Há histórias que nos obrigam a fazer perguntas para as quais não temos respostas simples. Quando surgem notícias de uma mãe que matou ou tentou matar um filho, a reação é quase sempre a mesma: choque, incompreensão e julgamento. Questionamos como pode uma mãe chegar a esse ponto e procuramos uma explicação para um comportamento que nos parece impossível de compreender.
O caso de Lindsay Clancy, nos Estados Unidos, acusada de matar os três filhos e cuja defesa alega que sofria de psicose pós-parto, voltou a colocar a saúde mental materna no centro das atenções e tornou-se um dos temas mais discutidos nas redes sociais nas últimas semanas. O caso trouxe ao de cima uma realidade pouco compreendida, de que maternidade pode ser, em algumas situações, acompanhada por problemas graves de saúde mental e até por uma perda de contacto com a realidade.
“De acordo com a Organização Mundial da Saúde, estima-se que cerca de 13% das mulheres que acabaram de ter um filho apresentam uma perturbação mental, sobretudo depressão. Dados mais recentes, da mesma organização, referem ainda que uma em cada cinco mulheres pode experienciar depressão ou ansiedade no período pós-natal”, explica Cátia Silva, psicóloga especializada em ansiedade, depressão, burnout e luto.
Baby blues, depressão ou psicose?
Nem todas as alterações emocionais depois do parto significam depressão. O baby blues, por exemplo, é bastante comum nos primeiros dias e pode traduzir-se em maior sensibilidade, choro, irritabilidade e alterações de humor. É uma fase transitória que, normalmente, desaparece por si só. A depressão pós-parto é diferente.
Quando a tristeza, a ansiedade, a culpa, a sensação de incapacidade ou a perda de interesse e prazer se prolongam e começam a interferir com a vida quotidiana, é importante procurar ajuda. Algumas mulheres podem ainda sentir dificuldade em estabelecer uma ligação emocional com o bebé ou ter pensamentos como “não consigo fazer isto”, “não sou boa mãe” ou “o meu bebé estaria melhor sem mim”. Em casos ainda mais graves, podem surgir sentimentos intensos de desesperança e pensamentos relacionados com o suicídio.
Existe ainda outra condição que precisa de ser diferenciada da depressão: a psicose pós-parto. Uma emergência psiquiátrica que pode surgir de forma rápida, muitas vezes nas primeiras semanas após o nascimento, e provoca delírios, alucinações, confusão, alterações acentuadas do humor, comportamento desorganizado e perda de contacto com a realidade. Perante estes sinais é necessária avaliação psiquiátrica urgente.
Mas como pode uma mulher chegar a um estado psicológico tão grave? Não existe uma só causa. Segundo a psicóloga, as “alterações hormonais depois do parto, uma história anterior de depressão, ansiedade, perturbação bipolar ou outros problemas de saúde mental” podem contribuir para este estado psicológico. Também “um parto traumático, dificuldades financeiras ou conjugais, isolamento e ausência de uma rede de suporte” podem aumentar a vulnerabilidade, alerta Cátia Silva.
A que sinais devemos estar atentos?
Nem sempre é fácil perceber quando uma mulher está apenas cansada e quando existe um problema que precisa de acompanhamento. Há, no entanto, sinais que não devem ser normalizados.
- A mãe consegue dormir quando tem oportunidade?
- Faz as refeições normais e toma banho?
- Consegue sair de casa sozinha?
- A mãe chora frequentemente?
- Sente-se capaz de cuidar do bebé ou tem medo de ficar sozinha com ele?
- O seu discurso ou comportamento mudaram de forma significativa?
“Um companheiro, uma mãe, uma irmã ou uma amiga não têm de saber fazer um diagnóstico. Mas podem saber que determinadas alterações exigem ajuda profissional. Também é importante criar condições para que uma mãe possa dizer “não estou bem” sem sentir que essa frase coloca em causa o amor que sente pelo filho ou a sua capacidade enquanto mãe”, salienta Cátia Silva.
Falar sobre saúde mental materna não significa procurar uma explicação para todos os comportamentos, nem retirar responsabilidades a quem comete um crime. Significa perceber que existem doenças que podem surgir neste período e que, quando identificadas atempadamente, podem ser tratadas.
Talvez seja por isso que, perante histórias como a de Lindsay Clancy, a pergunta não deva ser apenas “como é que uma mãe foi capaz de fazer isto?” mas também questionar “o que aconteceu antes?”; “existiram sinais?”; “teve acesso a acompanhamento psicológico ou psiquiátrico?”. Porque a saúde mental materna não começa nem termina no parto.
