©Unsplash
Cuidados de saúde em viagem: o que fazer antes, durante e depois

Cuidados de saúde em viagem: o que fazer antes, durante e depois

Da consulta do viajante à prevenção de doenças, saiba o que ter em atenção para viajar com mais segurança e tranquilidade.

Os portugueses sempre tiveram sede de descoberta. Nos dias que correm viajar já não é um luxo, mas não nos podemos esquecer de levar na mala algo bastante importante: consciência e preparação.

Todos os anos, milhares de pessoas partem para destinos tropicais em busca de paisagens incomuns, culturas diferentes, praias idílicas e descanso. O que poucos sabem é que a maior parte das doenças que afetam os viajantes são completamente evitáveis — com a informação certa.

Cuidados de saúde em viagem

Antes de partir

O erro mais comum é pensar na saúde somente “em cima da hora” ou, pior, “quando o azar bate à porta”. A preparação ideal começa antes da viagem. A consulta do viajante é o momento médico por excelência para todas as dúvidas serem colocadas, e onde o especialista em Medicina do Viajante pode avaliar e enquadrar os factores de risco do viajante com os do destino, alertando sobre cuidados a ter antes, durante e após, para além da recomendação adequada de tudo o que deve adquirir na farmácia.

©Unsplash

Fazer a consulta demasiado cedo pode ser uma desvantagem. As alterações climáticas globais, assim como conflitos armados e outros factores têm facilitado o surgimento de surtos em locais e dimensões imprevisíveis. O período ideal é 4 a 6 semanas antes de partir, permitindo uma percepção mais realista dos problemas em tempo real. Esse tempo já prevê a toma de vacinas ou antimaláricos, facilitando um aconselhamento tranquilo e garantindo que as vacinas têm tempo para alcançar a sua máxima eficácia, para além de evitar tempos de espera acima da média ou o risco de alguns produtos estarem esgotados.

Mas para além da consulta médica, há muito que pode — e deve — fazer por conta própria:

  • Informe-se atempadamente sobre as condições do voo e políticas de cancelamento, e verifique a necessidade de fazer o Visto;
  • Descarregue a aplicação Registo Viajante, do MNE;
  • Adquira um seguro de viagem — e atenção à cobertura (ou ausência dela…) caso tenha doenças crónicas ou esteja grávida;
  • Se viajar na Europa, não se esqueça de pedir gratuitamente o Cartão Europeu de Seguro de Doença no site da Segurança Social;
  • Acompanhe as notícias locais no que toca a factores como o clima, greves ou conflitos.

Água e alimentação

A diarreia do viajante afecta até cerca de 60% dos turistas, dependendo de variáveis como comportamento e susceptibilidade individual, condições no destino e duração da estadia. Não apenas incómoda, pode levar a quadros de desidratação com necessidade de observação hospitalar.

©Unsplash

O consumo de água engarrafada e de alimentos bem cozinhados resolve muitos destes problemas logo na sua origem, ao limitar a ingestão de microrganismos e toxinas. Comer na rua não é proibido (aliás, faz parte da experiência de qualquer viagem!), desde que a comida seja preparada com higiene, a quente e servida de imediato. Em qualquer cenário, evitar saladas e descascar a fruta pode ser uma opção sensata.

Mosquitos

O mosquito é o animal mais mortífero do mundo, com até 1 milhão de mortes por ano vinculadas à transmissão de doenças de prevalência e gravidade variável. Conhecer o comportamento dos mosquitos, assim como evitar a sua picada, é essencial: o mosquito Aedes, responsável pela transmissão de dengue, zika, febre amarela e chikungunya, tem maior atividade durante o dia, enquanto que o Anopheles (“mosquito da malária”) tem maior actividade noturna. Ambas as espécies têm picos de actividade ao amanhecer e anoitecer.

©Unsplash

São muitas as estratégias de prevenção:

  • No exterior, usar repelentes para a pele, inseticidas para tecidos, roupas longas e fluídas quando possível e evitar proximidade com zonas de água parada fazem toda a diferença;
  • Entre paredes, redes mosquiteiras nas janelas, portas e/ou camas e uso de ventoinhas e ar condicionado são aliados importantes.

Risco baixo é diferente de risco zero, e por vezes as piores surpresas acontecem. O Brasil é dos países do mundo com mais casos de dengue e onde a febre amarela continua a ser endémica, tal como também acontece em muitos países de África. O zika pode trazer consequências graves sobretudo para casais grávidos ou que pretendem engravidar. A chikungunya é uma doença emergente em vários pontos do mundo e a malária, que mata mais de 600 mil pessoas por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde, continua a ser desvalorizada e a sua evicção prejudicada por mitos associados aos antimaláricos, perpetuados por más experiências individuais que muitas vezes são decorrentes de uso incorrecto.

Estas doenças têm tempos de incubação que podem variar de poucos dias a semanas, ou até meses, como no caso da malária.

O mar e a montanha

Banhos de água doce — rios, lagos — em regiões tropicais de África e América do Sul podem aumentar o risco de contrair esquistossomose (ou “bilharzíase)”, uma doença parasitária crónica provocada por larvas presentes na água contaminada. Andar descalço em praias ou solos sujos pode levar a alterações cutâneas como larva migrans cutânea e tungíase (ou “bicho-do-pé”), ambos tratáveis mas que para além de visíveis, podem ser desconfortáveis. E se o snorkelling traz muito bons momentos (mas também possíveis queimaduras solares e cortes dolorosos no contacto com corais), para os mergulhadores a prática de scuba-diving deve ser evitada 18 a 24 horas antes de voar.

©Unsplash

O mergulho deve ser sempre feito junto de entidades certificadas (como a PADI) e obriga a treino e despiste de contra-indicações médicas. No espectro contrário, destinos de altitude como o Peru, Bolívia, Tanzânia (Kilimanjaro) ou Nepal, por exemplo, devem passar sempre por orientação médica prévia com vista à sensibilização e prevenção de Mal de Altitude ou outros desfechos mais críticos.

Sol e calor

No verão, o sol e o calor fazem parte do nosso dia a dia e da realidade de muitos portugueses que este “vão para fora cá dentro”. Mas enquanto o clima nacional é seco, os climas tropicais são húmidos e com maior predisposição à transpiração intensa.

©Unsplash

A insolação e o golpe de calor representam o expoente máximo das alterações provocadas pelo sol e o calor no organismo, e são verdadeiras emergências médicas, ou seja, situações que colocam a vida em risco. Limitar a exposição solar nas horas de maior intensidade (das 11h às 17h), refrescar as casas protegendo-as do sol, optar por roupas claras e leves, reforçar a ingestão de água mesmo sem sentir sede e evitar o consumo de álcool excessivo ou a prática de exercício durante os períodos de maior calor são medidas muito importantes e que fazem toda a diferença.

Ao chegar

A adaptação a um novo fuso horário, clima e alimentação podem condicionar o nosso bem-estar nos primeiros dias. Hidrate-se bem, faça uma gestão inteligente do café e das horas de sono e tente adaptar a rotina ao destino o mais rapidamente possível.

Se regressar de um destino tropical e desenvolver febre, diarreia persistente, alterações cutâneas incomuns ou qualquer outro sintoma preocupante durante ou após o regresso, deve procurar orientação médica especializada e informar sobre a viagem.

Persiste a ideia errada de que “só acontece aos outros”. Mas as doenças tropicais não conhecem fronteiras, nem os seus veículos lêem as placas informativas à porta do resort. Viajar com saúde não é exagero, é segurança. E a preparação não tira a espontaneidade — garante que regressa para contar a história.

Andreia Castro, médica de família, conta com uma pós-graduação em Medicina do Viajante e é fundadora e CEO da plataforma médica Consulta do Viajante Online®. Também ainda uma página de Instagram — @dra.viagens — onde partilha dicas e conselhos de saúde. 

Mais sobre especialista , férias