Diagnóstico online da pele: entre a inovação e a evidência científica

Diagnóstico online da pele: entre a inovação e a evidência científica

Já não basta saber se a pele é seca ou oleosa. Hoje, uma fotografia tirada com o telemóvel é o suficiente para um algoritmo traçar um diagnóstico completo e sugerir a rotina ideal.

Por Set. 29. 2026

A pele sempre teve dono, mas até há pouco tempo esse dono só sabia dizer se era seca ou oleosa, e isso bastava para escolher um creme da prateleira e seguir em frente. Mas, ao que tudo indica, este gesto simples está a ficar para trás…

Hoje em dia, os consumidores só têm de tirar uma fotografia com o telemóvel e entregá-la a um algoritmo para receberem, em poucos segundos, um diagnóstico pormenorizado sobre rugas, poros, manchas, hidratação e até sinais precoces de envelhecimento.

Inúmeros grupos de cosmética (como a L’Oréal, a Pierre Fabre ou a sul-coreana Amorepacific) estão a investir em ferramentas de inteligência artificial e em dispositivos vestíveis (wearables) que conseguem acompanhar a pele quase em tempo real. O objetivo é criar produtos e rotinas talhados para cada pessoa, e não para uma categoria genérica. Mas será que a ciência já sustenta estas promessas ou estaremos, sobretudo, perante uma estratégia de marketing muito bem embrulhada?

©Pexels

Uma selfie vale mais que mil perguntas

Com a velocidade a que a inteligência artificial (IA) está a avançar, nenhuma marca quer ficar de fora. E, no universo da beleza, foram várias as multinacionais a lançar aplicações que analisam fotografias do rosto e que sugerem, quase automaticamente, uma rotina de cuidados personalizada.

A Garnier criou o SkinCoach AI (disponível também em garnier.pt), que a partir de uma selfie avalia seis sinais de pele saudável, luminosidade, elasticidade, qualidade dos poros, uniformidade, suavidade e ausência de manchas escuras, recorrendo a uma tecnologia patenteada, treinada com uma base de dados de mais de 15 mil rostos. No final, a app sugere ingredientes, produtos e pequenos gestos diários adaptados ao que foi detetado na imagem.

A La Roche-Posay seguiu um caminho parecido com o Spotscan+, associado à linha Effaclar e já disponível no mercado português. Com apenas três fotografias, a ferramenta compara a acne do utilizador com uma vasta base de dados de imagens validadas por dermatologistas, atribui uma classificação à pele e recomenda produtos e cuidados específicos.

Já a Vichy tem o Skin Consult AI, disponível em vichy.pt, um algoritmo desenvolvido com dermatologistas que, a partir de uma selfie, avalia sete sinais de envelhecimento (como rugas, firmeza, manchas escuras e vermelhidão) e devolve uma rotina de cuidados personalizada em poucos passos.

A A-Derma, do grupo francês Pierre Fabre, tem um diagnóstico de pele em aderma.pt, mas que é obtido através de um questionário, sem a análise de imagem por inteligência artificial. Aqui, a utilizadora responde a perguntas sobre o tipo de pele e as suas principais preocupações e recebe por e-mail uma sugestão de rotina.

O que revela o nosso microbioma cutâneo

Além da imagem e dos sensores, há uma terceira via de personalização que está a ganhar terreno, a análise do microbioma cutâneo, conjunto de bactérias, fungos e outros microrganismos que vivem à superfície da pele e ajudam a regular o pH, a barreira protetora e a resposta a inflamações como acne, rosácea ou eczema.

Nos últimos dois anos, surgiram no mercado internacional kits domésticos que avaliam este equilíbrio microbiano. A norte-americana LaFlore lançou um conjunto de tiras de teste que avalia o equilíbrio bacteriano da pele e gera um relatório detalhado com uma rotina e recomendações de produtos ajustadas ao resultado.

Por sua vez, a francesa Byome Labs desenvolveu o Byome Derma, um dispositivo pensado para farmácias, perfumarias e institutos de estética que usa tiras semelhantes às dos testes rápidos de diagnóstico e uma app que mede vários aspetos da pele em poucos minutos, sem ser necessário equipamento especializado.

Este tipo de análise ainda não está tão disseminado em Portugal como as apps de diagnóstico visual, mas os grandes grupos de cosmética já apontam o microbioma como uma das áreas de investimento prioritárias para os próximos anos, a par da IA e dos ingredientes bioadaptogénicos pensados para responder ao stresse ambiental e urbano.

A pele que se veste (e comunica com o telemóvel)

Se as apps analisam um momento, os wearables prometem acompanhar a pele e os seus muitos ‘humores’ ao longo do dia. Num artigo do blog oficial da L’Oréal Portugal, intitulado Tecnologia Wearable, o que é e tipos aplicados à beleza, a marca explica que “estes dispositivos captam dados corporais em tempo real e têm a capacidade de avaliar o estado da pele, fornecendo recomendações personalizadas ou emitindo estímulos que promovem o rejuvenescimento e combatem o envelhecimento”.

Também existem adesivos discretos, que se colam diretamente na pele para medir a hidratação, o nível de exposição solar e até de pH, permitindo ajustar os cuidados diários às necessidades reais de cada pessoa, e não a uma média teórica. Um dos exemplos mais conhecidos é o My Skin Track UV, da La Roche-Posay, lançado em 2018. Trata-se dum pequeno sensor sem bateria que se pode prender à roupa, aos óculos de sol ou a uma mala e que mede a exposição a raios UVA e UVB, além de fatores ambientais como poluição, pólen e humidade. Os dados são depois enviados para uma app no telemóvel, que ajuda a ajustar a proteção solar ao longo do dia consoante o local onde a pessoa se encontra.

Mais recentemente, no CES 2026, a maior feira mundial de tecnologia de consumo, que acontece todos os anos em Las Vegas, a sul-coreana Amorepacific apresentou o Skinsight, um patch eletrónico ultrafino desenvolvido em parceria com o MIT, que mede vários sinais biológicos ligados ao envelhecimento da pele em tempo real. A inteligência artificial integrada tenta prever a evolução futura da pele e propõe cuidados hiperpersonalizados.

Onde acaba a ciência e começa o marketing

Felizmente para as consumidoras e fãs de cosmética, são as próprias marcas a fazer questão de sublinhar os limites destas tecnologias. Tanto o SkinCoach como a Skinive deixam claro, nos respetivos sites, que oferecem apenas uma autoavaliação e  recomendações inicias. Perante problemas persistentes ou sinais fora do comum, a indicação é sempre a mesma, a de procurar um profissional de saúde qualificado.

Do ponto de vista científico, os algoritmos de IA ainda precisam de validação clínica mais alargada e a fiabilidade dos resultados depende muito da qualidade das fotografias e dos dados fornecidos pelo utilizador. Uma imagem tirada com pouca luz ou um ângulo pouco favorável pode distorcer e muito o diagnóstico final. Ainda assim, vários estudos da área reconhecem que estas tecnologias permitem fazer análises detalhadas à textura, oleosidade, manchas, rugas e hidratação, além de conseguirem propor soluções de skincare muito mais ajustadas do que a antiga divisão entre pele seca, oleosa e mista.

A rotina de beleza dos próximos anos

O sector da cosmética não tem dúvidas de que a procura por cuidados personalizados só tem tendência para crescer. De acordo com a consultora britânica The Business Research Company, o mercado global de cosmética personalizada deverá crescer de 24,76 mil milhões de dólares em 2025 para 26,56 mil milhões em 2026, impulsionado sobretudo pela inteligência artificial e pelas consultorias digitais de skincare.

E é por isso que, nos próximos anos, o mais provável é que as rotinas se tornem cada vez mais integradas, com diagnósticos feitos por apps ou por espelhos inteligentes instalados na casa de banho, acompanhamento contínuo através de wearables e cosméticos formulados de acordo com dados pessoais da pele, incluindo informação sobre o microbioma cutâneo.

Contudo, e apesar de todo o entusiasmo tecnológico que está a invadir todas as áreas da nossa vida, o toque humano dificilmente vai desaparecer da equação, sobretudo num mundo como o da beleza, tão ligado ao contacto com a pele, à sensibilidade e às emoções. Os dermatologistas vão continuar a usar estas ferramentas apenas como complemento da prática clínica e não como substituto dela!

No fundo, o que estas ferramentas trazem de novo é uma forma diferente de olhar para a pele, com mais dados, mais frequência e mais atenção ao que muda de estação para estação. Cabe a cada consumidor decidir até que ponto quer entregar esse acompanhamento a um algoritmo e até que ponto prefere manter a palavra final com um profissional de saúde. Entre a selfie e o espelho de casa de banho, a certeza é só uma, a pele de cada pessoa vai continuar a ser única, só que com muito mais informação disponível.

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