A desatenção, a impulsividade, as dificuldades de organização e a regulação emocional são comportamentos comuns quando se fala de PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção) em adultos. Além do impacto no trabalho, esta perturbação afeta também as relações, principalmente a sexualidade — uma área que continua a ser pouco abordada.
A PHDA, tal como acontece em outras áreas da vida, também pode ter impacto na vida sexual. “Uma pessoa com PHDA pode sentir desejo pelo parceiro e, mesmo assim, distrair-se durante uma relação sexual. Pensamentos, preocupações, ruídos ou outros estímulos podem desviar a atenção do que está a acontecer naquele momento”, explica Cátia Silva, psicóloga.

Isto não significa que todas as pessoas com PHDA tenham dificuldades nesta área, mas alguns estudos recentes referem que a dificuldade em manter a atenção nos estímulos sexuais pode dificultar a excitação e o orgasmo. Esta distração pode ser interpretada pelo parceiro como falta de interesse, afetando a relação.
O desejo sexual
Na PHDA, o desejo sexual também não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas.
A investigação descreve tanto situações de desejo sexual reduzido e aversão sexual como comportamentos hipersexuais. Ou seja, a PHDA não está associada apenas a “mais desejo” ou a “menos desejo”. É importante, no entanto, não confundir desejo sexual elevado com hipersexualidade. Ter um desejo sexual elevado, por si só, não significa que exista um problema.
A impulsividade
Outra característica da PHDA que merece atenção quando falamos de sexualidade é a impulsividade. Segundo Cátia, a investigação encontrou, em alguns estudos, um início mais precoce da atividade sexual e um maior número de parceiros sexuais em pessoas com PHDA. Quanto ao uso de contraceção, os resultados não são consistentes.
Porém, isto não significa que uma pessoa com PHDA tenha necessariamente comportamentos sexuais de risco. “A própria investigação identifica outros fatores que podem contribuir para estas associações, como o consumo de substâncias e problemas de comportamento”, reforça a psicóloga.
Pode ajudar…
Conhecer as dificuldades é importante mas, por si só, não é suficiente. Segundo a psicóloga, existem estratégias que podem ajudar a pessoa com PHDA e os seus parceiros a lidar melhor com algumas delas:
- Reduzir distrações durante a relação sexual pode ser útil quando a atenção é uma dificuldade. Desligar a televisão, afastar o telemóvel ou escolher um momento com menos cansaço e preocupações pode facilitar a atenção aos estímulos sexuais.
- Falar sobre a distração com o parceiro ou parceira também é importante. Se a perda de foco for interpretada como falta de desejo, podem surgir sentimentos de rejeição ou conflitos na relação. Explicar o que acontece pode ajudar a evitar estas interpretações.
- Perceber o que facilita a atenção e a excitação também pode fazer diferença. Não existe uma estratégia que funcione para todas as pessoas com PHDA. É importante perceber o que funciona para cada pessoa e para cada casal.
- Falar sobre alterações do desejo sexual. Quando existe uma diferença significativa entre o desejo de cada elemento do casal, evitar o assunto tende a aumentar o conflito. É importante perceber se existem alterações recentes, em que contextos acontecem e se provocam sofrimento ou dificuldades na relação.
- Antecipar decisões relacionadas com proteção e contraceção pode ser particularmente útil quando existe maior impulsividade. Algumas decisões podem ser tomadas antes do momento sexual, o que reduz a necessidade de decidir no próprio momento.
- Avaliar outras causas quando existem dificuldades sexuais persistentes é fundamental. Nem tudo é explicado pela PHDA. Ansiedade, depressão, autoestima, imagem corporal, qualidade da relação, experiências anteriores, medicação ou condições médicas também podem interferir com o desejo e com o funcionamento sexual.