Tecnologia

Há crianças que já perguntam ao ChatGPT se é seu amigo

Num mundo onde a tecnologia é omnipresente, o simples saber ler e escrever passa por conseguir usá-la de uma forma eficaz, crítica e, acima de tudo, segura.

Untitled-7 Untitled-7 Untitled-7
Há crianças que já perguntam ao ChatGPT se é seu amigo Há crianças que já perguntam ao ChatGPT se é seu amigo
©Freepik
Escrito por
Set. 30, 2026

Setembro. O mês em que as crianças regressam às escolas e em que os pais enfrentam, também eles, novos desafios: o acompanhamento e a adaptação dos filhos a novas escolas/professores/disciplinas; o gerir rotinas; o tentar minimizar o impacto do stresse diário; a manutenção da motivação em alta. Atualmente, há mais um desafio a acrescentar a todos estes: a introdução da tecnologia (com a qual as gerações atuais já nascem) de forma a que seja uma aliada e não mais um elemento disruptivo (ou até um perigo). É precisamente aqui que entra a necessidade da literacia digital que, como tudo na vida, deve ser (bem) ensinada por quem tem as ferramentas certas para o fazer.

Bons hábitos digitais

Jéssica Ferreira, 31 anos, é head of social media e co-fundadora da Just Waves (justwaves.pt), uma agência de marketing digital especializada em redes sociais, influência e tendências digitais. A empresa desenvolveu o Projeto de Literacia Digital nas Escolas com um objetivo simples: “Preparar crianças e jovens para viver num mundo cada vez mais digital. Vivemos rodeados de tecnologia e as redes sociais, os videojogos, a inteligência artificial e os dispositivos digitais fazem parte do quotidiano das crianças desde muito cedo. O nosso objetivo não é afastá-las desta realidade, mas ajudá-las a compreendê-la, a utilizá-la com consciência e a desenvolver hábitos digitais saudáveis”, explica Jéssica.

“Para a Just Waves, literacia digital é dar às crianças e aos jovens ferramentas para compreenderem o mundo digital onde já vivem. Queremos que saibam pensar antes de clicar, questionar antes de acreditar e perceber que a tecnologia deve ser uma aliada, nunca um substituto da criatividade, das relações humanas ou do pensamento crítico. Não queremos proibir ecrãs nem criar medo em torno da tecnologia. Queremos ensinar a utilizá-la com equilíbrio, responsabilidade e autonomia. Ao longo das sessões, repetimos muitas vezes uma ideia simples: a tecnologia deve facilitar a nossa vida, mas nunca viver por nós.”

Precisamente porque trabalha na área – e é mãe –, Jéssica Ferreira sabe o impacto que as plataformas digitais têm na forma como comunicamos e vivemos. “Foi esse conhecimento que nos levou a criar este projeto. Sentimos que, enquanto profissionais da área, também temos a responsabilidade de contribuir para uma utilização mais consciente da tecnologia junto das gerações mais novas. Queremos trabalhar lado a lado com as escolas e com as famílias para formar crianças e jovens preparados para aproveitar o melhor do digital sem perderem a capacidade de pensar, criar e relacionar-se».

Ensino complementar

Já não basta ir à escola aprender a ler e escrever. Quando entram na equação do ensino players tão desafiantes como a inteligência artificial, há que capacitar os alunos com formas eficazes de os utilizarem em seu benefício. O processo de levar a literacia digital às escolas é simples: “O primeiro passo passa por apresentar o projeto às escolas, associações de pais, câmaras municipais e outras entidades que trabalham diariamente com crianças e jovens, como ATL, centros de estudo ou instituições educativas”, relata Jéssica, “Depois de uma primeira reunião com a direção e os professores, adaptamos o programa à realidade de cada comunidade educativa. Embora exista uma estrutura base, acreditamos que cada escola tem desafios próprios e faz sentido que as sessões respondam às necessidades concretas dos seus alunos. Numa fase inicial desenvolvemos três módulos, que para nós são fundamentais: Higiene Digital; Inteligência Artificial; Segurança Online. Antes de iniciarmos as sessões, fazemos um questionário aos alunos para perceber quais são os seus hábitos digitais tanto em contexto escolar como em casa. Essa informação ajuda-nos a preparar conteúdos mais próximos da realidade de cada turma. As sessões decorrem, regra geral, uma vez por mês, turma a turma. Privilegiamos grupos pequenos, com cerca de 20 alunos, para que todos tenham espaço para participar, colocar questões e partilhar as suas experiências”, remata Jéssica Ferreira.

Idade digital?

O programa da Just Waves destina-se essencialmente a crianças e jovens dos 6 aos 14 anos (embora possa ser adaptado para adolescentes mais velhos), mas há uma questão (essencial e polémica) que muitos pais colocam: qual é a idade certa para dar acesso às crianças ao mundo digital? E como ajudá-las a lidar com a pressão social dos seus pares no que diz respeito à tecnologia? Mais: como adiar a introdução dos gadgets digitais na vida dos nossos filhos conseguindo que eles não nos odeiem por isso? Marta Braga, fundadora e responsável de comunicação da agência O Editorial, tem uma filha de quase 12 anos. É opinião dela e do pai da filha que, “quanto mais tarde a nossa filha tiver smartphone e redes sociais, melhor será para ela. Está mais do que provado, e há vários especialistas a falar no assunto, que os smartphones e redes sociais são mais prejudiciais do que benéficos nestas idades. Claro que passar um telemóvel para a mão de um filho é um descanso, porque eles podem ficar agarrados àquilo horas e horas, ao invés de estarem de cinco em cinco minutos a solicitar a atenção dos pais. Dá trabalho, mas preferimos fazê-lo a dar um smartphone para as mãos da nossa filha. Ela tem Whatsapp com as amigas através do meu telefone; se quiser fazer videochamadas, faz através do meu”.

©Freepik

Uma opção corajosa numa era em que a pressão digital é gigante. De todas as suas amigas e colegas, só ela e outra têm telefone de teclas, o resto tem tudo smartphones e muitas já têm Instagram. Muitas vezes pergunta-nos quando é que pode ter um smartphone. Nós dizemos que achamos que os smartphones na idade dela não são benéficos, que os vídeos de Instagram e TikTok são ultraestimulantes e que, neste momento, ela tem de descobrir o mundo de outra forma que não seja através do telemóvel e das redes sociais”. Mas será, então, que há uma idade certa para o batismo digital? “Não acreditamos que exista uma idade universal”, afirma Jéssica Ferreira. “Cada criança tem o seu ritmo, a sua maturidade e um contexto familiar diferente. Mais importante do que perguntar ‘quando’ é perguntar ‘como’. A tecnologia deve ser introduzida de forma gradual, acompanhada, e de uma forma adequada à idade. O essencial é que existam regras claras, diálogo e momentos em que a criança continua a brincar, criar, explorar e relacionar-se fora dos ecrãs.”

Nova Era, nova literacia

Independentemente da decisão de cada família em relação ao momento indicado de livre acesso à tecnologia, a verdade é que ela está omnipresente na vida das crianças desde tenra idade. É por isso que Jéssica é da opinião que “da mesma forma que hoje reconhecemos a importância da literacia financeira ou da educação para a cidadania, acreditamos que a literacia digital deve fazer parte do percurso escolar das crianças e dos jovens. Eles nasceram num mundo onde a tecnologia faz parte da rotina desde muito cedo, uma vez que utilizam redes sociais, têm acesso a video jogos, plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial antes mesmo de compreenderem como estas funcionam ou que impacto podem ter nas suas vidas”.

Os exemplos disso sucedem-se: “durante uma das nossas sessões, por exemplo, ouvimos alunos do 3.º ano dizerem que recorriam ao ChatGPT para fazer os trabalhos de casa ou para procurar respostas rápidas sem questionarem a informação recebida ou procurarem outras fontes. Isto demonstra que a tecnologia está presente na aprendizagem, mas nem sempre existe pensamento crítico na forma como é utilizada. Mais do que ensinar a utilizar ferramentas digitais, é essencial ensinar a pensar sobre elas”.

Outro aspeto interessante é perceber o que significa para as crianças terem este apoio: “a reação tem sido extremamente positiva. As crianças participam muito, gostam de conversar connosco e acabam por partilhar situações do seu dia a dia que, muitas vezes, nunca tinham verbalizado em contexto escolar. Criam rapidamente uma relação de confiança, o que torna as sessões muito ricas.

©Freepik

No final de cada módulo, deixamos sempre uma pequena missão para fazer até ao encontro seguinte. Quando regressamos, começamos por recordar o que foi aprendido e percebemos que muitos dos conceitos foram realmente assimilados”. Para os professores, e para as escolas de uma forma geral, também é uma aprendizagem: “também temos recebido um excelente feedback por parte das escolas. Alguns professores participam ativamente nas dinâmicas, outros preferem observar, mas todos reconhecem a importância destes temas. Em vários momentos conseguimos, inclusivamente, identificar situações que passaram a ser acompanhadas pela escola, desde dificuldades relacionadas com redes sociais até crianças que já utilizavam ferramentas de inteligência artificial de forma demasiado avançada para a sua idade“.

Autodefesa

Mais do que assustar em relação aos perigos inerentes ao uso da tecnologia (que existem efetivamente), trata-se de ajudar a entender com a missão de evitar a criação de dependência ou a incapacidade de distinguir o certo e o errado no universo digital. “A inteligência artificial representa uma enorme oportunidade, mas também levanta desafios que não podemos ignorar. Nas escolas percebemos que muitas crianças já recorrem a estas ferramentas de forma muito natural. Algumas utilizam-nas para estudar e houve até quem nos contasse que perguntava ao ChatGPT se era seu amigo ou se gostava dela. Esta foi uma das situações que mais nos marcou. Ao longo das sessões, ouvimos crianças dizerem que recorrem à tecnologia porque se sentem sozinhas, frustradas, zangadas ou tristes. Em vez de procurarem um amigo, um adulto ou um professor, refugiam-se nos dispositivos tecnológicos porque encontram ali uma resposta imediata ou alguém com quem falar”. E é aí que o perigo se esconde: “isto mostra-nos que a tecnologia já não está apenas ligada ao entretenimento ou à aprendizagem. Em muitos casos, está também a ocupar o espaço das relações humanas e da gestão das emoções“, remata Jéssica.

Marta Braga concorda: “quero acreditar que daqui a uns anos vamos olhar para trás e pensar que perdemos tempo demais em frente a um ecrã. É óbvio que eu e o pai da minha filha temos redes sociais e smartphones, mas cada vez passamos menos tempo nelas. Fomentamos a leitura em papel (sempre em papel) e é tão mais “descansativo”… Se há coisa que me entristece é ver a forma automatizada como as pessoas lidam com os seus telemóveis, não conversam uns com os outros porque estão agarradas a sabe-se lá o quê. Os transportes públicos são um bom exemplo: ninguém lê, ninguém troca dois dedos de conversa com a pessoa da frente… as pessoas estão ali com os seus telemóveis, mas não estão. É triste. Quero acreditar que o futuro vai ser diferente, que vamos continuar a usar smartphones mas sem esta dependência doentia”.

Em jeito de conclusão, Jéssica Ferreira refere que “há outro aspeto que valorizamos imenso: muitas vezes são as próprias crianças que acabam por levar estas aprendizagens para casa. Costumamos dizer-lhes que os adultos também podem aprender com as crianças, porque a literacia digital é um desafio de todas as gerações“. Porque, como em tudo, as respostas mais fortes são as encontradas na harmonia.

Últimos