
Crónica. Enquanto eles precisam de relações sexuais, elas precisam de conexão emocional
Afinal, porque é que eles precisam de sexo para se ligarem emocionalmente na relação e elas precisam de se sentir ligadas emocionalmente para querem avançar para o sexo?
Em muitos consultórios de terapia de casal repete-se a mesma cena como se de um roteiro de um filme se tratasse. Ele diz que se sente rejeitado, que já nem se lembra da última vez que ela o procurou, que começa a duvidar de que ainda o deseje. Ela responde que se sente pressionada, que só é procurada quando ele quer relações sexuais, que não consegue desejar alguém que não a vê durante o resto do dia. Cada um sai convencido de que o outro não o compreende. Como se de duas linguagens distintas se tratassem ou vivessem em universos paralelos.
Mas, na verdade, os dois estão a falar sobre a mesma necessidade: a necessidade de se sentirem seguros na ligação. Contudo, procuram a resposta à sua necessidade por caminhos diferentes e, sem darem por isso, por falta de conhecimento e palavras para dar nome às emoções e necessidades mais profundas, acabam por bloquear o caminho um do outro.
Somos feitos para a ligação e para a conexão
Os seres humanos estão programados para criar laços profundos com poucas pessoas, e na vida adulta o parceiro amoroso passa a ser a figura central desse laço. É a pessoa a quem recorremos quando estamos assustados, cansados ou em baixo. É a nossa base segura.
Por isso, no fundo de quase todas as discussões de casal, mesmo as que parecem ser sobre loiça, dinheiro, parentalidade ou relações sexuais, encontra-se sempre a mesma pergunta silenciosa: “Estás aí para mim?”, “Importo-te?”, “ Posso contar contigo?”.
Quando a resposta é sim, o casal tem espaço para brincar, discordar e desejar-se. Quando a resposta é incerta, o nosso sistema de alarme dispara. O corpo reage como se houvesse uma ameaça, e o que se segue são estratégias de proteção: aproximar-se mais, aproximar-se com exigência, afastar-se, calar-se, atacar.
O sexo está no centro desta dinâmica, porque é o território onde a vulnerabilidade é maior, onde estamos nus, expostos, a pedir e nem sempre a receber. E por isso, nada nos faz sentir tão aceites ou tão rejeitados, com o que se passa nesse espaço tão importante para um casal.
Contudo, a necessidade é a mesma nos dois, a porta de entrada é que tende a ser diferente. Convém sublinhar que é uma tendência observada com frequência, mas não uma regra universal. Cada casal é um universo e desta forma, alguns casais podem não se reconhecer diante desta imagem, havendo mesmo casais em que os papéis se invertem.
Para muitos homens, o corpo é o caminho mais curto para a emoção
Para muitos homens, a proximidade física funciona como a linguagem mais direta da ligação e da conexão. O toque, o desejo da parceira, a entrega no ato sexual expressam algo que as palavras raramente conseguem: “és desejado”, “és bem-vindo”, “és suficiente”.
Isto relaciona-se, em parte, com a forma como muitos homens foram educados. Cresceram com permissão para o desejo físico e menos para a linguagem emocional. Muitos, nunca aprenderam a dizer “sinto-me só” , “isto é desconfortável para mim”, “tenho saudades tuas”. Mas sabem sentir, e sabem que o sexo os deixa mais abertos, mais ternos, mais próximos e que se permitem ficar mais disponíveis emocionalmente.
Por isso, quando ela diz que não quer, ele raramente ouve “hoje estou cansada”. Na verdade, talvez de forma mais imediata o seu sistema nervoso central escute algo como “não és importante” ou “já não me interessas”, conduzindo-o a um lugar de rejeição. A recusa não bloqueia só o sexo, bloqueia o canal principal por onde ele se permite sentir e ligar emocionalmente.
Para muitas mulheres, a ligação emocional abre a porta ao desejo
Para muitas mulheres, a sequência costuma ser a inversa. Sentirem-se vistas, ouvidas, compreendidas, validadas e acompanhadas emocionalmente, tende a desbloquear o desejo. Não é que o corpo e o desejo sejam necessidades secundárias ou menos importantes, muito pelo contrário. É que o corpo só se abre e se permite ligar, quando o sistema nervoso sente segurança.
Uma mulher que passou o dia a sentir-se sozinha na gestão da casa, dos filhos, das preocupações, que tentou falar e não foi ouvida, que sente tensão por resolver, tem dificuldade em passar para a entrega física, como quem muda de canal. O desejo, para ela, é a consequência de uma ligação que se encontre viva e não um instrumento para a criar a ligação.
Quando o parceiro a procura sexualmente, sem ter existido essa ligação ao longo do(s) dia(s), semana(s), mês(es), o seu sistema nervoso não escuta “quero estar contigo” ou “és importante para mim”. Na verdade, muitas mulheres relatam interpretar “preciso de alívio” ou acabam por sentir que apenas são desejadas pelo corpo ou pelo sexo. E isso, em vez de aproximar, afasta e bloqueia o ciclo sexual.
O mal-entendido
Aqui está o problema, o ciclo que ambos criam. Ele precisa da proximidade física para sentir a ligação emocional. Ela precisa da ligação emocional para se abrir à proximidade física. Cada um está à espera que o outro dê o primeiro passo, e cada um interpreta a espera do outro como falta de amor.
O ciclo que bloqueia o casal
Quando este desencontro se repete, instala-se um padrão na dinâmica sexual e emocional do casal. Não é ele, nem ela que são o problema. O problema é o ciclo onde ambos ficam presos e que se alimenta de si próprio.
Imagine-se um casal que já não se sente próximo há algumas semanas. Ele sente a distância e, para a diminuir, procura-a fisicamente. Ela sente a pressão, e como não se sente emocionalmente ligada, afasta-se. Ele sente a rejeição e faz uma de duas coisas: insiste, cobra, fica irritado; ou então fecha-se, cala-se, torna-se frio. Qualquer das duas reações confirma a ela que ele não a vê, que só quer sexo, que não é seguro abrir-se emocionalmente e ligar-se a ele sexualmente. Ela retira-se ainda mais. Ele sente-se ainda mais rejeitado.
Estas conclusões são dolorosas, mas não são verdadeiras. Advém de um lugar de medo que ambos os elementos do casal sentem.
Este padrão aparece com formas diferentes. Pode tomar a forma de uma acusação mútua, em que cada um aponta o dedo ao outro e ninguém olha para a ferida. Podem acontecer diferentes cenários: Poderá apresentar-se como uma dança de protesto, em que um persegue e o outro foge, onde cada um “grita”/”protesta” de maneiras diferentes “não estás aqui para mim!”; Pode ser um silêncio mútuo, em que os dois se protegem de tal forma, que nenhum elemento tem coragem para pedir nada mais, onde a relação se vai transformando numa convivência fria, distante, desligada, apática, conveniente, com a inexistência de sexo ou de intimidade emocional; Ou um terceiro cenário (que é talvez o mais perigoso), porque se esconde numa aparente calma e ausência de tensão. Já não há discussões, mas também já não há ligação. E quando ninguém reclama, ninguém percebe que a relação está a morrer.
O que está por baixo das reações
O que vemos à superfície são reações, estratégias de defesa de cada elemento. Mas por baixo delas, nas camadas mais profundas e menos visíveis existem emoções primárias, mais vulneráveis e mais verdadeiras.
Estas emoções primárias raramente são ditas. São demasiado expostas e vulneráveis. É mais fácil e comum os casais expressarem coisas como “nunca me procuras”, “nunca tomas a iniciativa” ou “só pensas nisso”, do que dizer “tenho medo de já não ser importante para ti” ou “sinto-me tão sozinha, que não consigo entregar-me a ti sexualmente”.
Quando o ciclo se desfaz
A mudança não começa com técnicas, nem com mais frequência sexual. Começa quando cada um consegue falar do que existe nas camadas mais profundas, em vez de reagir ao comportamento do outro. Ele pode aprender a dizer: “Quando me afastas, fico com medo de já não me quereres. É por isso que fico em baixo, ou insisto.” Dito assim, deixa de ser uma exigência e passa a ser um pedido de proximidade. Ela pode aprender a dizer: “Quando estamos distantes, sinto-me sozinha, e é difícil permitir-me entregar sexualmente assim. Preciso de sentir que estás comigo primeiro.” Dito assim, deixa de ser uma acusação e passa a ser a indicação de caminho, uma pista emocional a ser seguida pelo outro elemento.
O que cada um pode fazer
Para ele, o desafio é aprender a construir ligação e a conexão também fora do quarto. A conversa ao fim do dia, o gesto de atenção, o suporte emocional, a colaboração, o interesse genuíno no que ela vive, são a forma de ela sentir segurança, e é, em muitos casos, o que mais depressa traz o desejo de volta. Ao mesmo tempo, aprender a lidar com a recusa sem a transformar numa sentença sobre o seu valor. Que um “não” a uma proposta ou convite, não é um “não” a ele.
Para ela, o desafio é conseguir dizer claramente o que precisa, em vez de esperar que ele adivinhe, e perceber que a proximidade física, para ele, não é só desejo, é também um pedido de ligação. Por vezes, permitir-se ligar ao toque, sem pressão e sem obrigação, pode ser ele próprio um caminho para a segurança emocional. Isto só funciona, claro, quando é uma escolha livre, e não uma cedência, coerção ou culpa.
Dois caminhos, um destino comum
O sexo, no seu melhor, é um comportamento de vinculação: duas pessoas que se mostram vulneráveis, se entregam e se sentem acolhidas. Quando um precisa dele para chegar à ligação e o outro precisa da ligação para chegar a ele, não estão em lados opostos. Estão a percorrer o mesmo caminho em sentidos contrários, e basta que se encontrem a meio.
Esta situação exige curiosidade, em vez de acusação, e coragem para dizer o que realmente se sente por baixo da frustração. Quando estas frases são ditas e ouvidas, o ciclo perde força. Ele sente-se mais desejado, por isso procura-a com mais ternura. Ela sente-se mais segura, por isso deseja mais. O que antes era uma guerra de necessidades passa a ser uma dança. E é aí que a intimidade, física e emocional, volta a ser possível.