
Perfumes gourmands: por que adoramos fragrâncias que cheiram a sobremesa?
Uma mão cheia de morangos, uma tablete de chocolate e marshmallows q.b. Podia ser uma receita duma sobremesa, mas são apenas alguns dos ingredientes mais comuns em perfumes gourmands. Falamos-lhe sobre esta família de fragrâncias cada vez mais utilizada.
Ao caminharmos pela rua, um aroma açucarado e guloso prende-se no ar. Daqueles que, só de o sentirmos, ficamos com diabetes. Pode vir duma pastelaria francesa, de onde saem, a cada meia hora, croissants quentinhos, macarons vibrantes e éclairs deliciosos; pode ser dum café dinamarquês, no qual um latte aquece a alma e um bolo nos surpreende pela sua fofura. Não sabemos bem. Afinal, este não é mais do que um cenário imaginado na nossa cabeça. O mesmo que passa pela mente dum perfumista quando dá vida a uma fragrância gourmand.
Com ingredientes como a baunilha, café, caramelo, chocolate, pistáchio e outros comuns em sobremesas, esta família com notas gustativas, às quais também conseguimos ter acesso provando, tornou-se irresistível.
Mylène Thioux, diretora perfumista da Equivalenza, define-os como “envolventes, sofisticados e aconchegantes ao mesmo tempo”, acrescentando que expressam “modernidade, ousadia e sensualidade”. Cláudia Camacho, reconhecida como a primeira perfumista independente em Portugal, adianta ainda que “são muito vendidos como aromas prazerosos, sensuais e nostálgicos”, apesar de considerar, pessoalmente, o contrário.
“Quando alguém se senta ao meu lado com esta família muito carregada no perfume, sou capaz de me levantar e ter de procurar outro local”, confessa. Perguntamos-lhe porquê. Além duma questão de gosto pessoal, afirma considerar que “70 por cento dos perfumes lançados não têm um equilíbrio entre estas notas”. E, tal como uma sobremesa, quando o açúcar é demasiado, torna-se enjoativo.
“Estas notas sempre foram trabalhadas, mas como secundárias. Foi com o perfume Angel [da Mugler] que passaram a ser entendidas e trabalhadas como notas principais dum perfume”, começa por esclarecer. “Vivíamos uma tendência completamente minimalista na área da perfumaria antes desta fragrância, com uma presença muito forte nos anos 80 e 90, surgir. Esta família goumande já existia anteriormente, mas foi popularizada por este perfume”, adiciona.
A sua diferença seduziu um elevado conjunto de pessoas, que trocaram os seus favoritos por este aroma marcante.
Um perfume para cada um
Não é, claro, para todos. “Reflete uma personalidade ousada, intensa e conte porânea”, avança Mylène Thioux. Tam- bém Cláudia Camacho acredita serem adequados para os que “procuram deixar marca”. Ainda assim, defende que nem sempre “retrata fielmente” quem os escolhe. “Digo, honestamente, que muitos dos que utilizam este tipo de perfume estão a usar o errado, porque não tem muito que ver com elas; deveriam ir para famílias mais amadeiradas, como os famosos chipres, ou para notas oceânicas”, admite. “Há um abuso excessivo do doce, que muitas vezes não abona à favor da personalidade da pessoa”, termina.
Da boca ao coração
Independentemente disso, têm sido “uma grande tendência no mundo da perfumaria”, revela a diretora perfumista da Equivalenza, que lançou recentemente Les Gourmandises, uma coleção composta por quatro fragrâncias que nos fazem viajar pelas memórias e reviver bons momentos à volta da mesa, a fazer bolos em família ou até encontros românticos.
Estas associações estão frequentemente por trás da envolvência e comunicação dos aromas, numa clara fusão entre olfacto e paladar — “dois sentidos intimamente ligados”, como lembra Cláudia Camacho. A união da Lancôme à Patisserie é um exemplo claro dessa estratégia.
Para apresentar o La Vie Est Belle Vanille, a marca traduziu as notas olfactivas num éclair gourmet. O resultado foi um doce exclusivo e requintado, que combinava “a baunilha caramelizada, jasmim luminoso e cremosidade dos almíscares brancos” presentes na fragrância.
Esteve disponível em Lisboa durante cerca de um mês, mais do que inicialmente previsto, graças ao sucesso da colaboração. Foi durante o outono que esta parceria viu a luz do dia. Não por acaso. Habitualmente, a família gourmande é pensada para os meses mais frios, uma vez que, por serem perfumes quentes e doces, funcionam como um abraço aconchegante.
Contudo, esta premissa tem vindo a ser refutada, podendo ser utilizados ao longo de todo o ano quando combinados com notas frescas. “Um gourmande leve com citrinos ou musk funciona na primavera; um frutado com elementos aquáticos pode ser adequado para o verão; e no inverno, podemos acrescentar-lhe profundidade com notas amadeiradas, especiadas, baunilha ou couro”, garante Amna Al Habtoor, fundadora da insígnia de fragrâncias unissexo Arcadia, em declarações à Vogue Arabia. Não é por acaso que comemos gelado mesmo nos dias mais frios. O segredo está sempre nos ingredientes que lhe adicionamos.