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Crónica. A (peri)menopausa e o redescobrir da sexualidade no casal

Crónica. A (peri)menopausa e o redescobrir da sexualidade no casal

A perimenopausa está ainda envolvida em mitos, tabus e silêncios. E é por isso que é urgente falar-se mais sobre esta fase que representa uma mudança bastante significativa no corpo da mulher, mas também na relação de um casal. Será que a sexualidade e o prazer terão de desaparecer com a perimenopausa?

Por Dez. 15. 2025

A menopausa tem sido, ao longo dos tempos, um momento da vida da mulher constituído por enorme silêncio e angustia. Foram ouvindo durante bastante tempo que esta fase representaria o fim de um ciclo, de puderem reproduzir e o de serem colocadas na prateleira. Deixariam de ser atraentes, interessantes, desejáveis. Muitas mulheres chegam a esta fase com vergonha perante si mesmas e pelo seu corpo, e a acreditar que o desejo sexual diminui e que a sua sexualidade deverá ficar esquecida. São inúmeras as mulheres que sentem que existe definitivamente algo de errado consigo mesmas, deixando de se reconhecerem no seu corpo, num corpo que está a envelhecer, nos sintomas que ele comunica e na imagem que ele manifesta para o exterior.

Ao longo de um ciclo de vida de um casal, ou seja, numa relação de longo termo, é certo que os corpos irão alterar-se, especialmente com a idade, com a doença, com as feridas físicas e emocionais que nos vão afetando. A mudança traz consigo novas necessidades que poderão alterar a forma como damos e recebemos cuidado, afeto e toque, e como promovemos a intimidade na relação.

A maior verdade é que esta fase traz consigo a certeza de que não existe uma única sexualidade na vida. A vida humana é vivida diante de um conjunto de sexualidades e diferentes formas de vivermos a nossa sexualidade. Poderá, com certeza, ser um período desafiante na vida da mulher e do casal, mas conter em si a possibilidade para aprofundar da intimidade do casal, dependendo da forma como os seus elementos se adaptam e olham um para o outro com empatia, compaixão e respeito mútuo.

O que diferencia a perimenopausa da menopausa?

A perimenopausa é a fase em que a mulher ainda pode menstruar e engravidar. Poderá viver ciclos menstruais com algumas irregularidades (o ciclo pode tornar-se irregular, ou seja, mais curto ou mais longo, e o fluxo variar na sua intensidade), mas já com a presença de sintomas de menopausa. Considera-se que a mulher entra na menopausa quando está sem menstruar durante 12 meses.

Na menopausa e na fase que lhe antecede, a perimenopausa, assistimos a uma diminuição intensa do estrogénio e da progesterona, que afetam o nosso humor, a nossa pele, mas também o nosso raciocínio.

Neste sentido, os sintomas da perimenopausa e menopausa poderão passar por:

  • Dificuldades em dormir e insónias;
  • Suores e afrontamentos;
  • Alterações de humor — irritabilidade, tristeza e tensão/nervosismo, podendo mesmo aumentar a possibilidade de alterações a nível da saúde mental, como depressão e ansiedade);
  • Secura das mucosas — secura dos olhos, secura e desconforto vaginal, que pode ter especial impacto ao nível das relações sexuais com penetração);
  • Alterações de pele — a pele da vulva poderá tornar-se mais fina, perder a elasticidade devido à diminuição do estrogénio e, desta forma, ser mais suscetível a feridas no momento da penetração;
  • Sensação de enorme cansaço e exaustão física;
  • Dificuldades de concentração e memória — sensação de névoa mental ou mesmo lapsos de memória:

Poderá ainda existir desconforto urinário, com uma maior tendência para infeções urinárias ou incontinência urinária; problemas ósseos — aumentando o risco de osteoporose, por exemplo —, entre outros.

O corpo que muda e o contexto que precisa de mudar em conjunto para reacender o desejo

Por outras palavras, o corpo da mulher muda com a queda abrupta de estrogénio, o que conduz a um enorme desafio na vida do casal, mas este aspeto não tem de significar o fim da sexualidade e do prazer. Ouvimos comummente que a (peri)menopausa conduz à diminuição do desejo, mas este não é uma força misteriosa que se liga e desliga sozinho. O desejo é, na verdade, uma resposta do corpo e do cérebro a um determinado contexto. E o contexto (físico, emocional e relacional) muda ao longo do tempo na nossa vida.

Na (peri)menopausa, o corpo muda o idioma do prazer e, desta forma, o casal é convidado a reaprender essa linguagem. O casal precisa de compreender o que se está a passar, precisa de aprender a escutar o corpo e a sua nova linguagem, a realinhar-se e ajustar o contexto. O sistema sexual feminino é altamente sensível ao contexto que o circunda. Afinal, o que influencia o desejo não é apenas o corpo, mas o ambiente emocional, a sensação de segurança e a qualidade da conexão.

O nosso cérebro é o maior órgão sexual que possuímos, além da pele! Neste sentido, poderá ser importante relembrar como funciona o nosso cérebro perante a resposta sexual. No fundo, é como se existissem dois pedais no nosso cérebro: um pedal da excitação, referindo-se a tudo aquilo que nos liga, impulsiona e ativa para o sexo; e o pedal do travão, que corresponde a tudo aquilo que nos possa travar ou resfriar para a ligação sexual.

Torna-se mais fácil compreender que quando existem demasiados fatores a carregar no pedal do travão, a nossa resposta sexual poderá ficar desativada ou inibida, e que nos poderá impossibilitar de gostar do sexo que temos com a nossa pessoa parceira. Por exemplo:

A ausência de suporte emocional por parte da pessoa parceira diante dos desafios da vida do casal;

Os aspectos stressores presentes na nossa vida;

A prisão que sentimos face aos papéis que desempenhamos;

A dor que a mulher sente com a penetração;

A exaustão física que inibe o desejo e a disponibilidade para se entregar ao prazer;

A mulher não se sentir vista, escutada ou seduzida ao longo dos dias (e que é um aspeto importantíssimo na relação de casal. Os preliminares deverão durar cerca de 23 horas e meia e não os 5 ou 10 minutos habituais antes de uma relação sexual, devendo incluir uma atitude de disponibilidade para escutar, apoiar, conversar, ouvir, tocar, abraçar e seduzir a pessoa parceira).

Neste sentido, poderá ser importante para o casal observarem e analisarem o que está a carregar no pedal da excitação, mas também o que está a pesar no pedal do travão, o desequilíbrio que poderá estar a acontecer num e noutro lugar e a conduzir a uma indisponibilidade e consequente diminuição do desejo e de resposta erótica na relação, mais importante ainda nesta fase de vida da mulher.

Na (peri)menopausa, embora se verifique que o acelerador (os estímulos excitantes) ainda funciona, os travões tendem a ficar mais sensíveis: o stresse, o cansaço, a secura vaginal, o desconforto com o corpo e o medo de não estar à altura poderão deixar a mulher a sentir-se desconfortável e insegura. O sistema continua a funcionar, apenas responde a estímulos diferentes.

A sexualidade na (peri)menopausa pode ser uma oportunidade de crescimento no relacionamento. Casais que conversam sobre o que muda na sua vida, no corpo da mulher, na sua sexualidade — sem culpas, nem crítica —, descobrem novas formas de prazer e conexão. Neste sentido, a pessoa parceira precisa de compreender que o desejo não desapareceu, apenas mudou de linguagem, tornando-se mais sensível do que nunca aos aspetos contextuais e, por isso mesmo, também relacionais.

A intimidade emocional, o toque sem pressa e a curiosidade mútua tornam-se nesta fase os maiores aliados. Uma das mudanças possíveis passa pela forma como se entende o desejo na sexualidade. Ou seja, o desejo deixa de ser visto como um impulso e passa a ser encarado como uma resposta ao contexto físico, emocional e relacional. Talvez o desejo espontâneo diminua para dar lugar ao desejo responsivo, aquele que surge após o estímulo, a proximidade, a intimidade, o suporte emocional, etc.

A conexão emocional, a intimidade, o envolvimento e o suporte emocional permitem à mulher experimentar uma sensação de satisfação integral (física, emocional e relacional), sendo esta sensação positiva que gera predisposição para novos encontros íntimos. Para muitas mulheres, e mais ainda nesta fase das suas vidas, o desejo não inicia com um impulso espontâneo, mas sim dentro de um contexto relacional e emocional íntimo e construtivo.

O desejo feminino ou, na verdade, o prazer sexual feminino, revela uma tendência em surgir como resposta à qualidade da interação, em vez de ser um impulso que surge do nada. O corpo da mulher responde quando o seu coração é ouvido. Reconhecer isso pode aliviar a pressão e abrir espaço para um novo tipo de intimidade, mais intencional e comunicativa. Nesta fase da vida da mulher, surge um convite ao casal para uma intimidade e sexualidade mais conscientes.

Redescobrir o corpo e o prazer com gentileza

Nesta fase, não só a mulher precisará de voltar a descobrir o seu corpo e a ser autocompassiva e gentil com ele, como o casal necessitará de o escutar e escutar-se entre si, para reinventar a sua sexualidade. Esta é uma altura da vida da mulher em que a mesma deverá tratar o corpo com curiosidade e não com julgamento.

Fechar ciclos de stresse (um corpo relaxado, aceite e cuidado é um corpo que pode desejar. Por isso, o trabalho do casal não é reativar o desejo perdido, mas criar as condições para que o prazer possa ser sentido, usufruído e desejado de novo); reaprender a amar o corpo (os seios, a vulva, a barriga, as formas diferentes que ele adquire, etc, e reaprender a aceitar as diferentes partes de nós); explorar novas formas de toque; procurar conforto físico e emocional e pedir ajuda quando necessário (por exemplo, a reposição hormonal quando faz sentido, a utilização de lubrificantes, a possibilidade do estradiol vaginal, etc) são atitudes de autocuidado e não de falha.

A (peri)menopausa não é um fim, mas uma transição para uma sexualidade mais consciente, escolhida e conectada. É imperativo que o casal aprenda a ajustar o ritmo, a escutar o corpo e a acolher-se mutuamente. Desta forma, a sexualidade transforma-se em algo mais profundo: um diálogo de vida madura, amor e redescoberta.

A sexualidade como um espaço de reencontro enquanto casal

Nesta fase, o casal tem uma oportunidade preciosa: descobrir uma intimidade menos performativa e mais autêntica. Muitas mulheres, ao deixarem de se preocupar com a fertilidade ou com padrões de beleza impostos, sentem-se finalmente livres para viver o prazer com verdade. Livres para se encontrarem finalmente consigo mesmas de uma forma autêntica! Para o casal, esta nova fase deverá implicar novas conversas, trazer a curiosidade e outro tempo para as necessidades que a sua relação agora apresenta. A pessoa parceira pode tornar-se num aliado na exploração e descoberta do novo corpo, aprendendo a escutar sinais mais subtis: o toque, a respiração, a vontade de estar perto sem pressa, o apoio, o suporte, a empatia, a aceitação e a honra de se ver o corpo da pessoa parceira a envelhecer, que poderá ser um momento que potencia a intimidade.

O casal poderá reaprender o que acende e o que apaga o fogo do prazer e realinhar-se conjuntamente. Este é um tempo de uma nova escuta – do corpo, da relação e da sua própria história. O erotismo na maturidade não é menos vivo. É apenas mais verdadeiro e mais sábio. E talvez seja aí que o amor encontra a sua forma mais profunda de expressão.