
Reconhecer os sinais silenciosos das doenças das pernas
Podem confundir-se com cansaço ou um inchaço passageiro, mas é preciso estar atento aos sinais, alguns deles subtis, e procurar ajuda médica. O diagnóstico precoce pode traduzir-se numa nova história quanto ao prognóstico.
O desconforto das pernas nunca deve ser normalizado. Começamos este artigo sem rodeios, mas pedimos ajuda especializada. “Sentir as pernas pesadas, inchadas ou cansadas não é inevitável”, explica Joana Ferreira, médica especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular.
Um dos erros mais comuns é a desvalorização de sintomas, encarando-os como uma consequência natural do cansaço ou da idade. “Muitas pessoas adiam a procura de ajuda médica durante anos, o que permite a progressão da doença e o aparecimento de complicações.” Existem outras atitudes desaconselhadas, como a automedicação, o abandono das meias de compressão por razões estéticas ou de conforto, a exposição solar e ao calor sem as devidas precauções. “É também importante evitar permanecer longos períodos imóvel, de pé ou sentado, sem realizar pausas para movimentar as pernas.”
Se está a ler este artigo e a pensar quando procurar ajuda especializada, damos-lhe a resposta. Tudo depende dos sintomas e alguns podem indicar a presença de doença venosa crónica ou outras patologias. Joana Ferreira enumera os principais: “inchaço dos membros inferiores, sensação de peso ou cansaço nas pernas, dor, alterações da pele, incluindo pigmentação, eczema ou endurecimento, presença de varizes ou telangiectasias (derrames), ou o aparecimento de feridas de difícil cicatrização”.
A intervenção precoce é determinante para controlar a doença, a confirmar-se após diagnóstico, e para prevenir complicações. “A intervenção precoce tem impacto na evolução da doença.” O cirurgião vascular é o especialista mais habilitado para avaliar e tratar as doenças venosas dos membros inferiores.
Doença venosa crónica
Em Portugal, estima-se que afete cerca de 35% da população adulta e é mais prevalente nas mulheres. “Corresponde a um conjunto de sinais e sintomas resultantes de alterações da estrutura e da função das veias dos membros inferiores”, diz Joana Ferreira. É uma doença crónica e progressiva, que pode manifestar-se de forma ligeira, com o aparecimento de telangiectasias ou pequenas varizes, ou evoluir para complicações mais graves, como úlceras venosas.
O diagnóstico é essencialmente clínico e baseia-se na evolução dos sintomas e do exame complementar. O mais recorrente é o eco-Doppler, a ecografia venosa com Doppler, que permite “avaliar a anatomia das veias e identificar a presença de refluxo venoso e orientar na escolha do tratamento mais adequado”. Quanto ao tratamento, deve ser individualizado, tendo em conta os sintomas, as características dos doentes e o estádio da doença.
“As medidas-base incluem a adoção de um estilo de vida saudável, com controlo do peso e prática regular de exercício físico, a elevação dos membros inferiores, o uso de meias de compressão e a toma de fármacos venoativos (usados para melhorar a circulação, o inchaço e a inflamação)”, recomenda Joana Ferreira. Em casos específicos, podem ainda ser indicadas intervenções, como escleroterapia, laser endovenoso, radiofrequência ou cirurgia convencional.
Retenção de líquidos
O que vulgarmente denominamos retenção de líquidos corresponde a edema dos membros inferiores, e este constitui uma manifestação de várias patologias, incluindo doença venosa crónica. “No verão, os sintomas de doença venosa crónica são mais intensos e o edema também se agrava neste período.”
As medidas mais eficazes incluem hidratação adequada, reduzir o consumo de sal, praticar exercício físico regularmente, elevar os membros inferiores sempre que possível e utilizar meias de compressão quando indicado. Evitar permanecer longos períodos de pé ou sentada, sem movimentar as pernas, é igualmente importante. “A drenagem linfática manual pode ser uma opção complementar útil em alguns casos”. Ainda assim, importa sublinhar que a retenção de líquidos persistente ou associada a outros sintomas deve ser avaliada por um médico, sugere a especialista. Só assim é possível excluir causas secundárias que exijam tratamento específico.
Lipedema
É uma doença caracterizada pela acumulação anormal de gordura, geralmente nas pernas e braços, dor e inchaço, podendo ser confundida com obesidade. Um dos maiores avanços foi o reconhecimento desta doença “como uma entidade clínica distinta, permitindo um diagnóstico mais precoce e abordagens terapêuticas mais adequadas”, explica Rita Valença, cirurgiã plástica. Ainda assim, existem mulheres a viver convencidas de que o seu problema é falta de disciplina ou excesso de peso quando, na realidade, têm uma doença pouco conhecida.
A crescente colaboração entre várias especialidades, como a cirurgia plástica, a cirurgia vascular, a medicina física e de reabilitação, a fisioterapia e a nutrição, tem permitido uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar, considerada hoje o padrão de tratamento destes doentes.
Também nesta doença o tratamento deve ser individualizado e integrado numa equipa com profissionais de várias áreas. Existem medidas mais conservadoras, como o exercício físico adaptado, a alimentação equilibrada, a fisioterapia e a terapêutica compressiva, que constituem a primeira linha de tratamento e são fundamentais em todas as fases da doença. “Nos casos mais avançados, ou quando o tratamento convencional deixa de ser suficiente, a cirurgia pode desempenhar um papel importante.” A mesma é recomendada quando o doente mantém sintomas relevantes, como dor, sensação de peso, limitação funcional ou uma progressão da doença que compromete a sua qualidade de vida. Especifi camente na cirurgia plástica, a médica assinala “a evolução das técnicas de lipoaspiração, com maior preservação das estruturas linfáticas e menor agressão dos tecidos, que tornou o procedimento mais seguro e eficaz”.
Atualmente, a lipoaspiração específica para lipedema “não visa apenas melhorar o contorno corporal, mas, sobretudo, aliviar a dor, reduzir a sensação de peso e melhorar a mobilidade”. Nos casos mais complexos, esta cirurgia permite “remover seletivamente o tecido adiposo doente, reduzindo a dor, melhorando a mobilidade e facilitando o controlo da doença”. O objetivo não é apenas estético, mas sobretudo funcional e terapêutico.
Relativamente aos procedimentos minimamente invasivos, estes não tratam o lipedema propriamente dito, mas podem ter um papel complementar em situações específicas. Rita Valença sugere as tecnologias direcionadas para a flacidez cutânea ou para a melhoria da qualidade da pele, que podem ser úteis em algumas doentes, sobretudo após perda de volume ou após cirurgia. No entanto, esclarece que “nenhum destes procedimentos elimina o tecido adiposo característico nesta doença nem substitui a cirurgia quando é indicada”.
Enquanto doença crónica, não existe cura até ao momento, tal como na doença venosa crónica, mas é possível controlá-las de forma eficaz e aliviar os sintomas. “O lipedema tem uma base genética e hormonal, pelo que continua a existir a possibilidade de progressão ao longo do tempo, sobretudo se ocorrerem alterações hormonais importantes ou um aumento significativo de peso.” Não é por acaso que a doença surge ou agrava frequentemente em fases caracterizadas por alterações hormonais, como a puberdade, a gravidez ou a menopausa. “A cirurgia deve ser vista como mais uma parte do tratamento, e não como uma solução definitiva e isolada”, alerta Rita Valença.
Há boas notícias: quando o diagnóstico é precoce e o tratamento adequado é possível controlar a doença e promover uma vida com qualidade.