
É tiro e queda: quando se deve preocupar com a queda de cabelo
Sabemos que, assim que as folhas começam a cair das árvores, os fios do nosso cabelo acompanharão esse movimento. Mas existem razões para preocupação?
“A queda de cabelo acontece apenas a quem tem má índole.” “Quando uma mulher é má, o cabelo não cresce.” “O diabo não conseguiu alcançar-me, por isso fez-me perder o cabelo.” Existem diferentes variações da mesma premissa pelas redes sociais, em vídeos onde são exibidos longos fios, com uma aparência saudável e repletos de luminosidade, mas todas chegam à mesma conclusão: se forem boas pessoas, o cabelo nunca cairá.
A preocupação acerca deste tema deve cingir-se a quem tem mau carácter. Não é, contudo, mais do que uma teoria que nasceu na Internet a partir, alegadamente, de uma interpretação livre de uma passagem da Bíblia. Surpresa. Sabemos que o cabelo sempre esteve envolto em misticismo e carregou (ou carrega) grande significado a nível cultural e social, mas, no que diz respeito à queda capilar, a resposta é, por vezes, mais simples do que a presença de mau-olhado. Nesta altura do ano, em particular, o aumento de fios espalhados pelo chão ou presos na escova será normal e deverá estar relacionado com o próprio ciclo do cabelo.
Fruta da época
Perdemos, em média, entre 50 e 100 fios por dia, mas, depois das férias de verão, este número pode aumentar durante algumas semanas. “Quase nunca é motivo de alarme”, garante Marta Teixeira, enfermeira com uma especialização em Tricologia. “Alguns estudos sugerem que determinadas épocas do ano podem estar associadas a uma maior proporção de fios na fase telogénica — a fase de repouso do ciclo capilar —, fazendo com que, posteriormente, se observe uma queda mais acentuada”, explica Tamires Santana, dermatologista no Hospital CUF Descobertas.
“As alterações na exposição à luz solar e na duração do dia, bem como outros fatores ambientais, poderão contribuir para estas variações”, completa. Embora parte do ciclo natural do cabelo, “existem alguns cuidados que podem ajudar a mantê-lo saudável e a minimizar a queda”, avança a médica. “Uma alimentação equilibrada é fundamental para garantir o aporte nutricional adequado de proteínas, ferro, zinco, vitaminas e outros nutrientes essenciais para o crescimento do cabelo. Dietas muito restritivas ou perdas rápidas de peso podem favorecer o aumento da queda” de fios, começa por elencar.
Além disso, “ter uma rotina de cuidados adequada ao tipo de cabelo, tratar problemas do couro cabeludo e controlar o stresse são igualmente importantes. No dia a dia, devemos ter alguns cuidados com o próprio cabelo: evitar o uso excessivo de secadores, placas e outros aparelhos de calor, reduzir procedimentos químicos muito agressivos e evitar penteados demasiado apertados, que podem fragilizar o fio”, termina.
Em contínuo
Todavia, quando se prolonga no tempo, é necessário dar-lhe a devida atenção. “Uma queda persistente e intensa não deve ser atribuída apenas a sazonalidade, devendo estar atenta caso haja diminuição visível da densidade capilar, aparecimento de falhas, alargamento da risca do cabelo, comichão ou descamação do couro cabeludo”, salienta a profissional, que aconselha a procura por avaliação médica de modo a identificar a causa.
“Uma das mais frequentes é o deflúvio telógeno, um distúrbio do ciclo capilar que provoca queda persistente e difusa e que pode surgir alguns meses após determinados acontecimentos, como períodos de stresse, febre ou infeções, perda de peso significativa em pouco tempo — por exemplo, associada ao uso de medicamentos para perda de peso —, cirurgias, alterações hormonais ou défices nutricionais”, clarifi ca.
Neste caso, Tamires Santana sublinha que “não devemos recorrer à automedicação ou iniciar suplementos por iniciativa própria”. Afinal, “a queda de cabelo nem sempre está relacionada com uma deficiência de vitaminas e, por isso, tomar suplementos sem necessidade não vai resolver o problema. O mais importante é não entrar num ciclo de tentativas e tratamentos sem orientação médica”.