Bem-estar

Crónica. A relação que ninguém lhe pode tirar: a que tem consigo

A relação que temos connosco próprias é a fundação do nosso bem-estar, da nossa saúde mental e da construção saudável das outras relações que estabelecemos. Contudo, quando esta relação não é segura ou saudável, sentimo-nos perdidas ou confusas sobre que caminho tomar para a sustentar. Na verdade, requer coragem bastante para crescermos e nos tornarmos em quem realmente somos.

Untitled-7 Untitled-7 Untitled-7
Crónica. A relação que ninguém lhe pode tirar: a que tem consigo Crónica. A relação que ninguém lhe pode tirar: a que tem consigo
© Pexels
Sílvia Coutinho, psicóloga
Escrito por
Jun. 23, 2026

Os nossos padrões de vinculação são a base para nos conectarmos, comunicarmos e formarmos laços com os outros à nossa volta, sustentando também a forma como nos vemos e como nos relacionamos connosco próprias. Estes são moldados pelas nossas primeiras experiências com os nossos cuidadores, mas também com familiares alargados, amigos e pessoas parceiras, mantendo-se em nós como se de uma impressão digital se tratasse.

Esta impressão digital é assim determinada pela forma como fomos amados, a forma como nos olharam, falaram, como nos abraçaram e ampararam (ou não), que nos acompanha ao longo da nossa vida, definindo a forma como nós iremos amar e como nos iremos também amar.

Dentro de nós existe uma música que toca uma determinada melodia, consoante os rótulos que nos colocaram, as ideias acerca de nós próprias que nos passaram, das luzes com que nos iluminaram ou da escuridão com que nos aprisionaram.

Quando sentimos estas figuras cuidadoras disponíveis e responsivas, criamos um padrão de vinculação seguro, que nos preenche de tudo aquilo que definimos como um lugar de amor. Nesta resposta às necessidades mais básicas e humanas de amparo, colo, conforto e segurança, vamos experienciando baixos níveis de ansiedade e de evitamento. A relação é percecionada como um lugar seguro para se estar e ser. Aprendemos também a olhar para nós e a cuidarmo-nos com carinho, atenção e valorização.

Pelo contrário, quando não tivemos a sorte, ao longo da nossa vida, de sentir as figuras cuidadoras disponíveis emocionalmente, contentoras e previsíveis na sua atenção e afeto, sendo inconsistentes nas suas respostas ou até mesmo negligentes, experienciamos níveis mais elevados de ansiedade e a nossa impressão digital relacional fica impregnada de insegurança emocional e relacional, conduzindo a uma resposta vincada de evitamento perante as relações. Também a nossa autoimagem e autoestima ficam marcadas de forma bastante negativa, da qual a dúvida e hesitação sobre o nosso valor pessoal são uma constante, assim como o autoabandono e a negligência pessoal.

Assim, consoante as marcas que permanecem em nós, das nossas histórias, dos nossos traumas e da forma como nos vinculamos, acontecerá da nossa parte uma resposta ou reação de maior recetividade ou maior evitamento diante das situações que estarão em palco, seja nas nossas relações pessoais, seja igualmente na narrativa interna que circula dentro de nós e que muitas vezes nos autosabota as ações e comportamentos.

Construir um relacionamento saudável connosco próprias, quando o nosso padrão de vinculação não é seguro, pode ser um enorme desafio. Para tal, poderá ser importante compreender o que é um padrão seguro e inseguro de vinculação.

Compreender os padrões de vinculação

Padrão de vinculação seguro

As pessoas que cresceram seguramente vinculadas, cresceram rodeadas de muito amor e de um suporte consistente por parte dos seus cuidadores. Enquanto adultas, tendem a tornar-se independentes, conectando-se com os outros de forma saudável e reciprocamente, sentindo-se confortáveis quando estão em conexão e quando estão na relação consigo próprias.

Padrão de vinculação inseguro ansioso

As pessoas que funcionam com base neste padrão de vinculação, tendem a experienciar níveis de ansiedade e apresentar uma sensibilidade excecional à rejeição. Podem ligar-se rapidamente aos outros e possuem uma perceção aguçada face a mudanças reais ou percebidas no ambiente e contexto à sua volta. O facto de necessitarem sentir que as suas necessidades emocionais estão a ser atendidas, coloca-as diante de um assustador lugar de imprevisibilidade que suscita medo e dúvida, sem conseguir retirar inteiramente a resposta de se sentirem seguras emocionalmente, amadas ou de poder realmente contar emocionalmente com o outro.

Deste modo, estas pessoas que apresentam um padrão inseguro ansioso tendem a sentir-se constantemente hipervigilantes diante dos sinais relacionais, ou perante qualquer possibilidade de distanciamento. Ao antecipar a possibilidade de afastamento, perda ou abandono, estas pessoas tendem a experienciar um aterrador medo de abandono, podendo conduzi-las a comportamentos de protesto. Para as pessoas deste padrão, a consistência e a reafirmação de afeto são importantíssimos, preenchendo a pessoa de segurança emocional, devido à diminuição do seu nível de ansiedade. A relação consigo mesma tende a ser marcada por autocrítica severa, dúvida e ruminação interna em relação ao seu valor pessoal. Tende a medir o seu valor pessoal mediante a atenção e a validação que os outros exercem em si.

Padrão de vinculação inseguro evitante

Estas pessoas têm tendência para manter a intimidade mais distante, retraída ou a diminuir a importância das relações, por percecionarem a proximidade como uma perda de independência, nomeadamente quando o relacionamento se vai tornando mais íntimo. As pessoas que apresentam um padrão evitante desconetaram-se do seu sistema de vinculação, por isso reconectar com outros, em segurança e de forma saudável, é extremamente importante, podendo, contudo, tornar-se um verdadeiro desafio também.

Apresentam uma tendência para a autocrítica excessiva, para a repressão emocional (dificuldade em identificar e processar as suas emoções), para a desconexão com o seu corpo (é comum ignorarem sinais de cansaço, dor ou adoecimento) e fuga da introspeção profunda (profunda desconexão de si mesmas que advém de um enorme evitamento perante a autoreflexão), vazio interno, esgotamento físico e solidão. O distanciamento das próprias emoções e o foco na sua autosuficiência poderão impedi-las de perceber ou de estar atentas às necessidades dos outros. Tendem a evitar situações que as coloquem numa posição de vulnerabilidade ou em lidar com conflitos, tensão ou conversas sérias.

Padrão de vinculação inseguro desorganizado

Este padrão é caracterizado por medo excessivo, surgindo com o propósito de lidar com a ameaça com que se depara e garantir a sobrevivência, numa mistura das características dos padrões de vinculação inseguro ansioso e evitante. Este aspeto poderá conduzir a um ciclo de atração e repulsão, com desejo perante a proximidade e, ao mesmo tempo, o medo constante desta e do risco de se magoar. Este aspeto poderá tornar as suas relações confusas, caóticas e num lugar profundamente frustrante.

As pessoas que apresentam este padrão tendem a manifestar com frequência uma enorme dificuldade na sua regulação emocional, lidando com inúmeras mudanças de humor. Tendem a apresentar uma relação consigo mesmas de profunda contradição, confusão, dualidade constante, desvalorização, baixa autoestima e autocrítica. Sentem-se indignas de amor, o que tende a gerar narrativas internas destrutivas e de autosabotagem. Como não aprenderam a gerir as suas emoções na infância, têm dificuldade em regular-se emocionalmente. Em momentos de maior sobrecarga, podem recorrer a mecanismos de defesa como a dissociação (desligar-se da realidade) ou adotar comportamentos impulsivos e autodestrutivos.

A importância de uma vinculação segura

Os nossos padrões de vinculação não têm de ser necessariamente estáticos ao longo da nossa vida. Na verdade, as relações que construímos podem afetá-los e influenciá-los tanto de forma negativa como positiva. Partindo deste pressuposto, também nós mesmas poderemos realizar um trabalho interno, no sentido de melhorar o vínculo e a relação que estabelecemos connosco.

Ter um vínculo mais seguro permite que tenha relacionamentos mais saudáveis com os outros, com o mundo, com a vida e consigo mesma. Neste sentido, construir um vínculo seguro consigo representa:

  • Maior resiliência emocional: permite-lhe enfrentar desafios sem perder a sua identidade pessoal;
  • Comunicação mais saudável: a capacidade de uma comunicação aberta e honesta, o que constrói confiança e respeito nos relacionamentos;
  • Conexão mais profunda: permite formar laços significativos sem medo da rejeição ou dependência.

Tornar-se numa pessoa com um padrão de vinculação seguro significa sentir-se confortável com a proximidade e intimidade, com os desafios que a vida e as relações nos podem confrontar, sem se sentir ameaçada ou profundamente magoada. Desta forma, uma pessoa com um padrão seguro tende a apresentar uma autoestima mais elevada e uma maior facilidade em estabelecer limites. De uma forma geral, a vida e os relacionamentos das pessoas seguras tendem a ser pautadas por um maior bem-estar e estabilidade. Quando se confrontam com desafios ou situações de tristeza, conseguem apresentar uma maior resiliência e confiança para lidar com as dificuldades. Desta forma, um vínculo seguro connosco próprias está associado a um menor índice de doenças físicas e de saúde mental, assim como uma maior qualidade de vida e longevidade.

Como construir um vínculo seguro consigo mesma

Construir um vínculo seguro é um processo, especialmente se as suas experiências tiverem passado por situações que a foram marcando de forma insegura. Para construir um vínculo seguro connosco mesmas será importante fazermos um trabalho interno, no sentido de reconhecer as nossas necessidades emocionais, utilizando um diálogo interno compassivo, enquanto procuramos regular o nosso sistema nervoso.

Neste trabalho interno construído passo a passo, poderemos:

1. Identificar o nosso padrão de vinculação: Saber se tem um padrão ansioso, evitante, desorganizado ou seguro permite-lhe aprofundar a sua compreensão sobre os seus gatilhos emocionais e necessidades emocionais;

2. Aprender a regular as suas emoções: Podemos utilizar técnicas para ativar o nosso cérebro para o modo de segurança e não em modo hipervigilância e ameaça;

3. Identificar e expressar necessidades: Pode aprender a reconhecer o que realmente precisa para se sentir segura e comunicar de forma clara, sem recorrer a comportamentos de protesto (como a crítica excessiva, o isolamento ou mesmo a autosabotagem). Assim, em vez de reprimir emoções ou punir-se, procure validar as suas necessidades. Aprender a comunicar consigo mesma de forma compassiva e não com julgamento, e a identificar o que realmente precisa para se sentir confortável e estável, poderá ser igualmente importante;

4. Rodear-se de segurança: Poderá ser importante olhar o mundo à sua volta, traçar limites e tomar decisões. Neste sentido, rodeie-se de pessoas que lhe transmitam estabilidade, segurança e reciprocidade, pois a proximidade e conexão com figuras seguras tende a alterar a nossa biologia e a reduzir o stresse;

5. Gestão de expectativas: Procure identificar padrões tóxicos (comportamentos de protesto) e treinar a consciência, validação interna e a autocompaixão;

6. Aprender a ser consistente: Manter pequenos hábitos previsíveis na sua rotina diária (exemplo: alimentação, exercício físico, meditação, journaling, reunir-se com pessoas que ama);

7. Aprender a ser disponível: Aprender a estar acessível, disponível e presente para as suas emoções, em vez de evitá-las ou adormecê-las. Ou seja, assumir responsibilidade pelo seu bem-estar e pelo bem-estar do outro;

8. Aprender responsividade: A responsividade é a consequência natural de estar disponível. Aprender a validar os seus sentimentos, em vez de se julgar por ter necessidades;

9. Aprender a ser confiável: Procure manter os seus compromissos consigo mesma, da mesma forma que mantém os seus compromissos e promessas com os outros;

10. Aprender a ser previsível: Procure estabelecer rotinas que mantêm o seu sistema nervoso calmo e focado.

Na verdade, a segurança emocional não advém de grandes eventos ou grandes situações de vida. A sua segurança é construída nas pequenas coisas do dia a dia, mediante a forma como vamos escolhendo ou nos propondo lidar. Embora seja um trabalho com o intuito de regressar a si mesma, este é um processo que não se faz meramente centrado em si. É no seio das nossas relações que mais crescemos. Desta forma, vamos construindo uma conexão segura connosco próprias, no seio de experiências que nos poderemos propor a viver de outras formas, de formas saudáveis, funcionando assim como experiências corretivas emocionais.

Desta maneira, à medida que vamos construindo uma conexão segura connosco, o nosso modo de sobrevivência acalma automaticamente. Este aspeto permite conquistarmos toda a confiança necessária para sermos mais capazes de assumir riscos, lidarmos melhor com desafios, sermos criativas e construirmos vínculos mais seguros e saudáveis com os outros à nossa volta e, assim, vínculos mais saudáveis connosco próprias. Porque a qualidade das nossas relações determina, verdadeiramente, a qualidade da nossa vida.

Últimos

Publicidade Psyllogel Fibra