A tecnologia mudou as nossas relações e a forma como nos relacionamos. Tornou-nos mais contactáveis, facilitou a comunicação e aproximou-nos de pessoas que estão fisicamente distantes. No entanto, criou uma nova dificuldade: estarmos sempre acessíveis não significa estarmos disponíveis. Podemos trocar dezenas de mensagens durante o dia e, ainda assim, ter dificuldade em estar verdadeiramente presentes durante uma conversa de dez minutos. Damos por nós a ignorar ou a interromper uma interação para nos concentrarmos no telemóvel. A este fenómeno chamamos Phubbing.
Helena Paixão, psicóloga clínica e fundadora da Clínica Helena Paixão, explica que este comportamento “descreve situações em que uma pessoa ignora ou interrompe a interação com alguém para se concentrar no telemóvel”. No contexto amoroso, de um casal, o phubbing acontece quando o telefone passa a ocupar sistematicamente o espaço que deveria estar a ser partilhado pelos dois. “Não é preciso estar uma hora ao telemóvel. Às vezes, são pequenos momentos repetidos que transmitem a mensagem ‘o que está naquele ecrã merece mais atenção do que aquilo que está a acontecer aqui’”, afirma a psicóloga.

Phubbing: a origem
O termo phubbing resulta da combinação das palavras inglesas phone (telemóvel) esnubbing(ignorar).
Segundo Helena Paixão, surgiu para descrever uma realidade que se tornou cada vez mais comum com a generalização dos smartphones: estarmos fisicamente próximos de alguém, mas psicologicamente noutro lugar. No fundo, como explica a especialista, “é uma palavra recente para um comportamento que levanta uma questão bastante antiga nas relações: a quem estamos realmente a dar atenção quando estamos com alguém?”
Consulta pontual vs. phubbing
O objetivo não é demonizar o telemóvel. “Todos precisamos dele e existem situações em que temos de responder a uma mensagem, atender uma chamada ou tratar de alguma coisa”, afirma a especialista. O que distingue o phubbing de uma consulta pontual é a frequência, o padrão e o impacto na relação.
Uma consulta pontual não significa desatenção. Mas o uso do telemóvel pode tornar-se um problema quando interfere repetidamente na disponibilidade que temos para o outro e se torna difícil estar numa interação sem verificar o ecrã.
Se tem estes comportamentos, pode estar a fazer phubbing
Há comportamentos que fazemos no dia a dia sem sequer nos apercebemos, mas que são considerados phubbing. Helena Paixão destaca os seguintes:
- Interromper constantemente uma conversa para verificar as notificações;
- Olhar para o telemóvel enquanto o parceiro está a falar;
- Pegar no telefone durante uma refeição a dois;
- Continuar a fazer scroll enquanto o outro tenta iniciar uma conversa.
Existem outros, que apesar de mais subtis, também são considerados phubbing, como estar sempre com o telefone na mão, colocar o aparelho em cima da mesa durante momentos de intimidade ou verificar repetidamente o ecrã sem existir uma necessidade concreta.

De manhã à noite
Há momentos mais propícios a este comportamento. A psicóloga afirma que acontece sobretudo “nos momentos de transição e de espera”. Ou seja, durante as refeições, antes de dormir, quando os dois chegam a casa, enquanto veem televisão ou quando estão simplesmente sentados juntos.
Quando nos sentimos desvalorizados e rejeitados
A atenção é uma das formas através das quais comunicamos importância. “Quando alguém nos olha, escuta e está presente, recebemos sinais de que aquilo que estamos a dizer importa”, explica a psicóloga.
Logo, quando somos constantemente interrompidos por um telefone, interpretamos esse comportamento como falta de interesse e sentimo-nos rejeitados, mesmo que essa não seja a intenção do parceiro.

Contrarie este comportamento
Contrariar este comportamento pode ser difícil, principalmente quando a pessoa não tem consciência do que está a fazer. Nestes casos, Helena Paixão aconselha a começar por uma conversa sobre este comportamento, sem a transformar num momento de acusação.
Importa também evitar uma lógica de “tudo ou nada”. O objetivo não precisa de ser ter uma relação “perfeita” com o telemóvel, mas sim perceber em que momentos o telefone está a ocupar um espaço que o casal gostaria de ter apenas para si.
É também importante diferenciar se está a usar o telemóvel porque precisa mesmo dele ou porque não consegue estar realmente presente. “A resposta nem sempre será óbvia, mas começar a reparar já é uma mudança importante”, diz.

Pequenas mudanças, grandes impactos
Existem pequenas mudanças que podem demonstrar genuína atenção. A psicóloga Helena Paixão deixa-lhe sete:
- Ter uma refeição sem telemóveis;
- Perguntar “como correu o teu dia?” (e ouvir a resposta);
- Não usar o telefone enquanto o outro está a contar alguma coisa importante
- Fazer uma caminhada juntos;
- Criar dez minutos antes de dormir sem ecrãs;
- Tomar café juntos ao fim de semana;
- Estabelecer o hábito de, quando um chega a casa, os primeiros minutos serem para o encontro entre os dois;
“Não precisam de ser gestos grandiosos, basta serem gestos que demonstrem genuína atenção. Estes são pequenos espaços de atenção de qualidade que, de forma repetida, ajudam a construir proximidade e cumplicidade”, conclui a especialista.