
Como cuidar da pele seca no inverno
Nota que a sua pele fica mais áspera, vermelha e desconfortável no inverno? Não é a única! Conversámos com um dermatologista para responder a todas as questões sobre o tema.
A pele muda ao longo do tempo e, chegando o inverno, é necessário adaptar os cuidados a esta nova realidade. João Maia Silva, coordenador de Dermatologia no Hospital CUF Descobertas e na Clínica CUF Estádio José Alvalade —Lisboa, explica como o devemos fazer.
Cuidados a ter com a pele no inverno
Que mudanças notamos na pele durante esta estação?
No inverno, a pele precisa de cuidados redobrados. Com a descida da temperatura e o aumento do vento, a humidade do ar diminui, o aquecimento está constantemente ligado e passamos mais tempo em ambientes fechados e secos. Do ponto de vista dermatológico, isto traduz-se num aumento da perda de água através da camada mais superficial da pele (o chamado estrato córneo) e numa alteração da barreira cutânea, que deixa de cumprir tão bem a sua função de escudo protetor. Clinicamente, aquilo que as pessoas sentem é a pele mais áspera, prurido (comichão), vermelhidão, descamação e lábios gretados, que podem afetar mesmo quem tem poucas queixas no resto do ano.
Que fatores contribuem para estas alterações?
A superfície da pele é protegida por um filme hidrolipídico constituído por água, lípidos e substâncias hidratantes naturais. Quando o ar está frio e seco — e ao somarmos banhos quentes, detergentes agressivos e variações bruscas de temperatura (da rua fria para o interior aquecido) —, esse filme é progressivamente removido. A água evapora-se mais depressa e o resultado é aquilo a que chamamos xerose ou pele seca.
Os hábitos de higiene são realmente dos fatores que mais contribuem, muitas vezes sem se perceber, para agravar o problema. A água muito quente, durante o banho, dissolve com facilidade os lípidos da barreira cutânea e aumenta a vasodilatação, o que pode acentuar a sensação de ardor e comichão ao sair do banho.
Como devemos adaptar a rotina de beleza nesta altura do ano?
De forma geral, devemos adaptar a rotina de beleza nesta altura do ano simplificando e tornando-a mais gentil com a pele. Em vez de múltiplas etapas com vários produtos potencialmente irritantes, faz mais sentido garantir quatro pilares: limpeza suave, hidratação adequada, proteção solar e, quando indicado, um ou outro ativo específico (por exemplo, um retinoide ou um despigmentante, sempre com orientação médica nas peles mais sensíveis).
No inverno, é necessário reduzir a frequência de esfoliações físicas ou químicas, espaçar a aplicação de ácidos ou retinoides mais fortes e compensar com um bom hidratante reparador. À noite, a rotina pode ser ligeiramente mais nutritiva, usando produtos com maior capacidade de reparação da barreira, privilegiando-se de manhã texturas confortáveis, mas leves o suficiente para serem bem toleradas sob o protetor solar.
Na prática, que produtos recomenda adicionar?
Mais do que falar em marcas, é útil pensar em categorias:
• Um bom produto de limpeza suave, adaptado ao tipo de pele, é o primeiro passo: sem álcool em excesso, sem perfumes irritantes e com pH próximo do fisiológico.
• Em seguida, aconselha-se um hidratante específico para o rosto, adequado a pele seca, mista ou oleosa, com os tais ingredientes humectantes e reparadores.
• Finalmente, um protetor solar de amplo espectro, com fator igual ou superior a 30, usado diariamente nas áreas expostas (rosto, pescoço, orelhas e dorso das mãos): é dos poucos cosméticos com impacto comprovado na prevenção de cancro da pele e no envelhecimento cutâneo. É uma ideia errada a de que, por ser inverno, deixamos de ter de nos preocupar com o sol. A radiação ultravioleta está presente todo o ano, mesmo em dias frios e nublados. A radiação UVA, em particular, atravessa nuvens e vidros, contribuindo para o envelhecimento cutâneo e para o risco de cancro da pele, a longo prazo.
Por que texturas e ingredientes devemos optar?
Na pele seca ou sensível, as texturas em creme, bálsamo ou pomada são, em regra, mais eficazes no inverno do que as loções muito fluidas. Em termos de formulação, é interessante combinar dois grupos de ingredientes: humectantes, como glicerina, ureia em baixa concentração ou ácido hialurónico, que atraem água; e oclusivos, nomeadamente ceramidas, ácidos gordos, colesterol ou manteiga de karité, que suavizam e preenchem a camada córnea.
Em peles oleosas ou mistas, preferimos texturas em gel ou gel-creme, com humectantes e ingredientes reparadores da barreira, mas com menor carga lipídica. Substâncias como a niacinamida e o pantenol são úteis em vários tipos de pele pela ação calmante e de reforço da barreira.