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A maquilhagem (também) empodera pessoas cegas

Conheça as histórias de Joana, Cátia e Sandra, que como muitas de nós, querem ter uma boa relação com a maquilhagem. Mesmo que não se vejam (bem). Porque, afinal, um simples batom vermelho pode ser sinónimo de poder, autonomia e inclusão, tudo ao mesmo tempo.

Já experimentou aplicar um batom vermelho sem espelho? Ou colocar máscara de pestanas de olhos fechados? Ao experimentar, entendemos claramente o grau de dificuldade que uma pessoa que não vê sente ao aplicar sozinha estes produtos.

O Youtube enche-se de vídeos de maquilhagem que nos ensinam como aplicar glitter ou fazer aquele look de noite esfumado. Mas nem todas estamos a usufruir desta liberdade de informação, criativa e empoderadora, que nos ajuda a cuidar da nossa imagem. Basta pensar em alguém que não vê ou não ouve.

Existem cerca de 240 mil portugueses com deficiência visual e auditiva que não têm um acesso igual à beleza face à população em geral.

“Não me maquilho regularmente, precisamente porque ainda dependo de alguém para saber se está bem. Há coisas que consigo aplicar sozinha, mas outras não”, diz à Saber Viver Joana Gomes, 27 anos, bailarina e assistente de produção em espetáculos de dança e cinema.

Joana Gomes, cega desde os 13 anos, foi uma das participantes do primeiro workshop de beleza adaptado a deficientes visuais, no âmbito do movimento Beleza para Todos, lançado pela L’Oréal Paris Portugal.

Também Sandra Figueiredo, com baixa visão, integrou o workshop, que decorreu na Academia da marca, em Miraflores. “Como pode reparar, estou maquilhada, o que representa muitas cabeçadas todos os dias”, graceja.

workshop de beleza para deficientes visuais

O workshop insere-se no projeto 100% nacional Beleza para Todos, da L’Oréal Paris © D.R.

Ao todo, 12 mulheres cegas e com baixa visão puderam aprender ferramentas para se tornarem mais autónomas a cuidarem da sua imagem.

As formadoras escolhidas para a maquilhagem e os cabelos foram as influencers e youtubers Helena Coelho e Alice Trewinnard, respetivamente.

Acho que a maquilhagem nos dá poder. De alguma forma, sinto-me mais poderosa, mais feminina – Cátia Monteiro, psicóloga cega

O poder da maquilhagem

Fazer um penteado, usar um batom ou disfarçar uma olheira tem um poder que ultrapassa a dimensão estética. Podemos à partida considerar estranho que alguém que não vê o quão bem fica com aquele batom vermelho, querer usá-lo ainda assim. Mas faz toda a diferença.

“A maquilhagem e os cuidados com a pele têm muito a ver com o bem-estar físico, mas principalmente psicológico, porque mexe com a nossa autoestima e autoconfiança. Eu falo por mim (…) acho que a maquilhagem nos dá poder. De alguma forma, sinto-me mais poderosa, mais feminina“, explica-nos Cátia Monteiro, de 24 anos e cega desde os 13 anos.

 Na estrada, como na sociedade, a regra que vigora é “ver e ser visto”. Para alguém que não vê, ser visto continua a ser (muito) importante. “Vivemos numa sociedade em que a imagem tem cada vez mais importância. Se, por exemplo, eu sair de casa como costumo ir para as aulas, de fato de treino e rabo de cavalo, quase ninguém me ajuda na rua. Se sair de casa como se fosse para uma reunião, todos vêm ajudar”, conta Joana Gomes.
workshop de maquilhagem para pessoas cegas

Sandra Figueiredo (à direita), ajuda Joana Gomes a aplicar a máscara de pestanas durante o workshop.

Como bem nos explica Sandra Figueiredo, que nasceu com cataratas congénitas muito raras e não tem visão periférica, “não podemos falar da inclusão absoluta se não falarmos em autoestima“.

Movimento #Belezaparatodos

Este projeto 100% português foi desenvolvido pela L’Oréal Paris Portugal, em conjunto com o Instituto Nacional para a Reabilitação (INR), a Associação de Cegos e Ambliopes de Portugal (ACAPO), a Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS) e a Associação Portuguesa de Deficientes.

“Foi lançado publicamente em março deste ano, mas no qual já começámos a trabalhar há três anos”, explica à Saber Viver Tiago Melo, diretor de marketing da L’Oréal Paris Portugal. O objetivo é promover o direito ao acesso à informação sobre beleza para pessoas com deficiência visual e auditiva.

A informação, muitas vezes, para nós é vedada, porque [nos tutoriais] há referências muito visuais, do tipo ‘vocês pegam nisto e usam assim’. Mas nisto o quê? Assim como? – Cátia Monteiro

Além dos workshops, o projeto inclui ainda outras medidas. Todos os conteúdos disponíveis no site da marca foram adaptados para esta comunidade, incluindo tutoriais de beleza com áudio desenvolvido para quem não vê e com legendas, para quem não ouve.

A iniciativa inclui um Facebook Messenger não automático, para que todas as dúvidas possam ser esclarecidas de forma facilitada para surdos, por exemplo. E foram também criadas etiquetas Braile, para que as pessoas cegas possam identificar os seus produtos de higiene e beleza em casa.

“A informação, muitas vezes, para nós é vedada, porque [nos tutoriais] há referências muito visuais, do tipo ‘vocês pegam nisto e usam assim’. Mas nisto o quê? Assim como?”, exemplifica Cátia Monteiro.

Licenciada em Psicologia, Cátia Monteiro tem uma doença rara e degenerativa, que provocou a perda de visão progressiva até cegar, aos 13 anos. Teve “o privilégio de fazer parte deste projeto da L’Oréal”, como ela própria diz, como cobaia. Ajudou na construção dos guiões para os tutoriais de beleza com a sua sensibilidade, dizendo quando o discurso não estava perceptível ou quando algum detalhe deveria ser enfatizado.

Como se maquilham as pessoas cegas?

Quando queremos muito alguma coisa, o normal é a determinação e o treino serem o caminho mais certeiro. E aqui não é diferente. A relação que Joana, Sandra e Cátia têm com maquilhagem é diferente, mas o objetivo é comum: sentirem-se o mais autónomas possíveis, também nesta dimensão da vida, tão importante para cada uma.

“Se não tivermos a carta de condução, vamos de transportes. Mas se de repente aparecer a carta, ponderamos duas vezes”. A metáfora é de Joana Gomes, para explicar que todos nos devemos adaptar às adversidades e aceitar ajuda, mas ser autónomo é também uma forma de empoderamento.

Para conseguir aplicar os diferentes produtos de maquilhagem sem ver, há que desenvolver estratégias específicas. A principal é conhecer bem as feições do seu rosto, como nos explica Cátia Monteiro. “Maquilho-me regularmente e, com o tempo, adotamos técnicas para facilitar. Ao aplicar a máscara de pestanas, por exemplo, fazemos aquele movimento de ziguezague que permite sentir que a pestana está a ser agarrada, a ficar presa no pincel”, refere.

O mais difícil é a vontade de aprender. Depois da vontade, qualquer coisa é possível – Joana Gomes, assistente de produção cega

Para Sandra, técnica superior de reabilitação e inserção social na ARP – Retina Portugal com baixa visão, a dificuldade é menor, mas não deixa de ser desafiante. “Há estratégias como apps que aumentam ou lupas, mas requer um grande treino diário para o conseguirmos fazer bem”, diz-nos, antes de assistir ao workshop e mostrando uma maquilhagem super completa, incluindo um eyeliner preto carregado e perfeito.

“Como consegue?”, perguntamos. “Fu testando, com fita-cola, com um lápis por baixo… existem muitas estratégias, porque nunca é linear. Não temos todos o mesmo resíduo visual, o mesmo ângulo de visão, e até a intensidade luminosa é diferente. Eu, por exemplo, preciso de uma luz fria, como a maioria das pessoas que tem baixa visão”, explica.

Helena Coelho, uma das formadoras e youtubers envolvidas no projeto Beleza para Todos desde o início, dá conta do enorme desafio que é também guiar deficientes visuais no mundo da maquilhagem. “Para me preparar para o workshop, vi vários tutoriais do Youtube para pessoas cegas, para saber adaptar, e fiz o desafio de me maquilhar às escuras, para realmente perceber o que é. Só que eu sei onde é o côncavo, as olheiras, etc. Fazendo de conta que nunca vi a minha cara, tenho de explicar tudo isto”, explica à Saber Viver, minutos antes de começar o workshop.

O mais difícil é ter a vontade de aprender. Depois da vontade, qualquer coisa é possível”, relembra-nos Joana Gomes, do alto dos seus 27 anos.

E há até quem confunda uma pessoa muito determinada com uma expert. “Às vezes estou a pôr batom num restaurante, sem espelho, e as pessoas não se apercebem que sou cega e perguntam ‘és profissional?’. Geram-se situações muito engraçadas!”, conta Cátia Monteiro, divertida.

cátia monteiro

Sorrir com um batom vermelho, aplicado por ela, é a imagem de marca de Cátia Monteiro, cega desde os 13 anos.

A jovem psicóloga, muito comunicativa, tem mesmo uma imagem de assinatura, que não dispensa. “Costumo dizer que o sorriso é o espelho da minha alma, e com a maquilhagem consigo salientar mais o sorriso. Adoro batom vermelho, por exemplo. É a minha imagem de marca”, refere.

Não é preciso vermos, efetivamente, a cor dos nossos lábios num sorriso ao espelho para nos sentirmos confiantes e poderosas, certo? É uma questão de atitude. E essa sente-se.


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