A forma como aprendemos, ainda bebés e ao longo da nossa vida, a confiar ou a desconfiar de quem cuida de nós influencia a forma como nos permitimos, mais tarde, entregar (ou não) à experiência erótica.
Na verdade, a experiência erótica acontece num espaço psicológico e relacional que é partilhado, e, desta forma, coloca em interação dois cérebros, dois funcionamentos, dois mundos relacionais, dois modelos operatórios internos (como se este fosse o nosso software relacional onde vivem as nossas representações mentais), definindo a partir daqui a qualidade das experiências íntimas e eróticas.
A ciência veio a demonstrar que o nosso sistema de vinculação, construído nos primeiros anos de vida, continua ativo décadas mais tarde no desejo, na sexualidade, na intimidade, na cama, no meio de um beijo, no momento em que o corpo devia simplesmente entregar-se ao prazer.
Duas necessidades, um só corpo
O amor e desejo não são a mesma coisa. São dois sistemas diferentes dentro de nós, cada um com a sua função. Um empurra-nos para a proximidade e a segurança, impulsionando-nos para a necessidade de colo, conforto, uma mão que aperte a nossa quando temos medo. O outro, empurra-nos para o desejo, o prazer e a atração física, acendendo-se perante um rosto atraente, um cheiro sensual, um gesto atrevido.
Estes dois sistemas (o sistema de vinculação e o sistema sexual) funcionam em separado, explicando porque existe desejo sem amor e amor sem desejo intenso. Mas na relação de casal, os dois sistemas partilham o mesmo palco, onde interatuam. Ou seja, na intimidade. E é aí que a história de cada um de nós, construída desde o primeiro dia da nossa vida, dependendo da forma como fomos aprendemos a sentir segurança ou a temer a proximidade, pode interferir com o desejo sexual.
O interruptor invisível
O encontro com o nosso objeto de desejo ativa automaticamente o nosso modelo operatório interno. Assim, e tendo em conta o conteúdo destes modelos e suas representações, o resultado consiste na ativação ou desativação/inibição do desejo face à percepção de ameaça ou perigo. Deste modo, quando o sistema de vinculação está relaxado e calmo, o sistema de exploração é ativado. Surge espaço e segurança para explorar, descobrir o próprio corpo e o do outro, entregarmo-nos ao prazer.
A conexão à pessoa parceira, assim como o toque, tende a regular-nos emocionalmente e a proporcionar uma intensificação do desejo e do prazer. Desta forma, quando os modelos internos remetem para experiências de resposta sensível e de segurança, o sistema de vinculação entra em ação e potencia o sistema sexual, atuando em sinergia com este. Dá origem a uma ativação emocional positiva, favorável ao bem-estar na intimidade, à capacidade de entrega às sensações de prazer e à sensibilidade face ao estado emocional do outro.
Pelo contrário, perante uma percepção de ameaça e perigo (como a desconexão emocional num relacionamento), o sistema de vinculação tende a ficar ativado, de modo a organizar-se o comportamento necessário (ativação ou inibição), como forma de alcançar a conexão emocional necessitada ou a restaurar o sentimento de segurança e paz. Se o sistema de vinculação não encontra uma resposta de segurança e de conforto emocional, tende a ocorrer uma reação, como protestos sob a forma de zanga (reatividade emocional como crítica, por exemplo) ou inibição e silêncio (evitamento, como por exemplo, inibição do desejo ou não conseguir entregar-se ao prazer).
Ou seja, diante de uma ameaça, a exploração cessa, o sistema de cuidados diminui e o sistema sexual desliga-se. Quando os modelos internos remetem para experiências de perigo, desproteção, ameaça, falta de suporte ou insensibilidade por parte das figuras de vinculação, o sistema de vinculação interfere seriamente com o sistema sexual, dando origem a uma ativação negativa. Ou seja, a ansiedade decorrente da vigilância face ao medo, real ou imaginado, de abandono ou de perda, conduziria à inibição da resposta do sistema sexual.
Imagine o desejo como um interruptor que só se sente confortável para ser ligado quando o ambiente à sua volta é lido e interpretado como seguro. Não é a situação em si que decide se é efetivamente seguro, é a leitura que cada pessoa faz dela, moldada por tudo o que viveu ao longo da sua história vincular, nas relações românticas anteriores ou mesmo na dinâmica relacional presente.
Se, ao longo da vida, aprendeu que aproximar-se de alguém costuma trazer acolhimento, esse interruptor liga-se com facilidade. A proximidade do parceiro é sentida como um convite, não como um risco, permitindo o corpo relaxar o suficiente para se entregar ao prazer. Mas se aprendeu, muitas vezes sem se aperceber, que a proximidade traz deceção, ausência, negligência, desamparo ou até rejeição, esse mesmo interruptor tende a desligar-se precisamente nos momentos em que a intimidade é mais intensa. Não por falta de atração física ou nem por falta de amor, não por qualquer “avaria” do corpo, mas porque uma parte de nós, mais antiga, está habituada a estar ocupada a vigiar sinais de perigo relacional.
Três formas de viver a intimidade
A intimidade poderá ser sentida por uma pessoa como refúgio seguro e por outra como ameaça. Neste sentido, o mesmo estímulo erótico pode produzir efeitos opostos consoante o padrão de vinculação de cada individuo.
• Padrão de vinculação inseguro ansioso
A pessoa apresenta um modelo de si negativo, observando-se de forma insegura, ativando o seu estado de hipervigilância, antecipando sinais de desaprovação ou de rejeição e condicionando manifestações de ansiedade antecipatória ou ansiedade de desempenho. Esta vigilância, quase sempre inconsciente, funciona como um ruído de fundo que impede o relaxamento necessário para se entregar por completo ao momento. Há excitação, há orgasmo, mas permanece uma sensação de insatisfação. Não é o corpo que falha, é a mente que nunca desliga completamente o alarme, dificultando a entrega ao prazer. Os parceiros com padrão de vinculação inseguro ansioso tendem a focar-se nos aspetos do vínculo e do afeto face ao contacto sexual, diminuindo a relevância da experiência erótica.
• Padrão de vinculação inseguro evitante
A proximidade emocional exigida pela intimidade é vivida como ameaçadora (não o sexo), pelo que o desejo tende a satisfazer-se através da desconexão das emoções face à ligação emocional ou sexual. É frequente que prefiram situações onde o compromisso é menor e, portanto, se sintam mais seguros e confortáveis em situações de sexo casual, comercial ou que recorram mais à masturbação, do que a uma intimidade partilhada. Não por falta de desejo, mas porque essa é uma forma de prazer que não exige entregar-se emocionalmente a outra pessoa.
• Padrão de vinculação inseguro desorganizado
A pessoa deseja a proximidade, mas teme-a ao mesmo tempo e com intensidade. Traz em si um sentimento de ódio pessoal, tornando-se controlador, dominador e, alternadamente, sentindo-se inadequado e fraco. Um movimento de entrega intensa, pode ser seguido de um recuo e fechamento brusco.
• Padrão de vinculação seguro
A intimidade é percebida como espaço confortável, seguro e protegido, o que possibilita o sistema de exploração — exploração do próprio corpo e das suas possibilidades eróticas, como do corpo do outro, entregando-se segura e calmamente às sensações do prazer sexual e à perda de controlo, próprias do orgasmo, sem que a proximidade psicológica exigida pelo encontro erótico seja vivida como ameaço. Uma vinculação segura facilita o relaxamento e a ligação confiante e segura diante do sexo. Tende a comunicar mais abertamente, expressar as suas necessidades mais facilmente, tende a ser mais empático, responsivo em relação à pessoa parceira, a explorar a proximidade física e emocional dentro e fora do sexo.
O que fazer com esta informação?
O objetivo passaria por permitir o casal compreender o seu ciclo de interação negativo em termos sexuais, a sua insegurança e o seu distanciamento como sendo o problema, de forma a estabilizar a relação e reprocessar experiências sexuais negativas, obtendo maior segurança, para então ser possível o casal explorar as experiências emocionais e permitir-se entregar a uma nova dança erótica e sensual, onde ambos os parceiros são emocionalmente mais abertos, ligados e responsivos mutuamente, indo ao encontro das necessidades de vinculação e sexuais de cada um dos elementos.
Desta forma, o casal estaria mais habilitado para arriscar interações onde se permitem partilhar e ser um lugar seguro para o outro, redefinindo o seu vínculo de forma mais segura, assim como fomentar o desejo e alcançar uma nova sincronia da resposta sexual. A reparação do vínculo e a perceção da sua segurança permitiria desbloquear as respostas de ansiedade e de inibição e restaurar as condições de segurança. Assim sendo, podemos concluir que encontros sexuais mais satisfatórios e prazerosos tendem a melhorar o vínculo do casal, assim como vínculos mais seguros fomentam o desejo e uma sexualidade mais prazerosa do casal.
Sugiro que o conhecimento não funcione como uma justificação que nos paralisa e abstém de evoluir. Desta forma:
- Observe sem julgar. Da próxima vez que sentir o desejo a desaparecer num momento de intimidade, observe o que se passa internamente. É vigilância? É vontade de fugir? É medo de não estar à altura Nomear a sensação já é um primeiro passo.
- Fale sobre o que sente. É muito diferente dizer “já não tenho desejo por ti” e dizer “sinto que quando estamos próximos fico com medo de não conseguir corresponder ao que esperas de mim”. A segunda frase abre espaço para acolhimento. Pelo contrário, a primeira, muitas vezes, fecha portas.
- Construa segurança fora do quarto. A capacidade de se entregar ao prazer não nasce apenas no momento do sexo. Constrói-se em todos os outros momentos em que um casal aprende que pode confiar um no outro. Pequenos gestos de presença, de resposta emocional consistente, de reparação depois de um conflito, vão, com o tempo, ensinando o sistema de vinculação que aquela relação é um porto seguro. Não esquecer que o cérebro é um dos maiores órgãos sexuais do nosso corpo!
- Não confunda desejo hipoativo com falta de amor. Como vimos, muitas vezes é precisamente o contrário: é porque a relação importa, e por isso a proximidade pesa mais, e o alarme dispara com mais facilidade.
- Considere ajuda profissional se o padrão persistir. A psicoterapia individual, a terapia de casal e a terapia sexual ajudam a reconstruir a sensação de segurança na intimidade, o que, por si só, tende a destravar o desejo. A segurança emocional constrói-se aos poucos, através de repetição. Cada momento em que a proximidade não trouxe o perigo antecipado vai, devagar, reescrevendo essa aprendizagem antiga.
- Evite transformar o desejo num teste de amor. Torna-se importante para o casal conhecer o seu ciclo relacional e sexual para trazer para a relação aquilo que o sistema nervoso da pessoa parceira precisa precisamente de sentir: segurança emocional.
Uma forma diferente de olhar para o desejo
O desejo não é apenas um interruptor biológico, ligado à testosterona, ao cansaço ou à rotina. É também, e sobretudo nas relações duradouras, um espelho da forma como confiamos nos outros, a estar e a ser nas relações e nos vínculos que construímos. Na verdade, não nos podemos esquecer que a sexualidade também é um comportamento de vinculação. A intimidade não é o problema. Na verdade é, muitas vezes, precisamente o caminho necessário, através do qual a história de segurança nos vínculos poderá ser reescrita dentro de cada um de nós.


