulher.

Fonte: APF

Métodos de IVG

Existem dois métodos para a indução do aborto:

IVG Medicamentosa

• IVG Cirúrgica

“A interrupção cirúrgica é realizada em bloco operatório, por uma equipa de médicos e outros profissionais de saúde, altamente qualificados”, diz Sónia Lourenço, diretora da Clínica dos Arcos.

Esta consiste na introdução de uma cânula na cavidade uterina através do colo do útero. Após a colocação da cânula, esta liga-se a um aspirador cirúrgico, esvaziando-se assim o conteúdo uterino. Segundo esta profissional, este procedimento é relativamente simples, eficaz e pouco traumático.

Quanto ao método medicamentoso, a diretora da Clínica dos Arcos explica que consiste na toma de duas medicações intercaladas de 48 horas, com o objetivo de interromper a gravidez. Realiza-se entre a 5ª e 7ª semana de gestação. De acordo com Sónia Lourenço, “a escolha do método depende da avaliação médica”.

Paula Pinto, da APF, salienta, no entanto, que a escolha e vontade da mulher também deve ser tida em conta. “Contudo, no final, esta avaliação está muito dependente daquilo que são o recursos disponíveis para dar resposta”, continua.

E ressalva: “o mais frequente nos serviços públicos é o método medicamentoso, já que não são necessários certos recursos, como um bloco operatório”.

Quero interromper a gravidez. O que devo fazer?

“A partir do momento que a mulher suspeita que está grávida, deve confirmá-lo com um teste de gravidez”, aconselha Paula Pinto. “Depois, se realmente equacionar induzir o aborto, deve ir de imediato ao centro de saúde da sua área de residência, para iniciar o processo”, continua

É no centro de saúde que a mulher marca a primeira consulta de interrupção da gravidez. Nesta consulta, Paula Pinto diz que é-lhe explicado todo o processo e lhe são prestadas todas as informações necessárias.

“Posteriormente, este centro articula com o Hospital que deverá fazer o aborto. E é já no Hospital que a interessada faz a segunda consulta.”

Entre a primeira e a segunda consulta, a mulher tem um período mínimo obrigatório por lei de três dias para refletir. “Lá por esta já ter iniciado o processo de IVG, não quer dizer que o leve adiante. Em qualquer momento, pode desistir de abortar”, esclarece a coordenadora da Sexualidade em Linha.

Se levar em diante, cerca de duas a três semanas após a interrupção da gravidez, deverá ir a uma terceira consulta médica de controlo, que é fundamental para se poder confirmar se a IVG foi bem sucedida.

Paula Pinto explica que esta consulta faz parte do protocolo estabelecido pela Direção Geral de Saúde para a realização do processo de IVG, pelo que é sempre agendada, quer no SNS quer em clínica privada.

Só em 2018, foram enviadas para a Clínica dos Arcos, em Lisboa, 4122 mulheres. A média anual que o Estado envia para esta clínica é de 75% – Sónia Lourenço, diretora da Clínica dos Arcos

Estado vs. privado

“No que diz respeito ao que são os requisitos legais e protocolos estabelecidos para a interrupção da gravidez, não há diferenças entre o Estado e o privado. Obedecem aos mesmos critérios”, explica Paula Pinto. “A única diferença é que a mulher chega ao privado e agenda logo o procedimento.”

“Seja como for, os serviços do Estado estão organizados no sentido de darem uma resposta atempada para que a interrupção de gravidez seja feita cumprindo os prazos legais (até às 10 semanas de gestação)”, esclarece.

Paula Pinto aproveita para lembrar que existem Hospitais objetores (contra o aborto). Se acontecer a residência da mulher pertencer a um destes, o mais certo é ser reencaminhada para uma clínica privada com o qual esse Hospital tem protocolo.

“Só em 2018, foram enviadas para a Clínica dos Arcos, em Lisboa, 4122 mulheres. A média anual que o Estado envia para esta clínica é de 75%“, informa Sónia Lourenço.

Mas atenção que não é só por motivos de objeção que os Hospitais reencaminham as mulheres para clínicas. “Na maioria dos casos, é por falta de recursos”, esclarece Paula Pinto.

O Hospital de Cascais, o Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca (Amadora-Sintra) e Hospital São Francisco Xavier são alguns dos exemplos de objetores na zona de Lisboa.

Qual o preço do procedimento?

Nos estabelecimentos de saúde públicos e oficialmente reconhecidos, o processo de aborto induzido não tem qualquer custo para as mulheres.

Já no sector privado, os valores variam conforme o tipo de IVG.

A cirúrgica com anestesia geral é a mais cara. Por exemplo, na Clínica dos Arcos, custa 575 euros. Já a IVG cirúrgica com anestesia local é a mais económica (450 euros). A medicamentosa fica por 475 euros.

Muitas utentes também se queixam de ser tratadas com indiferença, porque querem marcar a primeira consulta e dizem-lhe que de momento não é possível – Paula Pinto, coordenadora da sexualidade em linha

Há riscos associados ao aborto induzido?

“O aborto induzido não é diferente de qualquer outro procedimento médico ou cirúrgico. Essa questão justificava-se quando a IVG era efetuada em situações que não eram adequadas e não havia o acompanhamento necessário para que esta fosse realizada em segurança”, refere Paula Pinto.

E explica que, atualmente, é feita uma primeira análise, para avaliar o estado de saúde da mulher. Depois, é feito o despiste de algumas situações que possam eventualmente ser tidas em conta, para assegurar que tudo corre pelo melhor. “Nesse sentido, está tudo muito bem articulado”, garante.

Mas como cada caso é um caso e cada mulher reage de forma diferente, há (sempre) alguns riscos a ter em conta. Sónia Lourenço exemplifica:

• Hemorragias;
• Esvaziamento uterino incompleto;
• Infeções;
• Lacerações do colo do útero;
• Perfurações uterinas;
• Aderências intrauterinas.

A Clínica dos Arcos observa uma taxa de não comparência às consultas de revisão e CAC muito elevada, na casa dos 40% – Sónia Lourenço, diretora da Clínica dos Arcos

Será que a mulher sente o apoio necessário?

Paula Pinto lembra que não há estudos de satisfação que assegurem que as mulheres se sintam sempre bem acompanhadas em todo o processo.

As queixas que a APF mais recebe são de mulheres que queriam ser acompanhadas por um só sítio, onde começasse e terminasse o processo. Só que, no que diz respeito à organização dos serviços, muitas vezes, não é possível, como já foi referido.

“Muitas utentes também se queixam de ser tratadas com indiferença, porque querem marcar a primeira consulta e dizem-lhe que de momento não é possível. Esta situação causa-lhes stresse, já que podem ter de fazer a IVG muito em cima do limite permitido por lei”, explica Paula Pinto.

No que diz respeito à Clínica dos Arcos, Sónia Lourenço garante que há sempre uma consulta informativa prestada por um Psicólogo Clínico, onde é feito o acompanhamento individualizado de todas as mulheres que querem interromper a gravidez.

Depois do dia da interrupção, está prevista uma consulta de revisão através de exame ecográfico e uma consulta de aconselhamento contracetivo (CAC). Contudo, “a Clínica dos Arcos observa uma taxa de não comparência às consultas de revisão e CAC muito elevada, na casa dos 40%”, lamenta a diretora desta clínica.

Contactos de apoio ao aborto e interrupção da gravidez

Sexualidade em Linha – 800 222 003

Linha Saúde 24 – 808 24 24 24

SOS Grávida (Ajuda de Mãe) – 808 200 139


Agora que já sabe tudo sobre a interrupção voluntária da gravidez, conheça os sintomas e saiba como tratar uma gravidez ectópica.

Últimos

O que fazer no fim de semana de 18 a 20 de outubro
Cultura
O que fazer no fim de semana de 18 a 20 de outubro
Cansada dos depósitos? Não ponha ainda o dinheiro no colchão
Dinheiro
Cansada dos depósitos? Não ponha ainda o dinheiro no colchão
Acha que sabe distinguir cosméticos naturais dos restantes?
Beleza
Acha que sabe distinguir cosméticos naturais dos restantes?
Dormir a sesta não é sinal de preguiça, é bom para o coração
Saúde
Dormir a sesta não é sinal de preguiça, é bom para o coração
Pão de castanhas: uma sugestão deliciosa e nutritiva
Receitas
Pão de castanhas: uma sugestão deliciosa e nutritiva
19 bandoletes para palmilhar as ruas com o acessório da estação
Moda
19 bandoletes para palmilhar as ruas com o acessório da estação
Como reduzir manchas e ter uma pele luminosa em três passos
Beleza
Como reduzir manchas e ter uma pele luminosa em três passos
Seremos realmente livres de deixar crescer os nossos pelos?
Beleza
Seremos realmente livres de deixar crescer os nossos pelos?
Em busca de inspiração? Encontre-a nestes 12 documentários sobre mulheres
Cultura
Em busca de inspiração? Encontre-a nestes 12 documentários sobre mulheres
Experimente estes jogos de sexo e quebre a monotonia da relação
Sexo
Experimente estes jogos de sexo e quebre a monotonia da relação
Síndrome pré-menstrual: tem estes sintomas?
Saúde
Síndrome pré-menstrual: tem estes sintomas?
27 frases de empoderamento feminino para se inspirar todos os dias
Sociedade
27 frases de empoderamento feminino para se inspirar todos os dias