Quantas vezes já chegou a casa e percebeu que nem se lembra do caminho que fez até lá? Ou saiu do trabalho e teve a sensação de que o dia tinha passado sem que desse verdadeiramente por ele? São momentos tão comuns que quase não lhes damos importância. O corpo sabe o que fazer, mas a cabeça parece estar noutro lugar.
Com as férias a ficarem para trás, regressam os horários, as responsabilidades e a rotina diária. Entramos, por isso, em modo automático para conseguirmos dar conta de tudo. Mas o que é, afinal, este mecanismo a que o nosso cérebro recorre tantas vezes? “Costumo dizer que o piloto automático é uma das maiores provas da inteligência do cérebro”, afirma Carolina Nunes, psicóloga clínica e neuropsicóloga, que tem dedicado a sua carreira ao estudo da relação entre o cérebro, a emoção e o com portamento.
Segundo a neuropsicóloga, o piloto automático é um mecanismo normal do cérebro, que acontece quando este começa a reconhecer padrões e transforma esses comportamentos repetidos em hábitos. “A verdade é que o cérebro faz isto porque é eficiente. Sempre que repetimos uma ação, ele cria um atalho para gastar menos energia”, corrobora Cláudia Ganhão, especialista em Organização Pessoal Minimalista. “É um mecanismo de sobrevivência, não um defeito”, afirma Cláudia, que conhece bem esta sensação. Aos 41 anos, após um burnout e várias reflexões sobre o modo automático em que vivia, despediu-se e hoje dedica-se à sua Academia A.M.E (Academia de Mulheres em Evolução).
Estamos em automático, mas não desligados
O piloto automático funciona, assim, como um mecanismo de poupança de recursos cognitivos. Carolina Nunes explica que o cérebro, “apesar de representar apenas cerca de 2% do peso corporal, consome aproximadamente 20% da energia do organismo”. Quando automatiza tarefas do quotidiano, o cérebro está, na verdade, a libertar a sua atenção e energia para aquilo que realmente exige reflexão, como resolver um problema inesperado ou adaptar-se a uma situação nova.
Ao contrário do que podemos pensar, mesmo em piloto automático, o cérebro continua a vigiar tudo o que acontece à nossa volta. Basta surgir um estímulo inesperado, como alguém a chamar pelo nosso nome ou uma criança a correr na estrada, para que a nossa atenção seja rapidamente redirecionada. “Em frações de segundo, o cérebro abandona o modo automático e ativa novamente os sistemas responsáveis pela atenção consciente”, diz a neuropsicóloga. “O cérebro nunca deixa de pilotar. O que muda é a quantidade de atenção consciente que dedica a cada tarefa.”
A dificuldade em parar
O problema não é o piloto automático em si; é vivermos lá instalados dia após dia. A curto prazo, pode trazer mais cansaço e a sensação de estarmos sempre a correr contra o tempo. Mas, quando este ritmo se torna constante, o impacto pode ser ainda maior. “A longo prazo, pode mesmo levar a burnout, ansiedade e a uma sensação de vazio, porque vivemos os dias sem realmente os sentir”, explica Cláudia Ganhão.
Nas relações, o impacto é talvez mais silencioso. Conseguimos estar na mesma mesa ou numa conversa, mas a nossa atenção está noutro lado. “Costumo dizer que o cérebro foi feito para automatizar tarefas, não para automatizar a vida”, afirma Carolina Nunes. A dificuldade em sair do piloto automático está relacionada com a forma como encaramos a ocupação e o descanso. Cláudia Ganhão afirma que “vivemos numa cultura que quase glorifica o “estar ocupada”, como se parar fosse sinónimo de preguiça ou de não estar a fazer o suficiente”. A isto junta-se a sucessão constante de estímulos a que estamos expostos. Notificações, e-mails e redes sociais, fazem com que exista sempre alguma coisa para ver, responder ou resolver. “É por isso que muitas pessoas sentem desconforto quando finalmente param. Não porque o descanso lhes faça mal, mas porque perderam o hábito de estar em silêncio consigo próprias”, afirma Carolina Nunes.
Parar não é perder tempo; é permitir que o nosso cérebro consiga reorganizar informações, consolidar memórias, regular emoções e recuperar energias. “Porque um cérebro que nunca abranda acaba, inevitavelmente, por nos obrigar a fazê-lo”, relembra a neuropsicóloga.
Entre o lapso e o sinal de alerta
Este é um fenómeno que pode acontecer a qualquer um de nós. Não é uma questão de sermos mais ou menos distraídos, cuidadosos ou organizados. “Aliás, muitas vezes acontece exatamente a pessoas extremamente exigentes consigo mesmas, que fazem tanta coisa ao mesmo tempo e tão bem, que o cérebro entra em piloto automático”, explica Cláudia Ganhão. “É sobre ter a cabeça demasiado cheia, e ninguém está imune a isso”.
Carolina Nunes reforça que o funcionamento do cérebro não é constante e depende de vários fatores, como “o sono, o nível de stresse, a carga emocional, a fadiga e até a quantidade de informação que está a processar naquele momento.” É nestes momentos que podem surgir lapsos ou distrações. “O que merece atenção é quando os esquecimentos se tornam repetitivos, começam a comprometer a autonomia ou representam uma mudança evidente em relação ao funcionamento habitual”, alerta.
Cláudia Ganhão acrescenta ainda a segurança a esta equação. “O que faz disparar um alerta é quando estes esquecimentos afetam a nossa segurança ou a de outras pessoas, ou vêm acompanhados de outros sinais, como ansiedade constante, exaustão que não passa com o descanso ou dificulda de em concentrarmo-nos mesmo em tarefas simples.” Por isso, reconhecer os limites do cérebro e perceber quando é altura de pedir ajuda é essencial. “O cérebro dá-nos sinais. Saber ouvi-los, sem dramatizar, mas também sem desvalorizar, é a melhor forma de cuidar da nossa saúde cerebral”, conclui.
Pés assentes no chão
Sair do piloto-automático não significa eliminar as rotinas nem estar permanentemente em alerta. As especialistas recomendam começar por pequenos gestos que ajudem a recuperar a atenção e a trazer o foco de volta ao momento presente. Para Cláudia Ganhão, o primeiro passo é simples: “abrandar antes de organizar”. Isto é, pequenas pausas conscientes ao longo do dia, como respirar fundo antes de entrar em casa, fazer uma refeição sem o telemóvel por perto ou ter rituais simples de transição entre tarefas. Carolina Nunes reforça a importância de “fazer uma coisa de cada vez” e “estar verdadeiramente numa conversa, saborear uma refeição ou caminhar são gestos simples que ajudam a “trazer o cérebro de volta” ao momento presente”.
Também o ambiente pode ter um papel neste processo. Cláudia Ganhão afirma que simplificar o espaço à nossa volta, reduzindo o ruído visual e o número de coisas que temos constantemente de gerir, pode ajudar a criar mais espaço mental para estarmos presentes. No fundo, não é preciso mudar radicalmente para sair do automático. Entre as exigências do dia a dia e a vontade de estar presente para os outros é fácil esquecermo-nos de nós próprias. Mas, como lembra Carolina Nunes, “para conseguirmos dar o melhor aos outros, temos primeiro de estar bem connosco”. Talvez sair do piloto automático comece precisamente por aí: parar o suficiente para perceber como estamos e do que precisamos.


