Anos 70: do caos nasce a ordem

Do hippie ao boémio e do sport chic ao glam rock, entramos no inverno com uma ode aos anos 70 – uma década em que o empoderamento feminino tomou forma, o culto à juventude se propagou e a crise económica se instalou.

Foi em plena década de 70 que o movimento feminista ganhou um novo fôlego e que as mulheres começaram a adquirir mais poder – num universo tipicamente masculino –, munidas de flores no cabelo, sandálias nos pés e um enorme ideal de liberdade. Estas mulheres pregavam a paz através da força para fazerem valer os seus ideais políticos, como foi o caso da jornalista e ativista, Ulrik Meinhof.

E a luta não foi em vão ou não teria havido uma Margaret Thatcher – a primeira mulher a chegar ao governo de um país europeu  –, que revelou ser uma verdadeira ‘dama de ferro’. Passados cinquenta anos, continuamos a discutir o empoderamento feminino e a moda a ir buscar referências à década do ‘mau gosto’. Todos os movimentos – feministas e estudantis – e a alteração de paradigmas tiveram influências marcantes no universo da moda, ainda que ninguém se apercebesse disso enquanto lutava por um mundo melhor e mais livre.

Liberdade para vestir nos anos 70

Sem regras, cada uma vestia aquilo de que mais gostava e como bem entendia: calças à boca de sino e camisas de poliéster, solas de plataforma, hot pants e peças brilhantes para as discotecas retro kitch, no future e punk. Tudo era experimentado, misturado e repudiado para novamente ser usado. Poderia pensar-se que era uma simples forma de protesto, mas por trás destas manifestações de estilo encontrava-se uma força criadora e libertadora que ainda hoje é sentida. nos anos 70, o pós-moderno com o seu estilo eclético impunha a verdadeira revolução.

Desde os trapos baratos de algodão até à alta-costura, tudo era permitido, principalmente se as peças usadas fossem feitas em materiais naturais como a lã, a seda e o algodão. Saint Laurent, num golpe de génio, adaptou o fato masculino a um estilo mais feminino de linhas cintadas, em lã antracite e que devia ser usado com uma blusa de laçada em crepe. Os chumaços nos ombros conferiam uma postura poderosa e as calças flare rentes ao chão eram usadas com sapatos plataforma. o corte de cabelo curto era o remate final, garantindo o visual andrógino que todas procuravam.

© Getty Images

 

Regresso às origens

Neste clima ‘de vestir uma coisa qualquer e logo se vê’ começou a haver uma apetência por mercados de segunda mão e de ‘roupas da avó’ que evocavam os ideais de vida em família. Para corresponder a esta procura, os designers da época voltaram-se para o retro e para as imagens do cinema dos anos 30 e 40 em busca de inspiração.

Tal como acontece este ano, também em 1973 houve um regresso à natureza: cores neutras, beges, tons de areia, cor de tijolo e azul acinzentado… Esse espírito de retorno à terra prende-se com o fato de terem surgido os movimentos pela ecologia e ter-se começado a valorar o artesanal, o que levou ao aparecimento das peças de roupa em croché ou das malhas tricotadas manualmente. Por outro lado, o aparecimento dos aviões Jumbo e dos pacotes de viagens tornou possível à classe média viajar mais e aos designers serem mais permeáveis a outras culturas.

Marcar a diferença

Apesar da tendência do ‘tudo é permitido’, houve quem se insurgisse contra o desleixo reinante na forma de vestir da maioria das mulheres. o glam rock, estilo musical que influenciou diretamente o mundo da moda, foi exemplo disso. Músicos como David Bowie, marc Bolan, Gary Glitter, Roxy music ou Elton John usavam maquilhagem cuidada, roupa cintilante e uma aparência estética requintada. nos EUA, os músicos negros do funk, vindos de guetos, procuravam o sucesso através de uma aparência deslumbrante.

David Bowie no papel de Ziggy Stardust, um dos ícones do glam rock  – Getty Images

Usavam camisas de folhos, calças justas de seda italiana, pullovers, casacos de cabedal preto e, tal como os glam rockers, botas de salto alto que podiam atingir os 15 cm de altura. A maior ambição, dentro do ambiente funky, era ter calças e casacos de pele de cobra em patchwork de vários tons. As conotações eróticas estavam presentes em todo o lado: solas com cunhas, calças largas e uma malha de seda cingida ao corpo. Por outro lado, a necessidade de vingar no mundo dos homens levou as mulheres a quererem disfarçar o corpo com recurso a roupas largas – camisas brancas, calças largas, blazers XL e chapéus, embora, por ironia, tenham sido os conjuntos mais femininos – como o vestido de seda pelo joelho combinado com blazer – a fazer mais sucesso.

O dress code das mulheres

As mulheres tiveram de aprender a vestir-se para triunfar e quando atingiam lugares de topo, era-lhes imposto um código de vestuário que passava pelo regresso às saias. A mulher de sucesso usava tailleur de saia, blusa de laçada, saltos médios ou rasos e bijuteria discreta. os excessos eram cometidos à noite na discoteca, em contraste com o que acontecia durante o dia. A roupa ‘bem-comportada’ servia para trabalhar; já para dançar, ‘ver e ser vista’ era necessário outro tipo de indumentária, elegante e arrojada. Camisas de poliéster coloridas, tops sem costas com hot pants de lurex prateado, camisas de renda velhas com jeans, vestidos de seda dos anos 40 ou de cocktail dos anos 50, vestidos de flores da avó ou de noite com decotes vertiginosos, tudo era possível, inclusive os corpos nus pintados por artistas famosos.

O disco

As discotecas estavam no auge. Andy Warhol, rei da pop art, defendia que toda a gente podia ser famosa por cinco minutos. O artista e os seus companheiros da Fábrica (estúdio de arte que o próprio criou), faziam parte do núcleo duro da discoteca nova-iorquina Studio 54, que apesar de só ter estado aberta durante dois anos, se tornou lendária devido à frequência de celebridades de todas as áreas que por ali passaram (e às pessoas anónimas e bem vestidas).

Hair, que marcou o final dos anos 60 e a década de 70 – Getty Images

Todos os espaços, por mais inusitados que fossem, passavam a ser  salas de dança à noite – das garagens ao sótão da avó, tudo era transformado em clubes noturnos com luzes psicadélicas e DJ improvisados que viravam discos de vinil e tocavam repetidamente Saturday night Fever e Grease. os jovens arranjavam-se o melhor possível para irem dançar, a estética voltou a mudar e no auge estavam as proporções deformadas e as combinações bizarras de materiais e de cores: the best taste is bad taste (o melhor gosto é o mau gosto).

Os seventies no presente

O empoderamento das mulheres e os movimentos femininos pela igualdade de direitos que surgiram no ano passado tiveram impacto direto na moda deste ano. Com o ressurgimento da Calvin Klein sob a direção artística de Raff Simons, assistimos também à modernização do lado andrógino e minimal da década de 70. Por outro lado, as mulheres, mais uma vez, procuram roupa que as torne confiantes, e os criadores apelam a que cada uma encontre um estilo próprio de forma a libertar-se do autoritarismo das tendências.

Fatos sem género, vestidos de flores, veludo cotelê e western são algumas referências retiradas dos anos 70 e amplificadas por inúmeras marcas e designers como Chloé, Fendi, Calvin Klein, Elisabetta Franchi, entre tantas outras.


Vista-se à anos 70

Cardigã de malha
Prada, 830€


Calças moschino
TV X H&M, 249€


Colar de corrente
Moschino TV x H&M, 59,99€


Vestido de flores
Uterqüe, 150€


Carteira de cintura
Steve Madden, 55€


Botas de cano alto
Elisabetta Franchi, 552€


Calças flare
Zara, 39,95€


Blusão com capuz
Moschino TV X H&M, 149€


Gosta desta tendência dos anos 70? Mantenha-se na moda também com estas cowboy boots.

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