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Judith Duportail explica como realmente funciona o Tinder. "É perturbador"

Estivemos à conversa sobre os desafios dos relacionamentos na era do Tinder com a jornalista francesa, que partiu da sua própria experiência para investigar esta aplicação de encontros e a forma como influencia o comportamento dos seus utilizadores.

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Judith Duportail explica como realmente funciona o Tinder.
© CHLOE DESNOYERS
Rita Caetano
Escrito por
Nov. 11, 2019

Em 2013, inscreveu-se no Tinder; quatro anos e 876 matches depois, pediu à aplicação de encontros para lhe enviarem toda a informação recolhida sobre ela.

Para seu espanto, recebeu 800 páginas e nelas desfilavam os likes do Facebook, os amigos que tinha nessa rede social, os matches que conseguiu no Tinder, as 1700 mensagens que trocou enquanto esteve inscrita nesta aplicação, ou seja, estava lá tudo, incluindo coisas que Judith Duportail não se recordava.

Isto e o facto de ter descoberto que o Tinder tem um ranking de classificação para os seus utilizadores, deu origem, em 2017, a uma reportagem publicada no The Guardian e, em março deste ano, ao livro L’Amour Sous Algorithme (Goutte d’or), onde a jornalista analisa, sem pudores, a sua passagem pela aplicação, mas também a forma como esta funciona e como está a mudar os relacionamentos.

Entrevista com Judith Duportail

Por que razão decidiu escrever o livro L’Amour Sous Algorithme?

Inscrevi-me no Tinder à procura de encontros como qualquer outra pessoa, mas um dia li numa entrevista que a aplicação atribui uma classificação aos utilizadores, chamada Elo. E isso irritou-me por diferentes razões.

Primeiro, porque as mulheres estão constantemente a serem avaliadas de acordo com a aparência, quantas vezes entramos num local e, mesmo antes de falarmos, as pessoas já nos avaliaram só pela nossa cara e corpo. Depois, fez-me lembrar quando estava na escola secundária e um rapaz me classificou como um cinco em dez. Posto isto, decidi saber mais sobre o Elo.

O que mais me chocou ao ler estes documentos, é que mulheres e homens não são avaliado da mesma maneira.
Judith Duportail Judith Duportail

Mas esse ranking vai além da parte física…

O que descobri durante a minha investigação é que é um sistema de avaliação bastante sofisticado, ou seja, é resultado da avaliação física, mas também nível de salário, inteligência, escolaridade e chegam a esses dados através da informação que mostramos, por exemplo, no Facebook. O Tinder recolhe a informação, avalia os nossos interesses, a maneira como escrevemos, as nossas mensagens e define a nossa inteligência a partir disso.

O que mais me chocou ao ler estes documentos, é que mulheres e homens não são avaliados da mesma maneira. Os homens com níveis superiores de educação e dinheiro têm pontos extra; já as mulheres na mesma situação têm pontos negativos. O objetivo é criar matches, nos quais o homem seja superior à mulher, seja mais rico, tenha mais estudos e seja mais velho.

Portanto, estamos perante uma aplicação que se diz moderna, mas assente em valores tradicionais e até machistas…

Sim, e isso é perturbador. Cria uma sociedade não só superficial, mas também sexista e misógina.

Quando decidiu pedir os dados que o Tinder tinha recolhido sobre si, recebeu 800 folhas de informação. Podemos dizer que o Tinder a conhecia melhor do que se conhecia a si própria?

Nas 800 folhas que recebi, estavam todas as minhas conversas, todos os meus matches e, na altura se me tivessem perguntado com quantas pessoas tinha falado, diria 40 ou 50 e, na realidade, falei com 870. No Tinder, conhecem-se pessoas muito rapidamente e a criação da memória é muito diferente da descrição robótica do tudo o que se escreve.

Ter acesso a toda aquela informação foi um choque de realidade sobre como eu era na aplicação e como me tinha tornado viciada na massagem ao ego que o Tinder promove. Portanto, a aplicação conhecia-me bastante bem e até me mostrou coisas de mim que eu desconhecia.

Qualquer pessoa pode pedir essa informação?

De acordo com a nova lei europeia de proteção de dados, todas as pessoas podem pedir, mas é difícil ter acesso a tudo.

Os relacionamentos requerem tempo e nas aplicações de encontros não há tempo.
Judith Duportail Judith Duportail

Qual é a maior consequência das aplicações de encontros para as relações?

Homens e mulheres têm experiências diferentes nas aplicações e isso gera ressentimentos entre os dois géneros: elas recebem muitas mensagens, algumas de cariz sexual, rudes e desrespeitosas; eles são os primeiros a iniciar as conversas e em troca recebem inúmeros silêncios e são rejeitados muitas vezes.

Quando finalmente começam a falar uns com os outros, já estão exaustos ou cansados e estão muito na defensiva. Isto faz com que se torne cada vez mais difícil confiar no sexo oposto.

Portanto, estas aplicações estão a mudar as relações?

Sim, e acho que em termos sociológicos isso deverá ser estudado. No meu livro, conto que me apaixonei duas vezes no Tinder e um desses homens disse-me que não se queria comprometer porque queria ‘estar sempre a ver se encontrava melhor na loja’, ou seja, via o Tinder como um supermercado.

Essa ideia de que se pode encontrar sempre alguém melhor, que existirá sempre outra pessoa, que é só pegar no telefone e ligar-se a alguém em qualquer lugar onde estiver dificulta o compromisso.

Se se sentirem deprimidos, sozinhos e tiverem a sensação que nada resulta convosco, não se esqueçam que isto é feito para ser assim e é natural se não resultar.
Judith Duportail Judith Duportail

As pessoas não se querem comprometer ou têm medo?

Por um lado, não se querem comprometer, por outro, o facto de sabermos que podemos sempre encontrar melhor e os outros também cria ansiedade.

No livro, diz que falar no Tinder até é divertido, mas que depois os encontros são muitas vezes aborrecidos. Por que é que isso acontece?

Porque estas aplicações fazem-nos crer que podemos marcar um encontro da mesma forma que pedimos comida por telefone. Ficamos desapontados quando nos sentamos em frente a uma pessoa aborrecida, porque esquecemo-nos como é difícil conectarmo-nos com outras pessoas e falar verdadeiramente com alguém.

Não podemos ter a expectativa que da aplicação ‘descarreguemos’ uma pessoa que cumpra todos os nossos requisitos e que, lá por falarmos com uma pessoa, isso não significa que iremos ter um encontro, ter sexo ou sentirmo-nos conectados com ela. Os relacionamentos requerem tempo e nas aplicações de encontros não há tempo.

Que conselhos daria aos utilizadores deste tipo de aplicações?

Não levar tudo muito a sério nem tudo a peito. O objetivo das pessoas que ‘desenham’ as aplicações é fazer com que voltemos sempre e está tudo pensado para que não apaguemos a aplicação.

Se se sentirem deprimidos, sozinhos e tiverem a sensação que nada resulta convosco, não se esqueçam que isto é feito para ser assim e é natural se não resultar.

É muito importante saber como é que a aplicação funciona e todos os seus truques, como joga com o nosso cérebro e com os nossos níveis de serotonina. Se souberem como funciona, dificilmente serão manipulados e é isso que explico no meu livro.

As aplicações de encontros podem exacerbar problemas psicológico?

Claro, sobretudo nas pessoas que tem uma personalidade aditiva.

Para si, as aplicações de encontros terminaram?

Sim, para mim acabaram.

E está mais feliz agora?

Sim, mas tenho de admitir que, fora das aplicações, ter encontros é difícil. Contudo, dá-se mais valor aos que temos e isso é interessante.

É importante que as pessoas se questionem e saibam o que esperar das aplicações e o que querem quando estabelecem ligações com as pessoas.

O que é para si saber viver?

É ter uma vida em que nos sintamos verdadeiramente ligados a outras pessoas.

A versão original deste artigo foi publicada na revista Saber Viver nº 232, outubro de 2019.

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