
O que está a mudar na linguagem infantil
Cada vez mais crianças simplificam frases e omitem verbos em idades nas quais já seria esperado um discurso mais elaborado. Será apenas uma fase do desenvolvimento normal ou o reflexo das novas formas de como crescem e brincam?
Há momentos na parentalidade que ficam para sempre na memória e ouvir um filho dizer as primeiras palavras é um desses. Primeiro chega um tímido “mamã” ou “papá”. Depois, quase sem darmos conta, o vocabulário cresce, as palavras transformam-se em frases, perguntas e conversas. Aprender a falar é um dos grandes marcos no desenvolvimento infantil, mas está longe de ser um processo fácil.
Nos últimos anos, muitos pais e educadores têm vindo a observar uma forma de falar que parece repetir-se com grande frequência. Expressões como “mãe, posso pão?” ou “pai, eu brincar” surgem e podem até parecer inicialmente apenas uma fase ou uma forma engraçada de falar. No entanto, quando este padrão persiste para além do esperado para a idade, pode levantar preocupações. É precisamente esta realidade que Diana Moreira, terapeuta da fala e fundadora da Clínica Alta…Mente, diz encontrar cada vez mais no meu consultório. “Noto que muitas crianças utilizam frases simplificadas em idades nas quais já seria esperado um discurso mais elaborado. Algumas até construíam frases completas e passaram a omitir elementos importantes, como os verbos.” Embora esta forma de falar possa despertar dúvidas, importa relembrar que a linguagem se desenvolve por etapas.
Quando nos devemos preocupar?
Nos primeiros anos, é natural que a criança simplifique as frases enquanto aprende a comunicar. Segundo a terapeuta da fala, entre os 18 e os 24 meses, é esperado que a criança comece a juntar duas palavras, como “quero bola” ou “mamã anda”. Só mais tarde, entre os 3 e os 4 anos, deverá utilizar frases com sujeito, verbo e complemento, fazer perguntas, relatar pequenos acontecimentos e manter conversas simples. Quando continua a omitir sistematicamente os verbos ou a utilizar estruturas muito reduzidas, é aconselhável uma avaliação diferente.
Mónica Cró Braz, pediatra no Hospital CUF Tejo, alerta, por outro lado, para um dos mitos que continua a atrasar a procura de ajuda: “Tem 2 anos e não fala, mas é normal. O pai também falou tarde”. Este é um mito que persiste e que não é verdadeiro. “Enquanto pediatra, preocupa-me que uma criança não verbalize palavras entendíveis até aos 18 meses. Todas as crianças crescem em ritmos diferentes, mas dentro de intervalos de normalidade” afirma. “Se o pai ou mãe falaram tarde, podem também ter tido um atraso de linguagem não diagnosticado e esta criança deve ser avaliada”, acrescenta.
Causas para este fenómeno
Não existe uma só explicação para esta mudança na forma como algumas crianças comunicam hoje em dia. Pelo contrário, as especialistas defendem que se trata de um fenómeno multifatorial, resultado das alterações nas rotinas familiares, nos hábitos de comunicação e na forma como os mais pequenos passam agora o seu tempo.
Na prática clínica, Diana Moreira observa que muitas crianças têm hoje menos oportunidades para participar em conversas prolongadas com os adultos. “Vivemos com mais pressa, há uma maior exposição aos ecrãs desde cedo e, muitas vezes, a comunicação acaba por ser funcional e reduzida. Além disso, também os próprios adultos simplificam frequentemente a linguagem”, nota. Sem nos apercebermos, dizemos expressões como “queres água?” ou “vamos papa”, em vez de “queres beber água” ou “vamos para a mesa”, e, apesar de terem boa intenção, estes modelos linguísticos mais pobres acabam por limitar o que a criança ouve repetidamente.
As crianças aprendem exatamente aquilo que ouvem, por isso quanto mais rica for a linguagem à sua volta, maiores serão as oportunidades para desenvolver estruturas linguísticas mais elaboradas. O importante não é só a quantidade de palavras, mas também a qualidade das interações da criança com o adulto. A opinião é reforçada por Mónica Cró Braz, que afirma que esta realidade é o reflexo da mudança nos hábitos diários. “Se, por um lado, as crianças leem menos, o que torna o vocabulário mais pobre, por outro, as tecnologias e a Internet trouxeram uma rapidez e um imediatismo às suas vidas que os acompanha também na linguagem escrita e oral”, menciona.
Mais vídeos, menos interações
Entre todos os fatores apontados, os ecrãs continuam a ocupar um lugar de destaque. Não apenas pelo tempo que is mais pequenos passam em frente dos mesmos, mas sobretudo na forma e na idade prematura em que começam a ser utilizados. A pediatra recorda que as recomendações são claras: até aos 2 anos, não devem ter acesso a ecrãs, uma vez que não traz qualquer benefício e tem um grande impacto na qualidade do sono e no desenvolvimento da criança, que pode tornar-se mais isolada ou agressiva.
Depois dessa idade, a utilização deve ser limitada e acompanhada por um adulto. “A brincadeira livre deve ser promovida e até o tédio deve ser incentivado. É daí que surge grande parte da criatividade e imaginação das crianças”, explica Mónica Cró Braz. Também a crescente presença de conteúdos infantis em português do Brasil levanta receios entre os pais. No entanto, Diana Moreira desvaloriza a ideia de que o problema possa estar relacionado com a variante da língua. “É relativamente comum ouvirmos crianças utilizarem palavras como “trem”, “ônibus” ou “celular”, porque fazem parte dos conteúdos que consomem. O problema não está no português do Brasil. O problema surge quando o tempo de exposição aos ecrãs substitui a interação humana. Um vídeo nunca substitui uma conversa entre pais e filhos”, conclui a terapeuta da fala.
Devemos corrigir?
Quando a criança diz frases como “Posso água”, a reação imediata de muitos pais é corrigi-la. Mas será essa a melhor estratégia? Para Mónica Cró Braz estas construções devem, sim, ser corrigidas, tanto em casa como na escola. No entanto, isso não significa interromper constantemente a criança para lhe dizer que está errada. Em vez de corrigir diretamente, o ideal é oferecer um modelo correto de forma natural. “Se uma criança pequena perguntar “posso pão?”, podemos responder: “claro, podes comer pão.” Com crianças mais velhas, que já compreendem melhor a linguagem, podemos levá-las a refletir: “posso pão? O que queres fazer ao pão?”. Assim, ajudamos a criança a perceber que a frase precisa de um verbo para ficar completa.” explica Diana Moreira.
A linguagem constrói-se todos os dias
Estimular a linguagem, ao contrário do que muitos pais pensam, não exige exercícios formais. Pelo contrário, as melhores oportunidades surgem nas pequenas rotinas do dia a dia. Cada refeição, ida ao supermercado, passeio ou momento de brincadeira podem transformar-se numa oportunidade para estimular a linguagem.
Diana Moreira afirma que esta é uma realidade que merece ser observada com atenção, mas sem alarmismo. Na sua perspetiva, existe hoje uma maior sensibilidade para o desenvolvimento infantil e isso tem levado a que muitos pais e educadores procurem ajuda mais cedo, algo que considera essencial, uma vez que a intervenção precoce continua a ser um dos fatores que mais influencia a evolução da criança.