
Modelos mais velhas conquistam os desfiles de moda
Esquecemo-nos, durante muitos anos, que a moda — e as mulheres — não têm um prazo de validade. Porém, somos recordadas de que somos nós quem dita o fim da nossa história, com cada vez mais exemplos à frente da câmara ou em cima da passerelle que exibem orgulhosamente os cabelos brancos e as rugas.
Sasha Durman nunca imaginou que viria a ser modelo. Nem nos seus pensamentos mais longínquos ponderou esta possibilidade. “Nunca me vi, de todo, dessa forma”, conta-nos, regressando atrás nas memórias. “Tudo começou completamente por acidente. Tinha 20 anos e o meu objetivo era estudar Cinema”, revela.
No entanto, quando uma das maiores agências da altura a abordou na rua, em Nova Iorque, os seus planos mudaram. “Fizeram-me algumas fotografias de teste e disseram que, se quisesse um contrato, precisava de perder peso. Nunca pensei que fosse realmente acontecer, mas, de alguma forma, realizou-se”, adiciona, confessando que os tempos que se seguiram “foram intensos”: “integrar-me, não conseguir fazê-lo, emagrecer, ganhar esse peso de novo, ser enviada para sessões fotográficas em Nova Iorque e Milão…”.
A sua história escreveu-se, então, em novos capítulos que a afastaram da indústria por longos anos. “Trabalhei como modelo durante cerca de cinco anos e depois parei mais de três décadas”, nota. “A vida expandiu-se simplesmente noutras direções. Trabalhei em televisão e rádio, estudei Psicologia, formei-me em Cinema, escrevi guiões e estive à frente de uma loja vintage. Parece que vivi várias vidas diferentes e, honestamente, sinto que foi exatamente isso que aconteceu”, declara a modelo de origem russa.
Há menos de um ano, regressou para a frente da câmara. “Mudei-me para Portugal e tive de começar do zero, sem conhecer a língua, sem contactos ou muitas oportunidades de trabalho. Acabei num escritório. Enquanto procurava formas de conseguir um dinheiro extra, pensei no tipo de atividades que sei executar e regressar aos tempos de modelo surgiu como uma opção prática. Não tinha grandes expectativas, tendo em conta que já não tenho 20 anos, mas, ainda assim, enviei as minhas fotografias para a Elite Lisbon e resultou”, afirma.
Daí, foi um pequeno passo até começarmos a (re)ver o seu rosto em produções de moda em revistas internacionais, como a edição sérvia da Elle, nas campanhas da marca de joias holandesa Neeka e na portuguesa Arndes, além de em diferentes desfiles na ModaLisboa. Na passerelle da última edição do evento, distinguimo-la entre o restante casting nas apresentações das coleções de Luís Carvalho, Nuno Baltazar e na insígnia de Ana Rita de Sousa.
“Quando voltei a desfilar novamente, tudo pareceu mais dinâmico e vivo. Simplesmente, pareceu certo”, confessa. Ainda assim, mesmo sem nunca ter sentido necessidade de esconder a idade — “pelo contrário, por vezes aumentava-a pelo dramatismo” —, admite que as inseguranças se autoconvidaram para a festa. “Depois de tantos anos enquanto modelo, continuava a ter o instinto de parecer perfeita e jovem. Mas tinha a sensação de que, por vezes, as pessoas queriam, na verdade, enfatizar a idade e tornar as rugas mais visíveis”, comenta acrescentando: “a determinada altura, disse à agência que não parecia justo, mas pediram-me para relaxar e confiar neles, pois sabiam o que estavam a fazer. Além disso, referiram que precisava de me aceitar — quanto mais cedo, melhor. Estou agradecida por isso. Foi como uma sessão de terapia espontânea. A partir daí, disse ‘OK, não importa’. E tudo mudou.”
Tendência crescente
Não é, porém, a única mulher com mais de 50 anos a exibir as propostas dos designers para as estações vindouras. Nas Semanas de Moda de Nova Iorque, Milão, Londres e Paris, foram várias as modelos fora dos moldes habituais que encontrámos nas passerelles, provando que a idade é apenas um número. Com os seus orgulhosos cabelos brancos a distinguirem-se por entre a cabeleira, Stephanie Cavalli, uma modelo com cinco décadas de vida, deu o pontapé de saída no desfile de alta-costura para a primavera-verão 2026 da Chanel, a primeira desenhada por Matthieu Blazy.
O atual diretor criativo da casa de luxo afirmou, em entrevista ao The New York Times, que “as modelos mais velhas conferem uma dimensão completamente diferente às peças de roupa”. “Têm vida, viram o mundo”, adicionou após a apresentação, que incluiu ainda outras mulheres na mesma faixa etária, caso de Christina Chung e Laura Ponte.
O mesmo aconteceu na exibição das propostas de Tom Ford, Miu Miu, Alaïa ou Calvin Klein, num claro combate ao idadismo. Michael Kors e Gucci também repescaram as icónicas Christy Turlington e Kate Moss, agora com 57 e 52 anos, respetivamente, para mostrar a sua coleção.
Verdadeira maioridade
Claro que estas aparições não vêm despidas de intenção. São sinal de progresso, obviamente, mas questiona-se a sua continuidade. Se será apenas uma tendência ou algo para ficar. “Penso ser real. A qualidade de vida é diferente agora. As pessoas mantêm-se ativas mais tempo, aproveitam a vida até mais tarde e também continuam atraentes até serem mais velhas”, defende Sasha Durman. “A beleza da maturidade está a abrir-se ao mundo, que ainda está um pouco surpreso por isso. Acredito que se vá tornar mais interessante do que apenas a beleza dos 20 anos. Estes são rostos distintos; as faces para as quais queremos realmente olhar”, acrescenta.
Vermos esse reflexo, como se olhássemos para um espelho, em revistas, redes sociais e nas próprias passerelles, é frequentemente negligenciado, mas absolutamente necessário. Durante décadas, a moda construiu-se sobre uma ideia aspiracional tão estreita que deixou de fora a maioria das pessoas que a consomem — com tipos de corpos diferentes, idades variadas, tons de pele distintos e origens díspares. No entanto, este caminho em direção à inclusão “é muito importante”, diz a modelo.
“É bom termos modelos com este aspeto, porque são realmente como nós”, recorda. Assim, mesmo numa era em que envelhecer parece algo surgido de um filme de terror, com uma pressão crescente para congelar no tempo os nossos rostos e esconder quaisquer sinais da passagem do tempo, por mais naturais que sejam as rugas, os fios brancos ou as manchas na pele, encontrar mulheres com estas características é, mais do que um ato de rebelia, uma extensão da própria realidade.
Reais consumidoras
Além disso, é impossível esquecer um facto: de forma geral, são estas mulheres com idades mais avançadas quem tem verdadeiramente capacidade financeira para investir nas peças que vemos flutuar pelas passerelles. São, muitas vezes, profissionais estabelecidas, com carreiras sólidas, maior estabilidade e, consequentemente, maior liberdade para investir em peças de autor ou de luxo.
Portanto, mais do que uma procura por representação, é uma estratégia de mercado, depois de esta faixa etária ter sido votada, durante anos, à invisibilidade na comunicação das marcas, que optavam por enaltecer a beleza jovem como desejo único. Porém, os passos dados neste sentido são reais. Vemos, verdadeiramente, mais modelos com idades superiores a 40 ou mesmo 50 anos, que não são apenas figuras já bem conhecidas de todas nós, por aparecerem nas nossas séries e filmes favoritos, como Gillian Anderson ou Chloë Sevigny em Miu Miu. São mulheres comuns, que dão corpo ao manifesto artístico e quebram barreiras.