Por que razão estamos cada vez mais sós (e 7 dicas para combater a solidão)

Estamos cada vez mais contactáveis, seja via telemóvel ou através das redes sociais. Então porque é que a solidão não desaparece?

Nunca como hoje estivemos tão contactáveis, mas também nunca nos sentimos tão sozinhos.

Esta é uma verdade repetida vezes sem conta por pessoas de todas as idades e classes sociais. Mas ainda assim, para Ana Fernandes, professora catedrática de Sociologia, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, estamos longe de podermos dizer que vivemos na era da solidão.

O que acontece no presente é que “as condições sociais se alteraram face às sociedades tradicionais baseadas nas relações cara a cara e no interconhecimento. Se o padrão continuar a ser este no futuro, é possível que as relações sejam mais difíceis e maior o isolamento”.

Não confundir solidão e isolamento

Aqui é importante distinguir entre isolamento e solidão, pois são conceitos distintos. Segundo Madalena Lobo, CEO e psicóloga da Oficina da Psicologia, “o isolamento é algo objetivo, que pode ser observado em termos de dimensão da teia relacional de cada um e da regularidade com que as pessoas mantêm contactos com os outros. A geografia e os fatores relacionados com a vida ativa são fortes determinantes de um maior ou menor isolamento social” e este pode gerar a solidão.

Já a solidão “é um tema sentido, subjetivo, uma perceção individual. Rodeado de pessoas ou em isolamento físico, a solidão sentida por cada um apenas pode ser estimada pelo próprio”.

“Viver mais sozinho não é, por si só, promotor de solidão”

Mais autonomia, menos socialização

Na opinião de Daniel Sampaio, professor catedrático jubilado de Psiquiatria e Saúde Mental na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, são sobretudo as pessoas idosas que estão mais sozinhas “por várias razões: abandono por parte dos familiares, doenças físicas e mentais, conflitos relacionais…”

Por outro lado, não crê que “as pessoas jovens estejam mais sozinhas; hoje, contactam com todo o mundo”.

Já Ana Fernandes acredita que nas sociedades contemporâneas vivemos mais sós, mas também com maior autonomia face à família. “Mas viver mais sozinho não é, por si só, promotor de solidão”.

Para a socióloga, hoje em dia cada um de nós é “mais independente face aos outros, mais autónomo, e esta condição social pode acarretar dificuldades. Não temos tanta necessidade dos outros, a vida social proporciona um estilo de vida em que podemos viver sem familiares, amigos e colegas de trabalho”.

A era digital pode ser difícil

E será que a era digital em que vivemos, onde por vezes falta uma rede de vizinhos, família e amigos, contribui para o problema? Para a socióloga, não é pela era digital, mas sim “pelo estilo de vida e pela capacidade de podermos ter independência e autonomia.

Também as instituições se tornaram distantes e despersonalizadas. A vida urbana atomiza os indivíduos, que ficam espartilhados em diferentes universos relacionais. Digamos que temos condições para ficar mais isolados numa grande cidade, onde as distâncias são difíceis e a organização dos tempos estereotipada”.

Tudo em nós está preparado para precisarmos de outros seres humanos com o mesmo tipo de necessidade que temos de ar, comida ou água.

Na sua opinião, sem estratégias que promovam “a proximidade, o convívio e as relações vamos cair em isolamento com facilidade”.

Daniel Sampaio realça que os telemóveis e as redes sociais “são agora importantes veículos de comunicação e nos mais novos facilitam a comunicação. No entanto, nos mais velhos, que dominam mal as novas tecnologias, podem servir de barreira entre as gerações”.

Este cenário atual é uma evolução contrária à nossa natureza, uma vez que somos uma espécie social com um cérebro social, como explica Madalena Lobo: “tudo em nós está preparado para precisarmos de outros seres humanos com o mesmo tipo de necessidade que temos de ar, comida ou água. Quando se instala o isolamento e a solidão, todas as dimensões da saúde física e psicológica se ressentem, das mais diversas formas. Por vezes, a solidão afeta o sono, fragmentando-o. E o sono afeta tudo o resto”, sublinha a psicóloga.

“O envelhecimento pode conduzir a um cérebro com atrofia que, se não for estimulado, poderá ficar com menor capacidade cognitiva, sobretudo a nível da memória”

Os perigos da solidão

Apesar de a neurociência dizer que a solidão é um mal necessário para o cérebro recuperar de algo que não está bem – tal como a dor física é uma forma de aquele órgão dizer ao corpo que existe um problema –, é um risco deixar a situação arrastar-se até se instalarem problemas como a depressão e a ansiedade.

Daniel Sampaio defende mesmo que a solidão é um “fator de risco para a doença física e mental. O nosso cérebro precisa de ser sempre estimulado. O envelhecimento pode conduzir a um cérebro com atrofia que, se não for estimulado, poderá ficar com menor capacidade cognitiva, sobretudo a nível da memória”.

Um estudo liderado por Gillian A. Matthews, investigadora do Simons Center for the Social Brain, nos Estados Unidos da América, descobriu que a solidão afeta não só o equilíbrio emocional, como altera o funcionamento cerebral.

As pessoas mais solitárias têm problemas cognitivos, de concentração e de memória. Porquê? Os investigadores descobriram que o isolamento social afeta a ativação de dopamina e serotonina, responsáveis pelas sensações de bem-estar enviadas para o cérebro.

A genética conta

Segundo pesquisas conduzidas por John Cacioppo, fundador e diretor do Centro para a Neurociência Cognitiva e Social, na Universidade de Chicago, e um dos maiores peritos em solidão nos Estados Unidos, a solidão pode estar intimamente relacionada com aspetos genéticos e com o ADN. Segundo este investigador, as pessoas que se definem como solitários crónicos têm padrões distintos de atividade genética, a maioria envolvendo o sistema imunitário.

O sentimento de solidão tem uma dimensão de sofrimento pela ausência de afeto e proximidade do outro ou de alguém que nos aconchegue o espírito.

John Cacioppo alerta ainda para o facto de pessoas com falta de autoestima acreditarem que não são merecedoras da atenção dos outros. Isso pode levar a um isolamento e solidão crónicos, que têm uma série de efeitos negativos na saúde física e mental, como os referidos atrás.

A socióloga Ana Fernandes lembra que “o sentimento de solidão tem uma dimensão de sofrimento pela ausência de afeto e proximidade do outro ou de alguém que nos aconchegue o espírito. Este, sim, pode levar à tristeza estrutural e à depressão.”

A psicóloga Madalena Lobo não tem dúvida ao afirmar que “a solidão e o isolamento social encurtam significativamente a expectativa de vida, com um risco de mortalidade que supera muitos dos riscos mais conhecidos, como a obesidade. Nos meios científicos, já há quem fale numa epidemia de solidão e recomenda-se que esta seja avaliada como parte integrante das consultas de check-up”.

7 dicas para lidar com a solidão

1. Coloque as relações familiares e sociais no topo das suas prioridades;
2. Organize a agenda de forma a deixar um espaço diário dedicado ao convívio e contacto social, seja um almoço com amigos, um jantar de família, um telefonema a um familiar distante ou encontros com amigos aos fins de semana;
3. Tenha em mente que as relações se cultivam no dia a dia, tal como as plantas. Se regar as suas plantas apenas de dois em dois meses é difícil que se mantenham de boa saúde;
4. Estabeleça um lugar e um tempo para todos os níveis de intimidade: família, amigos do peito, bons amigos, amigos das saídas à noite e até meros conhecidos. Todos estas relações são importantes para si e merecem a sua atenção.

Não fique por aqui…

5. Procure situações em que a interação social seja importante, sobretudo se o tempo não for muito. Por exemplo, em vez de ir ao cinema, prefira um jantar com amigos. O tempo é um recurso escasso. Use-o da melhor forma
6. A ciência já demonstrou que a generosidade, a gratidão e o apoio aos outros são fundamentais para uma boa saúde física e psicológica. Além disso, promovem boas relações interpessoais.
7. Fale e partilhe o que para si é importante. A reserva até pode ser recomendável em certos círculos sociais. Porém, há círculos mais íntimos em que falar sobre o que nos deixa acordados à noite é importante para o bem-estar.

Fonte: Madalena Lobo, CEO e psicóloga da Oficina da Psicologia.


Já alguma vez se sentiu sozinha? O contrário também acontece. Há quem não consiga estar só, descubra porque é que isto acontece.

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